O ego e o ID e outros trabalhos
















VOLUME XIX
(1923-1925)















Dr. Sigmund Freud





O EGO E O ID (1923)
         
         INTRODUO DO EDITOR INGLS
         
         DAS ICH UND DAS ES
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1923 Leipzig, Viena e Zurique, Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 77 pgs.
         1925 G.S.., 6, 351-405.
         1931 Theoretische Schriften, 338-91.
         1940 G.W., 13, 237-289.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         The Ego and the Id
         1927 Londres, Hogarth Press e Instituto de Psicanlise, 88 pgs. (Trad. de Joan Riviere.)
         
         A presente traduo inglesa  verso consideravelmente modificada da publicada em 1927.
         
         Este livro apareceu na terceira semana de abril de 1925, embora estivesse na mente de Freud desde, pelo menos, o ms de julho anterior (Jones, 1957, 104). 
Em 26 de setembro de 1922, no Stimo Congresso Psicanaltico Internacional, que se reuniu em Berlim e que foi o ltimo a que assistiu, ele leu um breve artigo com 
o ttulo 'Etwas vom Unbewussten [Algumas Observaes sobre o Inconsciente]', no qual prenunciou o contedo do livro. Um resumo deste artigo (que nunca foi publicado) 
apareceu naquele outono no Int. Zeitschrift Psychoanal., 5 (4), 486, e, embora no haja certeza de que tenha sido escrito pelo prprio Freud, vale a pena registr-lo:'Algumas 
Observaes sobre o Inconsciente'
         'O orador repetiu a conhecida histria do desenvolvimento do conceito de "inconsciente" em psicanlise. "Inconsciente" foi, em primeira instncia, um termo 
puramente descritivo, que, por conseguinte, inclua o que  temporariamente latente. A viso dinmica do processo de represso, contudo, tornou necessrio fornecer 
ao inconsciente um sentido sistemtico, de maneira que tivesse de ser igualado ao reprimido. O que  latente e apenas temporariamente inconsciente recebeu o nome 
de "pr-consciente" e, do ponto de vista sistemtico, foi colocado em proximidade estreita com o consciente. O significado duplo do termo "inconsciente" indubitavelmente 
envolvia desvantagens, embora elas fossem de pequena significao e difceis de evitar. Demonstrou-se, contudo, que no  praticvel encarar o reprimido como coincidindo 
com o inconsciente, e o ego com o pr-consciente e o consciente. O orador debateu os dois fatos que mostram que tambm no ego existe um inconsciente, que se comporta 
dinamicamente como o inconsciente reprimido: os dois fatos de uma resistncia que deriva do ego durante a anlise e de um sentimento de culpa inconsciente. Anunciou 
que em livro a aparecer brevemente - O Ego e o Id - fez uma tentativa de avaliar a influncia que estas novas descobertas devem ter sobre nossa viso do inconsciente.'
         O Ego e o Id  o ltimo dos grandes trabalhos tericos de Freud. Ele oferece uma descrio da mente e de seu funcionamento que,  primeira vista, parece 
nova e at mesmo revolucionria, e, em verdade, todos os escritos psicanalticos que datam de aps sua publicao portam a marca inequvoca dos seus efeitos, pelo 
menos com relao  terminologia. Entretanto, apesar de todas as suas novas compreenses internas (insights) e snteses, podemos traar, como to amide acontece 
com as aparentes inovaes de Freud, as sementes de suas novas idias em trabalhos anteriores e, s vezes, muito anteriores.
         Os precursores do atual quadro geral da mente foram sucessivamente o 'Projeto' de 1895 (Freud, 1950a), o Captulo VII de A Interpretao de Sonhos (1900a) 
e os artigos metapsicolgicos de 1915. Em todos estes, os problemas inter-relacionados do funcionamento mental e da estrutura mental foram inevitavelmente considerados, 
embora com acento varivel sobre os dois aspectos da questo. O acidente histrico de que a psicanlise tivesse sua origem em vinculao com o estudo da histeria 
conduziu imediatamente  hiptese da represso (ou, mais geralmente, da defesa) como funo mental, e isto, por sua vez, a uma hiptese topogrfica - a uma representao 
da mente incluindo duas partes, uma reprimida e outra repressora. A qualidadede 'conscincia' achava-se, evidentemente, envolvida de perto nessas hipteses, e foi 
muito fcil igualar a parte reprimidas da mente ao que era 'inconsciente', e a repressora ao que era 'consciente'. Os primitivos diagramas pictricos de Freud sobre 
a mente, em A Interpretao de Sonhos (Edio Standard Brasileira, Vol. V, pgs. 573-577, IMAGO Editora, 1972) e em sua carta a Fliess de 6 de dezembro de 1896 (Freud, 
1950a, Carta 52), foram representaes dessa viso da posio. E este esquema aparentemente simples fundamenta todas as primeiras idias tericas de Freud: funcionalmente, 
uma fora reprimida esforando-se em abrir caminho at a atividade, mas mantida sob controle por uma fora repressora, e, estruturalmente, um 'inconsciente' a que 
se ope um 'ego'.
         No obstante, as complicaes logo se tornaram manifestas. Rapidamente se viu que a palavra 'inconsciente' estava sendo utilizada em dois sentidos: o 'descritivo' 
(que simplesmente atribua uma qualidade especfica a um estado mental) e o 'dinmico' (que atribua uma funo especfica a um estado mental). Esta distino j 
fora enunciada, embora no nestes termos, em A Interpretao de Sonhos (Ed. Standard Bras., Vol. V, pgs. 650-651). Ela foi afirmada muito mais claramente no artigo 
em ingls escrito para a Sociedade de Pesquisas Psquicas (1912g, Standard Ed., 12, 262). Desde o incio, porm, uma outra noo, mais obscura, j se achava envolvida 
(como era claramente mostrado pelos diagramas pictricos): a noo de 'sistemas' da mente. Isto implicava uma diviso topogrfica ou estrutural da mente baseada 
em algo mais que funo, uma diviso em partes s quais era possvel atribuir um certo nmero de caractersticas e mtodos de operao diferenciantes. Algo dessa 
idia j se achava indubitavelmente implcito na expresso 'o inconsciente', que aparecera muito cedo (por exemplo, em nota de rodap a Estudos sobre a Histeria, 
1895d, Edio Standard Brasileira, Vol. II, pg. 89, IMAGO Editora, 1974). O conceito de um 'sistema' tornou-se explcito em A Interpretao de Sonhos (1900a), ibid., 
V, 572-573. Pelos termos em que foi a introduzida, uma imagstica topogrfica era imediatamente sugerida, embora Freud fizesse advertncia contra tomar-se isso 
ao p da letra. Havia um certo nmero desses sistemas (mnmico, perceptivo etc.) e, entre eles, o 'inconsciente' (ibid., 577), o qual, 'a bem da simplicidade', deveria 
ser designado como 'o sistema Ics'. Nessas passagens anteriores, tudo o que era abertamente significado por esse sistema inconsciente era o reprimido, at chegarmos 
 seo final de A Interpretao de Sonhos (ibid., V, pg. 648 e segs.), onde algo com um raio de ao muito maior era indicado. Posteriormente, a questo permaneceu 
em estado latente at o artigo para a S.P.P. (1912g), j mencionado, onde (alm da diferenciao clara feita entreos empregos descritivo e dinmico do termo 'inconsciente'), 
nas ltimas frases do trabalho, um terceiro emprego, 'sistemtico', era definido. Pode-se notar que, nessa passagem (Standard Ed., 12, 266), foi apenas para esse 
inconsciente 'sistemtico' que Freud props usar o smbolo 'Ics.'. Tudo isso parece muito objetivo, mas, de modo bastante estranho, o quadro foi mais uma vez obscurecido 
no artigo metapsicolgico sobre 'O Inconsciente' (1915e). Na Seo II desse trabalho (Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, pg. 198 e segs., IMAGO Editora, 1974), 
no mais havia trs empregos do termo 'inconsciente', mas apenas dois. O emprego 'dinmico' desaparecera e fora presumivelmente includo no 'sistemtico', que ainda 
deveria ser chamado de 'Ics.', embora agora inclusse o reprimido. Finalmente, no Captulo I do presente trabalho (assim como na Conferncia XXXI das Novas Conferncias 
Introdutrias, 1933a) Freud retornou  distino e classificao trplice, embora, ao final do captulo, aplique a abreviao 'Ics.', inadvertidamente talvez, a 
todos os trs tipos de 'inconsciente' ([1]).
         Mas surgiu ento a questo de saber se, aplicado a um sistema, o termo 'inconsciente' seria apropriado. No quadro estrutural da mente, o que, desde o incio, 
fora muito claramente diferenciado de 'o inconsciente', fora 'o ego'. E agora comeava a parecer que o prprio ego deveria ser parcialmente descrito como 'inconsciente'. 
Isso foi apontado em Alm do Princpio de Prazer, numa frase que, na primeira edio (1920g), dizia: 'Pode ser que grande parte do ego seja, ela mesma, inconsciente; 
somente uma parte dele, provavelmente,  abrangida pelo termo "pr-consciente".' Na segunda edio, um ano depois, essa frase foi alterada para: ' certo que grande 
parte do ego , ela mesma, inconsciente (...); somente uma pequena parte dele  abrangida pelo temo "pr-consciente" ' Essa descoberta e os fundamentos para ela 
foram enunciados com insistncia ainda maior no primeiro captulo do presente trabalho.
         Tornou-se assim aparente que, tanto no que concerne ao 'inconsciente' quanto no que concerne ao 'ego', o critrio de conscincia no era mais til na construo 
de uma representao estrutural da mente. Por conseguinte, Freud abandonou o uso da conscincia nessa capacidade: 'estar consciente' deveria doravante ser encarado 
simplesmente como uma qualidade que poderia ou no estar ligada a um estado mental. O antigosentido 'descritivo' do termo foi, em verdade, tudo o que permaneceu. 
A nova terminologia que Freud agora introduzira teve um efeito altamente esclarecedor e, assim, tornou possveis novos avanos clnicos. Em si mesma, porm, no 
envolveu quaisquer alteraes nas opinies de Freud sobre a estrutura e o funcionamento mentais. Em verdade, as trs entidades recentemente apresentadas, o id, o 
ego e o superego, tinham, todas elas, extensas histrias passadas (duas delas sob outros nomes) e valer a pena examin-las.
         O termo 'das Es', como o prprio Freud explica adiante ([1]), derivou-se, em primeira instncia, de Georg Groddeck, mdico que clinicava em Baden-Baden, 
que recentemente se havia ligado  psicanlise e por cujas idias largas Freud sentia muita simpatia. Groddeck, por sua vez, parece ter derivado 'das Es' do seu 
prprio professor, Ernest Schweninger, mdico alemo bem conhecido, de uma gerao anterior. Entretanto, como Freud tambm indica, o uso da palavra certamente remonta 
a Nietzsche. De qualquer modo, o termo foi adaptado por Freud a um significado diferente e mais preciso que o de Groddeck. Ele esclareceu e em parte substituiu os 
empregos mal definidos dos termos anteriores 'o inconsciente', 'o Ics.' e 'o inconsciente sistemtico'.
         A posio com referncia a 'das Ich'  muito menos clara. O termo, naturalmente, estivera em uso familiar antes dos dias de Freud, mas o sentido preciso 
que ele prprio atribuiu em seus escritos anteriores no deixa de ser ambguo. Parece possvel detectar dois empregos principais: um em que o termo distingue o eu 
(self) de uma pessoa como um todo (incluindo, talvez, o seu corpo) das outras pessoas, e outro em que denota uma parte especfica da mente, caracterizada por atributos 
e funes especiais. Foi neste segundo sentido que ele foi utilizado na elaborada descrio do 'ego' no primitivo 'Projeto' de Freud, de 1895 (Freud, 1950a, Parte 
I, Seo 14), e  neste mesmo sentido que  empregado na anatomia da mente, em O Ego e o Id. Em algumas de suas obras intervenientes, particularmente em vinculao 
ao narcisismo, o 'ego' parececorresponder sobretudo ao 'eu' (self). Nem sempre  fcil, contudo, traar uma linha entre esses dois sentidos da palavra.
         O que  inteiramente certo, entretanto,  que, aps a tentativa isolada, no 'Projeto' de 1895, de uma anlise pormenorizada da estrutura e funcionamento 
do ego, Freud deixou o assunto quase intocado por cerca de 15 anos. Seu interesse estava concentrado em suas investigaes do inconsciente e seus instintos, particularmente 
os sexuais, e no papel que desempenhavam no comportamento mental normal e anormal. O fato de as foras repressivas desempenharem papel igualmente importante, certamente 
nunca foi desprezado, e sempre se insistiu nisso; mas um exame mais acurado dessas foras foi deixado para o futuro. Era o bastante, no momento, dar-lhes o nome 
abrangente de 'o ego'.
         Houve duas indicaes de uma mudana, ambas por volta do ano de 1910. Num artigo sobre distrbios psicognicos da viso (1910i), surge o que parece ser 
uma primeira meno de 'instintos do ego' (Edio Standard Brasileira, Vol. XI, pg. 199, IMAGO Editora, 1970), combinando as funes de represso com as de autopreservao. 
O outro desenvolvimento, mais importante, foi a hiptese do narcisismo, proposta pela primeira vez em 1909, e que conduziu a um exame pormenorizado do ego e suas 
funes numa variedade de vinculaes - no estudo sobre Leonardo (1910c), na histria clnica de Schreber (1911c), no artigo sobre os dois princpios do funcionamento 
mental (1911b), no artigo sobre o prprio 'Narcicismo' (1914c) e no artigo metapsicolgico sobre 'O Inconsciente' (1915e). Nesse ltimo trabalho, contudo, ocorreu 
um outro desenvolvimento: que fora descrito como sendo o ego tornou-se ento o 'sistema' Cs. (Pcs.). Este sistema  o progenitor do 'ego', tal como o temos na nova 
terminologia corrigida, da qual, como vimos, a vinculao confusa com a qualidade de 'conscincia' foi removida.
         As funes do sistema Cs. (Pcs.), tal como enumeradas em 'O Inconsciente' (Ed. Standard Bras., Vol. XIV, pg. 216), incluem atividades como a censura, o 
teste da realidade, e assim por diante, todas as quais so agoraatribudas ao 'ego'. H uma funo especfica, contudo, cujo exame deveria conduzir a resultados 
momentosos: a faculdade autocrtica. Esta e o 'sentimento de culpa', correlacionado, atraram o interesse de Freud desde os primeiros dias, principalmente em vinculao 
com a neurose obsessiva. Sua teoria de que as obsesses so 'autocensuras transformadas' por um prazer sexual frudo na infncia foi plenamente explicada na Seo 
II de seu segundo artigo sobre 'As Neuropsicoses de Defesa' (1896b), aps ter sido delineado um pouco mais cedo em suas cartas a Fliess. Que as autocensuras podem 
ser inconscientes, j se achava implcito nessa etapa e foi enunciado de modo especfico no artigo sobre 'Obsessive Actions and Religious Practices' (1907b), Standard 
Ed., 9, 123. Foi somente com o conceito de narcisismo, contudo, que se pde lanar luz sobre o mecanismo real dessas autocensuras. Na Seo III de seu artigo sobre 
narcisismo (1914c), Freud comeou por sugerir que o narcisismo da primeira infncia  substitudo no adulto pela devoo a um ideal do ego erigido dentro de si prprio. 
Apresentou ento a noo de que pode haver 'uma instncia psquica especial' cuja tarefa  vigiar o ego real e medi-lo pelo ego ideal ou ideal do ego - ele parecia 
utilizar indiscriminadamente os termos (Ed. Standard Bras. Vol. XIV, pg. 112). Atribuiu um certo nmero de funes a essa instncia, inclusive a conscincia normal, 
a censura do sonho e certos delrios paranicos. No artigo sobre 'Luto e Melancolia' (1917e [1915]), tornou essa instncia responsvel tambm por estados patolgicos 
de luto (ibid., XIV, pg. 280) e insistiu mais definidamente que ela era algo  parte do restante do ego, o que foi tornado ainda mais claro em Psicologia de Grupo 
(1921c). Deve-se notar, contudo, que aqui a distino entre o prprio 'ideal do ego' e a instncia interessada na sua realizao foi abandonada: a 'instncia' foi 
especificamente chamada de 'ideal do ego' (Standard, Ed., 18, 109-10).  como equivalente ao 'ideal do ego' que 'das Uber-Ich' faz o seu primeiro aparecimento ([1]), 
embora o seu aspecto como instncia compelidora ou proibidora mais tarde predomine. Na verdade, aps O Ego e o Id e os dois ou trs trabalhos mais curtos que imediatamente 
o seguiram, o 'ideal do ego' desaparece quase completamente como termo tcnico. Ele faz um breve reaparecimento num par de frases das Novas Conferncias Introdutrias 
(1933a), Conferncia XXXI, mas aqui encontramos um retorno  distino original, pois 'uma importantefuno' atribuda ao superego  agir como 'o veculo do ideal 
do ego pelo qual o ego se mede' - quase os termos exatos em que o ideal do ego foi pela primeira vez introduzido no artigo sobre narcisismo (Ed. Standard Bras., 
Vol. XIV, pg. 110).
         Mas essa distino pode parecer artificial quando nos voltamos para a descrio, feita por Freud, da gnese do superego. Essa descrio (no Captulo III) 
 indubitavelmente a parte do livro que se perde em importncia para a tese principal da diviso trplice da mente. O superego  a mostrado como derivado de uma 
transformao das primitivas catexias objetais da criana em identificaes: ele toma o lugar do complexo de dipo. Este mecanismo (a substituio de uma catexia 
objetal por uma identificao e introjeo do objeto anterior) foi primeiramente aplicado por Freud (em seu estudo de Leonardo, 1910c)  explicao de determinado 
tipo de homossexualidade, no qual um menino substitui seu amor pela me identificando-se com ela (Ed. Standard Bras., Vol. XI, pg. 93). Aplicou a seguir a mesma 
noo a estudos de depresso em 'Luto e Melancolia' (1917e), ibid., Vol. XIV, pg. 281. Exames ulteriores e mais elaborados desses diversos tipos de identificaes 
e introjees foram desenvolvidos nos Captulos VII, VIII e XI de Psicologia de Grupo (1921c), mas foi somente no presente trabalho que Freud chegou s suas opinies 
finais sobre a derivao do superego das primitivas relaes objetais da criana.
         Havendo estabelecido sua nova descrio da anatomia da mente, Freud achava-se em posio de examinar as suas implicaes, e j o faz nas ltimas pginas 
do livro: a relao entre as divises da mente e as duas classes de instintos, e as inter-relaes entre as prprias divises da mente, com referncia especial ao 
sentimento de culpa. Muitas dessas questes, porm, e especificamente a ltima, deveriam constituir o assunto de outros trabalhos que se seguiram, em rpida sucesso. 
Veja-se, por exemplo, 'O Problema Econmico do Masoquismo' (1924c), 'A Dissoluo do Complexo de dipo' (1924d), os dois artigos sobre neurose e psicose (1924b e 
1924e) e o artigo sobre a distino anatmica entre os sexos (1925j), todos no volume XIX, bem como o ainda mais importante Inibies, Sintomas e Ansiedade (1926d), 
publicado apenas pouco mais tarde. Finalmente, um outro extenso estudo sobre o superego, juntamente com um interessante exame do uso correto dos termos 'superego', 
'conscincia', 'sentimento de culpa', 'necessidade de punio' e 'remorso', sero encontrados nos Captulos VII e VIII de O Mal-Estar na Civilizao (1930aExtratos 
da primeira traduo (1927) deste trabalho foram includos na General Selection from the Works of Sigmund Freud, da autoria de Rickman (1937, 245-74).
         
         O EGO E O ID [PREFCIO]
         
         Os presentes estudos constituem novo desenvolvimento de algumas seqncias de pensamento que expus em Alm do Princpio de Prazer (1920g), e para com as 
quais, como ento observei, minha atitude era de um tipo de benevolente curiosidade. Nas pginas que se seguem, esses pensamentos so vinculados a diversos fatos 
da observao analtica e faz-se uma tentativa de chegar a novas concluses, a partir dessa conjuno. No presente trabalho, contudo, no existem novos emprstimos 
tomados  biologia, e, devido a isso, ele se encontra mais prximo da psicanlise do que Alm do Princpio de Prazer. Tem mais a natureza de uma sntese do que de 
uma especulao, e parece ter tido em vista um objetivo ambicioso. Estou consciente, porm, de que no vai alm do mais grosseiro esboo e acho-me perfeitamente 
contente com essa limitao.
         Nestas pginas so abordadas coisas que ainda no constituram assunto da considerao psicanaltica e no foi possvel evitar invadir algumas teorias que 
foram apresentadas por no analistas ou por ex-analistas, em sua retirada da anlise. Por outro lado, sempre estive pronto a reconhecer o que devo a outros pesquisadores; 
neste caso, porm, no me sinto onerado por tal dbito de gratido. Se a psicanlise at aqui no demonstrou sua apreciao de certas coisas, isto nunca se deveu 
a que ela desprezasse sua consecuo ou procurasse negar sua importncia, mas porque seguia um caminho especfico, que ainda no conduziu at to longe. E, finalmente, 
quando as alcana, as coisas tm para ela uma aparncia diferente da que tm para outros.
         
         I - A CONSCINCIA E O QUE  INCONSCIENTE
         
         Neste captulo introdutrio nada existe de novo a ser dito e no ser possvel evitar repetir o que amide foi mencionado antes.
         A diviso do psquico em o que  consciente e o que  inconsciente constitui a premissa fundamental da psicanlise, e somente ela torna possvel a esta 
compreender os processos patolgicos da vida mental, que so to comuns quanto importantes, e encontrar lugar para eles na estrutura da cincia. Para diz-lo mais 
uma vez, de modo diferente: a psicanlise no pode situar a essncia do psquico na conscincia, mas  obrigada a encarar esta como uma qualidade do psquico, que 
pode achar-se presente em acrscimo a outras qualidades, ou estar ausente.
         Se eu pudesse supor que toda pessoa interessada em psicologia leria este livro, deveria estar tambm preparado para descobrir que, neste ponto, alguns de 
meus leitores se deteriam abruptamente e no iriam adiante, pois aqui temos a primeira palavra de teste da psicanlise. Para muitas pessoas que foram educadas na 
filosofia, a idia de algo psquico que no seja tambm consciente  to inconcebvel que lhes parece absurda e refutvel simplesmente pela lgica. Acredito que 
isso se deve apenas a nunca terem estudado os fenmenos pertinentes da hipnose e dos sonhos, os quais - inteiramente  parte das manifestaes patolgicas - tornam 
necessria esta viso. A sua psicologia da conscincia  incapaz de solucionar os problemas dos sonhos e da hipnose.
         'Estar consciente' , em primeiro lugar, um termo puramente descritivo, que repousa na percepo do carter mais imediato e certo. A experincia demonstra 
que um elemento psquico (uma idia, por exemplo) no , via de regra, consciente por um perodo de tempo prolongado. Pelo contrrio, um estado de conscincia , 
caracteristicamente, muito transitrio; uma idia que consciente agora no o  mais um momento depois, embora assim possa tornar-se novamente, em certas condies 
que so facilmente ocasionadas. No intervalo, a idia foi... No sabemos o qu. Podemos dizer que esteve latente, e, por isso, queremos dizer que era capaz de tornar-se 
consciente a qualquer momento. Ora, se dissermos que era inconsciente, estaremos tambm dando uma descrio correta dela. Aqui 'inconsciente' coincide com 'latente 
e capaz de tornar-se consciente'. Os filsofos sem dvida objetariam: - No, o termo 'inconsciente' no  aplicvel aqui; enquanto a idia esteve em estado de latncia, 
ela no foi algo psquico de modo algum. - Contradiz-los neste ponto no conduziria a nada mais proveitoso que uma disputa verbal.
         Mas ns chegamos ao termo ou conceito de inconsciente ao longo de outro caminho, pela considerao de certas experincias em que a dinmica mental desempenha 
um papel. Descobrimos - isto , fomos obrigados a presumir - que existem idias ou processos mentais muito poderosos (e aqui um fator quantitativo ou econmico entra 
em questo pela primeira vez) que podem produzir na vida mental todos os efeitos que as idias comuns produzem (inclusive certos efeitos que podem, por sua vez, 
tornar-se conscientes como idias), embora eles prprios no se tornem conscientes.  desnecessrio repetir em pormenor aqui o que foi explicado com tanta freqncia 
antes. Basta dizer que, neste ponto, a teoria psicanaltica intervm e assevera que a razo pela qual tais idias no podem tornar-se conscientes  que uma certa 
fora se lhes ope; que, de outra maneira, se tornariam conscientes, e que seria ento aparente quo pouco elas diferem de outros elementos que so admitidamente 
psquicos. O fato de se ter encontrado, na tcnica da psicanlise, um meio pelo qual a fora opositora pode ser removida e as idias em questo tornadas conscientes, 
torna irrefutvel essa teoria. O estado em que as idias existiam antes de se tornarem conscientes  chamado por ns de represso, e asseveramos que a fora que 
instituiu a represso e a mantm  percebida como resistncia durante o trabalho de anlise.
         Obtemos assim o nosso conceito de inconsciente a partir da teoria da represso. O reprimido , para ns, o prottipo do inconsciente. Percebemos, contudo, 
que temos dois tipos de inconsciente: um que  latente, mas capaz de tornar-se consciente, e outro que  reprimido e no , em si prprio e sem mais trabalho, capaz 
de tornar-se consciente. Esta compreenso interna (insight) da dinmica psquica no pode deixar de afetar a terminologia e a descrio. Ao latente, que  inconsciente 
apenas descritivamente, no no sentido dinmico, chamamos de pr-consciente; restringimos o termo inconsciente ao reprimido dinamicamente inconsciente, de maneira 
que temos agora trs termos, consciente (Cs.), pr-consciente (Pcs.) e inconsciente (Ics.), cujo sentido no  mais puramente descritivo. O Pcs. acha-se provavelmente 
muito mais prximo do Cs. que o Ics., e desde que chamamos o Ics. de psquico, chamaremos, ainda com menos hesitao, o Pcs. latente de psquico. Mas por que, ao 
invs disto, no concordamos com os filsofos e, de maneira coerente, distinguimos o Pcs., assim como o Ics., do psquico consciente? Os filsofos proporiam ento 
que o Pcs. e o Ics. fossem descritos como duas espcies ou estgios do 'psicide' e a harmonia se estabeleceria. Porm, dificuldades infindveis de exposio se 
seguiriam, e o fato importante de que estes dois tipos de 'psicide' coincidem em quase todos os outros aspectos com o que  admitidamente psquico seria forado 
para o segundo plano, nos interesses de um preconceito que data de um perodo em que esses psicides, ou a parte mais importante deles, eram ainda desconhecidos.
         Podemos agora trabalhar comodamente com nossos trs termos, Cs., Pcs., e Ics., enquanto no esquecermos que, no sentido descritivo, h dois tipos de inconsciente, 
mas, no sentido dinmico, apenas um. Para fins de exposio, esta distino pode ser ignorada em alguns casos; noutros, porm ela , naturalmente, indispensvel. 
Ao mesmo tempo, acostumamo-nos mais ou menos com essa ambigidade do inconsciente e nos demos muito bem com ela. At onde posso ver,  impossvel evitar esta ambigidade; 
a distino entre consciente e inconsciente , em ltima anlise, uma questo de percepo,  qual deve ser respondido 'sim' ou 'no', e o prprio ato da percepo 
nada nos diz da razo por que uma coisa  ou no percebida. Ningum tem o direito de queixar-se porque o fenmeno concreto expressa ambiguamente o fator dinmico.No 
curso ulterior do trabalho psicanaltico, entretanto, mesmo essas distines mostraram ser inadequadas e, para fins prticos, insuficientes. Isso tornou-se claro 
de vrias maneiras, mas o exemplo decisivo  o seguinte. Formamos a idia de que em cada indivduo existe uma organizao coerente de processos mentais e chamamos 
a isso o seu ego.  a esse ego que a conscincia se acha ligada: o ego controla as abordagens  motilidade - isto ,  descarga de excitaes para o mundo externo. 
Ele  a instncia mental que supervisiona todos os seus prprios processos constituintes e que vai dormir  noite, embora ainda exera a censura sobre os sonhos. 
Desse ego procedem tambm as represses, por meio das quais procura-se excluir certas tendncias da mente, no simplesmente da conscincia, mas tambm de outras 
formas de capacidade e atividade. Na anlise, essas tendncias que foram deixadas de fora colocam-se em oposio ao ego, e a anlise defronta-se com a tarefa de 
remover as resistncias que o ego apresentacontra o preocupar-se com o reprimido. Ora, descobrimos durante a anlise que, quando apresentamos certas tarefas ao paciente, 
ele entra em dificuldades; as suas associaes falham quando deveriam estar-se aproximando do reprimido. Dizemos-lhe ento que est dominado por uma resistncia, 
mas ele se acha inteiramente inadvertido do fato e, mesmo que adivinhe, por seus sentimentos desprazerosos, que uma resistncia encontra-se ento em ao nele, no 
sabe o que  ou como descrev-la. Entretanto, visto no poder haver dvida de que essa resistncia emana do seu ego e a este pertence, encontramo-nos numa situao 
imprevista. Deparamo-nos com algo no prprio ego que  tambm inconsciente, que se comporta exatamente como o reprimido - isto , que produz efeitos poderosos sem 
ele prprio ser consciente e que exige um trabalho especial antes de poder ser tornado consciente. Do ponto de vista da prtica analtica, a conseqncia desta descoberta 
 que iremos parar em infindveis obscuridades e dificuldades se nos ativermos a nossas formas habituais de expresso e tentarmos, por exemplo, derivar as neuroses 
de um conflito entre o consciente e o inconsciente. Teremos de substituir esta anttese por outra, extrada de nossa compreenso interna (insight) das condies 
estruturais da mente - a anttese entre o ego coerente e o reprimido que  expelido (split off) dele.
         Para nossa concepo do inconsciente, contudo, as conseqncias de nossa descoberta so ainda mais importantes. Consideraes dinmicas fizeram-nos efetuar 
a primeira correo; nossa compreenso interna (insight) da estrutura da mente conduz  segunda. Reconhecemos que o Ics. no coincide com o reprimido;  ainda verdade 
que tudo o que  reprimido  Ics., mas nem tudo o que  Ics.  reprimido. Tambm uma parte do ego - e sabem os Cus que parte to importante - pode ser Ics., indubitavelmente 
 Ics. E esse Ics. que pertence ao ego no  latente como o Pcs., pois, se fosse, no poderia ser ativado sem tornar-se Cs., e o processo de torn-lo consciente 
no encontraria to grandes dificuldades. Quando nos vemos assim confrontados pela necessidade de postular um terceiro Ics., que no  reprimido, temos de admitir 
que a caracterstica de ser inconsciente comea a perder significao para ns. Torna-se uma qualidade quepode ter muitos significados, uma qualidade da qual no 
podemos fazer, como esperaramos, a base de concluses inevitveis e de longo alcance. No obstante, devemos cuidar para no ignorarmos esta caracterstica, pois 
a propriedade de ser consciente ou no constitui, em ltima anlise, o nosso nico farol na treva da psicologia profunda.
         
         II - O EGO E O ID
         
         A pesquisa patolgica dirigiu nosso interesse de modo excessivamente exclusivo para o reprimido. Gostaramos de aprender mais sobre o ego, agora que sabemos 
que tambm ele pode ser inconsciente no sentido correto da palavra. At agora, a nica orientao que tivemos durante nossas investigaes foi a marca distinguidora 
de ser consciente ou inconsciente; acabamos por ver quo ambguo isso pode ser.
         Ora, todo o nosso conhecimento est invariavelmente ligado  conscincia. S podemos vir a conhecer, mesmo o Ics., tornando-o consciente. Detenhamo-nos, 
porm: como  isso possvel? O que queremos dizer quando dizemos 'tornar algo consciente'? Como  que isso pode ocorrer?
         J conhecemos o ponto do qual temos de partr, com relao a isso. Dissemos que a conscincia  a superfcie do aparelho mental, ou seja, determinamo-la 
como funo de um sistema que, espacialmente,  o primeiro a ser atingido a partir do mundo externo, e espacialmente no apenas no sentido funcional, mas tambm, 
nessa ocasio, no sentido de disseco anatmica. Tambm nossas investigaes devem tomar essa superfcie perceptiva como ponto de partida.
         Todas as percepes que so recebidas de fora (percepes sensrias) e de dentro - o que chamamos de sensaes e sentimentos - so Cs. desde o incio. Mas 
e aqueles processos internos que podemos - grosseira e inexatamente - resumir sob o nome de processos de pensamento? Eles representam deslocamentos de energia mental 
que so efetuados em algum lugar no interior do aparelho,  medida que essa energia progride em seu caminho no sentido da ao. Avanam eles para a superfcie, fazendo 
com que a conscincia seja gerada? Ou a conscincia abre caminho at eles? Esta , claramente, uma das dificuldades que surgem quando se comea a tomar a srio a 
idia espacial ou 'topogrfica' da vida mental. Ambas estas possibilidades so igualmente inimaginveis; tem de haver uma terceira alternativa.
         Em outro lugar, j sugeri que a diferena real entre uma idia (pensamento) do Ics. ou do Pcs. consiste nisto: que a primeira  efetuada em algummaterial 
que permanece desconhecido, enquanto que a ltima (a do Pcs.) , alm disso, colocada em vinculao com representaes verbais. Esta  a primeira tentativa de indicar 
marcas distinguidoras entre os dois sistemas, o Pcs. e o Ics., alm de sua relao com a conscincia. A pergunta 'Como uma coisa se torna consciente?' seria assim 
mais vantajosamente enunciada: 'Como uma coisa se torna pr-consciente?' E a resposta seria: 'Vinculando-se s representaes verbais que lhe so correspondentes.'
         Essas representaes verbais so resduos de lembranas; foram antes percepes e, como todos os resduos mnmicos, podem tornar-se conscientes de novo. 
Antes de nos interessarmos mais por sua natureza, torna-se evidente para ns, como uma nova descoberta, que somente algo que j foi uma percepo Cs. pode tornar-se 
consciente, e que qualquer coisa proveniente de dentro ( parte os sentimentos) que procure tornar-se consciente deve tentar transformar-se em percepes externas: 
isto se torna possvel mediante os traos mnmicos.
         Pensamos nos resduos mnmicos como se estivessem contidos em sistemas que so diretamente adjacentes ao sistema Pcpt.-Cs., de maneira que as catexias desses 
resduos podem facilmente estender-se, de dentro, para os elementos do ltimo sistema. Imediatamente pensamos aqui nas alucinaes, e no fato de que a mais vvida 
lembrana  sempre distinguvel, tanto de uma alucinao quanto de uma percepo externa; mas tambm nos ocorre em seguida que, quando uma lembrana  revivida, 
a catexia permanece no sistema mnmico, enquanto que uma alucinao, que no  distinguvel de uma percepo, pode surgir quando a catexia no se estende simplesmente 
do trao mnmico para o elemento Pcpt., mas se transfere inteiramente para ele.
         Os resduos verbais derivam primariamente das percepes auditivas, de maneira que o sistema Pcs. possui, por assim dizer, uma fonte sensria especial. 
Os componentes visuais das representaes verbais so secundrios, adquiridos mediante a leitura, e podem, inicialmente, ser deixados de lado, e assim tambm as 
imagens motoras das palavras, que, exceto para os surdos-mudos, desempenham o papel de indicaes auxiliares. Em essncia, uma palavra , em ltima anlise, o resduo 
mnmico de uma palavra que foi ouvida.
         No devemos deixar-nos levar, talvez visando  simplificao, a esquecer a importncia dos resduos mnmicos pticos, quando o so de coisas, ou a negar 
que seja possvel os processos de pensamento tornarem-se conscientes mediante uma reverso a resduos visuais, e que, em muitas pessoas, este parece ser o mtodo 
favorito. O estudo dos sonhos e das fantasias pr-conscientes, como se demonstra nas observaes de Varendonck, pode dar-nos uma idia do carter especial deste 
pensar visual. Aprendemos que o que nele se torna consciente , via de regra, apenas o tema geral concreto do pensamento, e que as revelaes entre os diversos elementos 
desse tema geral, que  o que caracteriza especialmente os pensamentos, no podem receber expresso visual. Pensar em figuras, portanto,  apenas uma forma muito 
incompleta de tornar-se consciente. De certa maneira, tambm, ela se situa mais perto dos processos inconscientes do que o pensar em palavras, sendo inquestionavelmente 
mais antiga que o ltimo, tanto ontogentica quanto filogeneticamente.
         Retornando ao nosso argumento: se, portanto, esta  a maneira pela qual algo que , em si prprio, inconsciente, se torna pr-consciente, a questo de como 
tornamos (pr-)consciente algo que  reprimido seria respondida do seguinte modo. Isso  feito fornecendo ao Pcs. vnculos intermedirios, mediante o trabalho de 
anlise. A conscincia permanece, portanto, onde est, mas, por outro lado, o Ics. no aflora no Cs.
         Enquanto que a relao das percepes externas com o ego  bastante perspcua, a das percepes internas com o mesmo exige uma investigao especial. Ela 
mais uma vez d origem  dvida quanto a saber se estamos realmente com razo em referir a totalidade da conscincia ao nico sistema superficial Pcpt.-Cs.
         As percepes internas produzem sensaes de processo que surgem nos mais diversos, e, tambm, certamente, nos mais profundos estratos do aparelho mental. 
Muito pouco se conhece sobre essas sensaes e sentimentos; os que pertencem  srie prazer-desprazer ainda podem ser considerados como os melhores exemplos deles. 
So mais primordiais, mais elementares, do que as percepes que surgem externamente, e podem ocorrer mesmo quando a conscincia se acha enevoada. Expressei em outro 
lugar meus pontos de vista sobre sua importncia econmica maior e as razes metapsicolgicas para isto. Essas sensaes so multilocalizadas, como as percepes 
externas; podem vir simultaneamente de diferentes lugares e terem assim qualidades diferentes ou mesmo opostas.
         As sensaes de natureza prazerosa no tm nada de inerentemente impelente nelas, enquanto que as desprazerosas o tm no mais alto grau. As ltimas impelem 
no sentido da mudana, da descarga, e  por isso que interpretamos o desprazer como implicando uma elevao e o prazer uma reduo da catexia energtica. Chamemos 
o que se torna consciente como prazer e desprazer um 'algo' quantitativo e qualitativo no curso dos eventos mentais; a questo, ento,  saber se este 'algo' pode 
tornar-se consciente no lugar onde est ou se deve ser primeiro transmitido ao sistema Pcpt.
         A experincia clnica decide em favor do ltimo. Ela nos demonstra que esse 'algo' se comporta como um impulso reprimido. Ele pode exercer fora impulsiva 
sem que o ego note a compulso. Somente quando se d resistncia a esta, uma deteno na reao de descarga,  que o 'algo' se torna consciente como desprazer. Assim 
como as tenses que surgem de necessidades fsicas podem permanecer inconscientes, tambm o pode o sofrimento - algo intermedirio entre a percepo externa e interna, 
que se comporta como uma percepo interna, mesmo quando sua fonte se encontra no mundo externo. Permanece verdade, portanto, que tambm as sensaes e os sentimentos 
s se tornam conscientes atingindo o sistema Pcpt.; se o caminho para a frente  barrado, elas no chegam a existir como sensaes, embora o 'algo' que lhes corresponde 
no curso da excitao seja o mesmo que se elas chegassem a existir. Passamos ento a falar, de maneira condensada e no inteiramente correta, de 'sentimentos inconscientes', 
mantendo uma analogia com as idias inconscientes que no  inteiramente justificvel. Na realidade, a diferena  que, enquanto que com as idias Ics. devem ser 
criados vnculos de ligao antes que elas possam ser trazidas para o Cs., com os sentimentos, que so transmitidos diretamente, isto no ocorre. Em outras palavras: 
a distino entre Cs. e Pcs. no tem significado no que concerne a sentimentos; o Pcs. aqui  posto de lado - e os sentimentos so ou conscientes ou inconscientes. 
Mesmo quando esto ligados a representaes verbais, tornam-se conscientes, no devido a essa circunstncia, mas sim diretamente.O papel desempenhado pelas representaes 
verbais se torna agora perfeitamente claro. Atravs de sua interposio, os processos internos de pensamento so transformados em percepes.  como uma demonstrao 
do teorema de que todo conhecimento tem sua origem na percepo externa. Quando uma hipercatexia do processo de pensamento se efetua, os pensamentos so realmente 
percebidos - como se proviessem de fora - e, conseqentemente, so considerados verdadeiros.
         Aps este esclarecimento das relaes entre a percepo externa e interna e o sistema superficial Pcpt.-Cs., podemos passar  elaborao de nossa idia 
do ego. Ele tem incio, como vimos, no sistema Pcpt., que  o seu ncleo, e comea por abranger o Pcs., que  adjacente aos resduos mnmicos. Mas, como aprendemos, 
o ego  tambm inconsciente.
         Ora, acredito que muito lucraramos seguindo a sugesto de um escritor que, por motivos pessoais, assevera em vo que nada tem a ver com os rigores da cincia 
pura. Estou falando de Georg Groddeck, o qual nunca se cansa de insistir que aquilo que chamamos de nosso ego comporta-se essencialmente de modo passivo na vida 
e que, como ele o expressa, ns somos 'vividos' por foras desconhecidas e incontrolveis. Todos ns tivemos impresses da mesma espcie, ainda que no nos tenham 
dominado at a excluso de todas as outras, e precisamos no sentir hesitao em encontrar um lugar para a descoberta de Groddeck na estrutura da cincia. Proponho 
lev-la em considerao chamando a entidade que tem incio no sistema Pcpt. e comea por ser Pcs. de 'ego', e seguindo Groddeck no chamar a outra parte da mente, 
pela qual essa entidade se estende e que se comporta como se fosse Ics., de 'id'.
         Logo veremos se podemos tirar alguma vantagem desse ponto de vista, para fins quer de descrio quer de compreenso. Examinaremos agora o indivduo como 
um id psquico, desconhecido e inconsciente, sobre cuja superfcie repousa o ego, desenvolvido a partir de seu ncleo, o sistema Pcpt. Se fizermos um esforo para 
representar isso pictoricamente, podemos acrescentar que o ego no envolve completamente o id, mas apenas at o ponto em que o sistema Pcpt. forma a sua [do ego] 
superfcie, mais ou menos como o disco germinal repousa sobre o vulo. O ego no se acha nitidamente separado do id; sua parte inferior funde-se com ele.Mas o reprimido 
tambm se funde com o id, e  simplesmente uma parte dele. Ele s se destaca nitidamente do ego pelas resistncias da represso, e pode comunicar-se com o ego atravs 
do id. Compreendemos em seguida que quase todas as linhas de demarcao que traamos, por instigao da patologia, relacionam-se apenas aos estratos superficiais 
do aparelho mental - os nicos que nos so conhecidos. O estado de coisas que estivemos descrevendo pode ser representado diagramaticamente (Fig. 1), embora se deva 
notar que a forma escolhida no tem pretenses a qualquer aplicabilidade especial, mas simplesmente se destina a servir para fins de exposio.
         Poderamos acrescentar, talvez, que o ego usa um 'receptor acstico' - de um lado apenas, como aprendemos da anatomia cerebral. Poder-se-ia dizer que o 
usa de vis.
         
         
         
          fcil ver que o ego  aquela parte do id que foi modificada pela influncia direta do mundo externo, por intermdio do Pcpt.-Cs.; em certo sentido,  
uma extenso da diferenciao de superfcie. Alm disso, o ego procura aplicar a influncia do mundo externo ao id e s tendncias deste, e esfora-se por substituir 
o princpio de prazer, que reina irrestritamente no id, pelo princpio de realidade. Para o ego, a percepo desempenha o papel que noid cabe ao instinto. O ego 
representa o que pode ser chamado de razo e senso comum, em contraste com o id, que contm as paixes. Tudo isto se coaduna s distines populares com que estamos 
familiarizados; ao mesmo tempo, contudo, s deve ser encarado como confirmado na mdia ou 'idealmente'.
         A importncia funcional do ego se manifesta no fato de que, normalmente, o controle sobre as abordagens  motilidade compete a ele. Assim, em sua relao 
com o id, ele  como um cavaleiro que tem de manter controlada a fora superior do cavalo, com a diferena de que o cavaleiro tenta faz-lo com a sua prpria fora, 
enquanto que o ego utiliza foras tomadas de emprstimo. A analogia pode ser levada um pouco alm. Com freqncia um cavaleiro, se no deseja ver-se separado do 
cavalo,  obrigado a conduzi-lo onde este quer ir; da mesma maneira, o ego tem o hbito de transformar em ao a vontade do id, como se fosse sua prpria.
         Um outro fator, alm da influncia do sistema Pcpt., parece ter desempenhado papel em ocasionar a formao do ego e sua diferenciao a partir do id. O 
prprio corpo de uma pessoa e, acima de tudo, a sua superfcie, constitui um lugar de onde podem originar-se sensaes tanto externas quanto internas. Ele  visto 
como qualquer outro objeto, mas, ao tato, produz duas espcies de sensaes, uma das quais pode ser equivalente a uma percepo interna. A psicofisiologia examinou 
plenamente a maneira pela qual o prprio corpo de uma pessoa chega  sua posio especial entre outros objetos no mundo da percepo. Tambm a dor parece desempenhar 
um papel no processo, e a maneira pela qual obtemos novo conhecimento de nossos rgos durante as doenas dolorosas constitui talvez um modelo da maneira pela qual 
em geral chegamos  idia de nosso corpo.
         O ego , primeiro e acima de tudo, um ego corporal; no  simplesmente uma entidade de superfcie, mas , ele prprio, a projeo de uma superfcie. Se 
quisermos encontrar uma analogia anatmica para ele, poderemos identific-lo melhor com o 'homnculo cortical' dos anatomistas, que fica de cabea para baixo no 
crtex, estira os calcanhares, tem o rosto virado para trs e, como sabemos, possui sua rea da fala no lado esquerdo.Ingressamos repetidamente na relao do ego 
com a conscincia, mas existem alguns fatos importantes com relao a isso que ainda no foram descritos aqui. Acostumados como estamos a levar conosco nossa escala 
social ou tica de valores para onde quer que vamos, no ficamos surpresos em ouvir que a cena das atividades das paixes inferiores se acha no inconsciente; esperamos, 
ademais, que quanto mais alto alguma funo mental se coloque em nossa escala de valores, mais facilmente encontrar acesso  conscincia que lhe  assegurada. Aqui, 
contudo, a experincia psicanaltica nos desaponta. Por um lado, temos provas de que mesmo operaes intelectuais sutis e difceis, que ordinariamente exigem reflexo 
vigorosa, podem igualmente ser executadas pr-conscientemente e sem chegarem  conscincia. Os exemplos disso so inteiramente incontestveis; podem ocorrer, por 
exemplo, durante o estado de sono, como se demonstra quando algum descobre, imediatamente aps o despertar, que sabe a soluo de um difcil problema matemtico 
ou de outro tipo com que esteve lutando em vo no dia anterior.
         H outro fenmeno, contudo, que  mais estranho. Em nossas anlises, descobrimos que existem pessoas nas quais as faculdades de autocrtica e conscincia 
(conscience) - atividades mentais, isto , que se classificam como extremamente elevadas - so inconscientes e inconscientemente produzem efeitos da maior importncia; 
o exemplo da resistncia que permanece inconsciente durante a anlise no , portanto, de maneira alguma nico. Mas esta nova descoberta, que nos compele, apesar 
de nosso melhor juzo crtico, a falar de um 'sentimento inconsciente de culpa', desnorteia-nos mais que a outra e nos prope novos problemas, especialmente quando 
gradativamente chegamos a perceber que num grande nmero de neuroses um sentimento inconsciente de culpa desse tipo desempenha um papel econmico decisivo e coloca 
os obstculos mais poderosos no caminho do restabelecimento. Se retornarmos mais uma vez  nossa escala de valores, teremos de dizer que no apenas o que  mais 
baixo, mas tambm o que  mais elevado no ego, pode ser inconsciente.  como se fssemos assim supridos com uma prova do que acabamos de asseverar quanto ao ego 
consciente: que ele , primeiro e acima de tudo, um ego corporal.
         
         III - O EGO E O SUPEREGO (IDEAL DO EGO)
         
         Se o ego fosse simplesmente a parte do id modificada pela influncia do sistema perceptivo, o representante na mente do mundo externo real, teramos um 
simples estado de coisas com que tratar. Mas h uma outra complicao.
         As consideraes que nos levaram a presumir a existncia de uma gradao no ego, uma diferenciao dentro dele, que pode ser chamada de 'ideal do ego' ou 
'superego', foram enunciadas em outro lugar. Elas ainda so vlidas. O fato de que essa parte do ego est menos firmemente vinculada  conscincia  a novidade que 
exige explicao.
         Neste ponto, temos de ampliar um pouco o nosso campo de ao. Alcanamos sucesso em explicar o penoso distrbio da melancolia supondo [naqueles que dele 
sofrem] que um objeto que fora perdido foi instalado novamente dentro do ego, isto , que uma catexia do objeto foi substituda por uma identificao. Nessa ocasio, 
contudo, no apreciamos a significao plena desse processo e no sabamos quo comum e tpico ele . Desde ento, viemos a saber que esse tipo de substituio tem 
grande parte na determinao da forma tomada pelo ego, e efetua uma contribuio essencial no sentido da construo do que  chamado de seu 'carter'.A princpio, 
na fase oral primitiva do indivduo, a catexia do objeto e a identificao so, sem dvida, indistinguveis uma da outra. S podemos supor que, posteriormente, as 
catexias do objeto procedem do id, o qual sente as tendncias erticas como necessidades. O ego, que inicialmente ainda  fraco, d-se conta das catexias do objeto, 
e sujeita-se a elas ou tenta desvi-las pelo processo de represso.
         Quando acontece uma pessoa ter de abandonar um objeto sexual, muito amide se segue uma alterao de seu ego que s pode ser descrita como instalao do 
objeto dentro do ego, tal como ocorre na melancolia; a natureza exata dessa substituio ainda nos  desconhecida. Pode ser que, atravs dessa introjeo, que constitui 
uma espcie de regresso ao mecanismo da fase oral, o ego torne mais fcil ao objeto ser abandonado ou torne possvel esse processo. Pode ser que essa identificao 
seja a nica condio em que o id pode abandonar os seus objetos. De qualquer maneira, o processo, especialmente nas fases primitivas de desenvolvimento,  muito 
freqente, e torna possvel supor que o carter do ego  um precipitado de catexias objetais abandonadas e que ele contm a histria dessas escolhas de objeto. Naturalmente, 
deve-se admitir, desde o incio, que existem diversos graus de capacidade de resistncia, os quais decidem at que ponto o carter de uma pessoa desvia ou aceita 
as influncias da histria de suas escolhas objetais erticas. Em mulheres que tiveram muitas experincias amorosas, no parece haver dificuldade em encontrar vestgios 
de suas catexias do objeto nos traos de seu carter. Devemos tambm levar em considerao casos de catexia do objeto e identificao simultnea, isto , casos em 
que a alterao no carter ocorre antes de o objeto ter sido abandonado. Em tais casos, a alterao no carter pde sobreviver  relao de objeto e, em certo sentido, 
conserv-la.
         Tomando-se outro ponto de vista, pode-se dizer que essa transformao de uma escolha objetal ertica numa alterao do ego constitui tambm um mtodo pelo 
qual o ego pode obter controle sobre o id, e aprofundar suasrelaes com ele -  custa,  verdade de sujeitar-se em grande parte s exigncias do id. Quando o ego 
assume as caractersticas do objeto, ele est-se forando, por assim dizer, ao id como um objeto de amor e tentando compensar a perda do id, dizendo: 'Olhe, voc 
tambm pode me amar; sou semelhante ao objeto'.
         A transformao da libido do objeto em libido narcsica, que assim se efetua, obviamente implica um abandono de objetivos sexuais, uma dessexualizao - 
uma espcie de sublimao, portanto. Em verdade, surge a questo, que merece considerao cuidadosa, de saber se este no ser o caminho universal  sublimao, 
se toda sublimao no se efetua atravs da mediao do ego, que comea por transformar a libido objetal sexual em narcsica e, depois, talvez, passa a fornecer-lhe 
outro objetivo. Posteriormente teremos de considerar se outras vicissitudes instintuais no podem resultar tambm dessa transformao; se, por exemplo, ela no pode 
ocasionar uma desfuso dos diversos instintos que se acham fundidos.
         Embora isto seja uma digresso de nosso objetivo, no podemos evitar conceder nossa ateno, por um momento mais, s identificaes objetais do ego. Se 
elas levam a melhor e se tornam numerosas demais, indevidamente poderosas e incompatveis umas com as outras, um resultado patolgico no estar distante. Pode ocorrer 
uma ruptura do ego, em conseqncia de as diferentes identificaes se tornarem separadas umas da outras atravs de resistncias; talvez o segredo dos casos daquilo 
que  descrito como 'personalidade mltipla' seja que as diferentes identificaes apoderam-se sucessivamente da conscincia. Mesmo quando as coisas no vo to 
longe, permanece a questo dos conflitos entre as diversas identificaes em que o ego se separa, conflitos que, afinal de contas, no podem ser descritos como inteiramente 
patolgicos.
         Entretanto, seja o que for que a capacidade posterior do carter para resistir s influncias das catexias objetais abandonadas possa tornar-se, os efeitos 
das primeiras identificaes efetuadas na mais primitiva infnciasero gerais e duradouros. Isso nos conduz de volta  origem do ideal do ego; por trs dele jaz 
oculta a primeira e mais importante identificao de um indivduo, a sua identificao com o pai em sua prpria pr-histria pessoal. Isso aparentemente no , em 
primeira instncia, a conseqncia ou resultado de uma catexia do objeto; trata-se de uma identificao direta e imediata, e se efetua mais primitivamente do que 
qualquer catexia do objeto. Mas as escolhas objetais pertencentes ao primeiro perodo sexual e relacionadas ao pai e  me parecem normalmente encontrar seu desfecho 
numa identificao desse tipo, que assim reforaria a primria.
         Todo esse assunto , contudo, to complicado, que ser necessrio abord-lo pormenorizadamente. A dificuldade do problema se deve a dois fatores: o carter 
triangular da situao edipiana e a bissexualidade constitucional de cada indivduo.
         Em sua forma simplificada, o caso de uma criana do sexo masculino pode ser descrito do seguinte modo. Em idade muito precoce o menininho desenvolve uma 
catexia objetal pela me, originalmente relacionada ao seio materno, e que  o prottipo de uma escolha de objeto segundo o modelo anacltico; o menino trata o pai 
identificando-se com este. Durante certo tempo, esses dois relacionamentos avanam lado a lado, at que os desejos sexuais do menino em relao  me se tornam mais 
intensos e o pai  percebido como um obstculo a eles; disso se origina o complexo de dipo. Sua identificao com o pai assume ento uma colorao hostil e transforma-se 
num desejo de livrar-se dele, a fim de ocupar o seu lugar junto  me. Da por diante, a sua relao com o pai  ambivalente; parece como se a ambivalncia, inerente 
 identificao desde o incio, se houvesse tornado manifesta. Uma atitude ambivalente para com o pai e uma relao objetal detipo unicamente afetuoso com a me 
constituem o contedo do complexo de dipo positivo simples num menino.
         Juntamente com a demolio do complexo de dipo, a catexia objetal da me, por parte do menino, deve ser abandonada. O seu lugar pode ser preenchido por 
uma de duas coisas: uma identificao com a me ou uma intensificao de sua identificao com o pai. Estamos acostumados a encarar o ltimo resultado como o mais 
normal; ele permite que a relao afetuosa com a me seja, em certa medida, mantida. Dessa maneira, a dissoluo do complexo de dipo consolidaria a masculinidade 
no carter de um menino. De maneira precisamente anloga, o desfecho da atitude edipiana numa menininha pode ser uma intensificao de sua identificao com a me 
(ou a instalao de tal identificao pela primeira vez) - resultado que fixar o carter feminino da criana.
         Essas identificaes no so o que esperaramos [pela descrio anterior ([1])], visto que no introduzem no ego o objeto abandonado, mas este desfecho 
alternativo tambm pode ocorrer, sendo mais fcil observ-lo em meninas do que em meninos. A anlise muito amide mostra que uma menininha, aps ter de abandonar 
o pai como objeto de amor, colocar sua masculinidade em proeminncia e identificar-se- com seu pai (isto , com o objeto que foi perdido), ao invs da me. Isso, 
 claro, depender de ser a masculinidade em sua disposio - seja o que for em que isso possa consistir - suficientemente forte.
         Pareceria, portanto, que em ambos os sexos a fora relativa das disposies sexuais masculina e feminina  o que determina se o desfecho da situao edipiana 
ser uma identificao com o pai ou com a me. Esta  uma das maneiras pelas quais a bissexualidade  responsvel pelas vicissitudes subseqentes do complexo de 
dipo. A outra  ainda mais importante, pois fica-se com a impresso de que de modo algum o complexo de dipo simples  a sua forma mais comum, mas representa antes 
uma simplificao ou esquematizao que , sem dvida, freqentemente justificada para fins prticos. Um estudo mais aprofundado geralmente revela o complexo de 
dipo mais completo, o qual  dplice, positivo e negativo, e devido  bissexualidade originalmente presente na criana. Isto equivale a dizer queum menino no tem 
simplesmente uma atitude ambivalente para com o pai e uma escolha objetal afetuosa pela me, mas que, ao mesmo tempo, tambm se comporta como uma menina e apresenta 
uma atitude afetuosa feminina para com o pai e um cime e uma hostilidade correspondentes em relao  me.  este elemento complicador introduzido pela bissexualidade 
que torna to difcil obter uma viso clara dos fatos em vinculao com as primitivas escolhas de objeto e identificaes, e ainda mais difcil descrev-las inteligivelmente. 
Pode mesmo acontecer que a ambivalncia demonstrada nas relaes com os pais deva ser atribuda inteiramente  bissexualidade e que ela no se desenvolva, como representei 
acima, a partir da identificao em conseqncia da rivalidade.
         Em minha opinio,  aconselhvel, em geral, e muito especialmente no que concerne aos neurticos, presumir a existncia do complexo de dipo completo. A 
experincia analtica demonstra ento que, num certo nmero de casos, um ou outro dos constituintes desaparece, exceto por traos mal distinguveis; o resultado, 
ento,  uma srie com o complexo de dipo positivo normal numa extremidade e o negativo invertido na outra, enquanto que os seus membros intermedirios exibem a 
forma completa, com um ou outro dos seus dois componentes preponderando. Na dissoluo do complexo de dipo, as quatro tendncias em que ele consiste agrupar-se-o 
de maneira a produzir uma identificao paterna e uma identificao materna. A identificao paterna preservar a relao de objeto com a me, que pertencia ao complexo 
positivo e, ao mesmo tempo, substituir a relao de objeto com o pai, que pertencia ao complexo invertido; o mesmo ser verdade, mutatis mutandis, quanto  identificao 
materna. A intensidade relativa das duas identificaes em qualquer indivduo refletir a preponderncia nele de uma ou outra das duas disposies sexuais.
         O amplo resultado geral da fase sexual dominada pelo complexo de dipo pode, portanto, ser tomada como sendo a formao de um precipitadono ego, consistente 
dessas duas identificaes unidas uma com a outra de alguma maneira. Esta modificao do ego retm a sua posio especial; ela se confronta com os outros contedos 
do ego como um ideal do ego ou superego.
         O superego, contudo, no  simplesmente um resduo das primitivas escolhas objetais do id; ele tambm representa uma formao reativa enrgica contra essas 
escolhas. A sua relao com o ego no se exaure com o preceito: 'Voc deveria ser assim (como o seu pai)'. Ela tambm compreende a proibio: 'Voc no pode ser 
assim (como o seu pai), isto , voc no pode fazer tudo o que ele faz; certas coisas so prerrogativas dele.' Esse aspecto duplo do ideal do ego deriva do fato 
de que o ideal do ego tem a misso de reprimir o complexo de dipo; em verdade,  a esse evento revolucionrio que ele deve a sua existncia.  claro que a represso 
do complexo de dipo no era tarefa fcil. Os pais da criana, e especialmente o pai, eram percebidos como obstculo a uma realizao dos desejos edipianos, de maneira 
que o ego infantil fortificou-se para a execuo da represso erguendo esse mesmo obstculo dentro de si prprio. Para realizar isso, tomou emprestado, por assim 
dizer, fora ao pai, e este emprstimo constituiu um ato extraordinariamente momentoso. O superego retm o carter do pai, enquanto que quanto mais poderoso o complexo 
de dipo e mais rapidamente sucumbir  represso (sob a influncia da autoridade do ensino religioso, da educao escolar e da leitura), mais severa ser posteriormente 
a dominao do superego sobre o ego, sob a forma de conscincia (conscience) ou, talvez, de um sentimento inconsciente de culpa. Dentro em pouco [[1]] apresentarei 
uma sugesto sobre a fonte de seu poder de dominar dessa maneira - isto , a fonte de seu carter compulsivo, que se manifesta sob a forma de um imperativo categrico.
         Se considerarmos mais uma vez a origem do superego, tal como a descrevemos, reconheceremos que ele  o resultado de dois fatores altamente importantes, 
um de natureza biolgica e outro de natureza histrica, a saber: a durao prolongada, no homem, do desamparo e dependncia de sua infncia, e o fato de seu complexo 
de dipo, cuja represso demonstramos achar-se vinculada  interrupo do desenvolvimento libidinal pelo perodo de latncia, e, assim ao incio bifsico da vida 
sexual do homem. De acordocom uma hiptese psicanaltica, o fenmeno por ltimo mencionado, que parece ser peculiar ao homem, constitui herana do desenvolvimento 
cultural tornado necessrio pela poca glacial. Vemos, ento, que a diferenciao do superego a partir do ego no  questo de acaso; ela representa as caractersticas 
mais importantes do desenvolvimento tanto do indivduo quanto da espcie; em verdade, dando expresso permanente  influncia dos pais, ela perpetua a existncia 
dos fatores a que deve sua origem.
         A psicanlise freqentemente foi censurada por ignorar o lado mais elevado, moral, suprapessoal, da natureza humana. A censura  duplamente injusta, tanto 
histrica quando metodologicamente. Em primeiro lugar-porque j desde o incio atribumos s tendncias morais e estticas do ego a funo de incentivar a represso; 
e, depois, houve uma recusa geral em reconhecer que a pesquisa psicanaltica no podia, tal como um sistema filosfico, produzir uma estrutura terica completa e 
j pronta, mas teve de encontrar seu rumo passo a passo ao longo do caminho da compreenso das complexidades da mente, efetuando uma disseco analtica tanto dos 
fenmenos normais quanto dos anormais. Enquanto tivemos de nos preocupar com o estudo do que  reprimido na vida mental, no houve necessidade de aderir a quaisquer 
apreenses agitadas quanto ao paradeiro do lado mais elevado do homem. Mas agora que empreendemos a anlise do ego, podemos dar uma resposta a todos aqueles cujo 
senso moral ficou chocado e que se queixaram de que, certamente, deveria haver uma natureza mais alta no homem: 'Muito certo', podemos dizer, 'e aqui temos essa 
natureza mais alta, neste ideal do ego ou superego, o representante de nossas relaes com nossas relaes com nossos pais. Quando ramos criancinhas, conhecemos 
essas naturezas mais elevadas, admiramo-las e tememo-las, e, posteriormente, colocamo-las em ns mesmos.'
         O ideal do ego, portanto,  o herdeiro do complexo de dipo, e, assim, constitui tambm a expresso dos mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes 
libidinais do id. Erigindo esse ideal do ego, o egodominou o complexo de dipo e, ao mesmo tempo, colocou-se em sujeio ao id. Enquanto que o ego  essencialmente 
o representante do mundo externo, da realidade, o superego coloca-se, em contraste com ele, como representante do mundo interno, do id. Os conflitos entre o ego 
e o ideal, como agora estamos preparados para descobrir, em ltima anlise refletiro o contraste entre o que  real e o que  psquico, entre o mundo externo e 
o mundo interno.
         Atravs da formao do ideal, o que a biologia e as vicissitudes da espcie humana criaram no id e neste deixaram atrs de si,  assumido pelo ego e reexperimentado 
em relao a si prprio como indivduo. Devido  maneira pela qual o ideal do ego se forma, ele possui os vnculos mais abundantes com a aquisio filogentica de 
cada indivduo - a sua herana arcaica. O que pertencia  parte mais baixa da vida mental de cada um de ns  transformado, mediante a formao do ideal no que  
mais elevado na mente humana pela nossa escala de valores. Seria vo, contudo, tentar localizar o ideal do ego, mesmo no sentido em que localizamos o ego, ou encaix-lo 
em qualquer das analogias com auxlio das quais tentamos representar a relao entre o ego e o id.
          fcil demonstrar que o ideal do ego responde a tudo o que  esperado da mais alta natureza do homem. Como substituto de um anseio pelo pai, ele contm 
o germe do qual todas as religies evolveram. O autojulgamento que declara que o ego no alcana o seu ideal, produz o sentimento religioso de humildade a que o 
crente apela em seu anseio.  medida que uma criana cresce, o papel do pai  exercido pelos professores e outras pessoas colocadas em posio de autoridade; suas 
injunes e proibies permanecem poderosas no ideal do ego e continuam, sob a forma de conscincia (conscience), a exercer a censura moral. A tenso entre as exigncias 
da conscincia e os desempenhos concretos do ego  experimentada como sentimento de culpa. Os sentimentos sociais repousam em identificaes com outras pessoas, 
na base de possurem o mesmo ideal do ego.
         A religio, a moralidade e um senso social - os principais elementos do lado superior do homem  - foram originalmente uma s e mesma coisa. Segundo a hiptese 
que apresentei em Totem e Tabu, foram filogeneticamente adquiridos a partir do complexo paterno: a religio e a represso moral atravs do processo de dominar o 
prprio complexo de dipo, e o sentimento social mediante a necessidade de superar a rivalidade que ento permaneceu entre os membros da gerao mais nova. O sexo 
masculino parece ter tomado a dianteira em todas essas aquisies morais, que parecem ento ter sido transmitidas s mulheres atravs do cruzamento hereditrio. 
Mesmo hoje os sentimentos sociais surgem no indivduo como uma superestrutura construda sobre impulsos de rivalidade ciumenta contra seus irmos e irms. Visto 
que a hostilidade no pode ser satisfeita, desenvolve-se uma identificao com o rival anterior. O estudo de casos brandos de homossexualidade confirma a suspeita 
de que tambm neste caso a identificao constitui substituto de uma escolha objetal afetuosa que ocupou o lugar da atitude hostil, agressiva.
         Com a meno da filognese, contudo, surgem novos problemas, dos quais ficamos tentados a retrair-nos cautelosamente. Mas no h remdio para isso e a tentativa 
deve ser feita - apesar do medo de que se revelar a inadequao de todo nosso esforo. A questo  a seguinte: qual foi - o ego do homem primitivo ou o seu id - 
que adquiriu a religio e a moralidade, naqueles dias primevos, a partir do complexo paterno? Se foi o ego, porque no falamos simplesmente que essa coisas foram 
herdadas pelo ego? Se foi o id, como  que isso concorda com o carter do id? Ou estaremos errados em fazer remontar a diferenciao entre ego, superego e id a esses 
tempos remotos? No deveramos honestamente confessar que toda a nossa concepo dos processos do ego no nos ajuda a compreender a filognese e no lhe pode ser 
aplicada?
         Respondamos primeiro ao que  mais fcil de responder. A diferenciao entre ego e id deve ser atribuda no apenas ao homem primitivo, mas at mesmo a 
organismos muito mais simples, pois ela  expresso inevitvel da influncia do mundo externo. O superego, segundo a nossa hiptese, originou-se, em realidade, das 
experincias que levaram ao totemismo. A questo de saber se foi o ego ou o id que experimentou e adquiriu aquelas coisas resulta logo em nada. A reflexo em seguida 
nos demonstra que nenhuma vicissitude externa pode ser experimentada ou sofrida pelo id, exceto por via do ego, que  o representante do mundo externo para o id. 
Entretanto, no  possvel falar de herana direta no ego.  aqui que o abismo entre umindivduo concreto e o conceito de uma espcie se torna evidente. Alm disso, 
no se deve tomar a diferena entre ego e id num sentido demasiado rgido, nem esquecer que o ego  uma parte especialmente diferenciada do id [[1]e [2]]. As experincias 
do ego parecem, a princpio, estar perdidas para a herana; mas, quando se repetem com bastante freqncia e com intensidade suficiente em muitos indivduos, em 
geraes sucessivas, transformam-se, por assim dizer, em experincias do id, cujas impresses so preservadas por herana. Dessa maneira, no id, que  capaz de ser 
herdado, acham-se abrigados resduos das existncias de incontveis egos; e quando o ego forma o seu superego a partir do id, pode talvez estar apenas revivendo 
formas de antigos egos e ressuscitando-as.
         A maneira pela qual o superego surge explica como  que os primitivos conflitos do ego com as catexias objetais do id podem ser continuados em conflitos 
com o seu herdeiro, o superego. Se o ego no alcanou xito em dominar adequadamente o complexo de dipo, a catexia energtica do ltimo, originando-se do id, mais 
uma vez ir atuar na formao reativa do ideal do ego. A comunicao abundante entre o ideal e esses impulsos instintuais do Ics. soluciona o enigma de como  que 
o prprio ideal pode, em grande parte, permanecer inconsciente e inacessvel ao ego. O combate que outrora lavrou nos estratos mais profundos da mente, e que no 
chegou ao fim devido  rpida sublimao e identificao,  agora continuado numa regio mais alta, como a Batalha dos Hunos na pintura de Kaulbach.
         
         IV - AS DUAS CLASSES DE INSTINTOS
         
         J dissemos que, se a diferenciao que efetuamos na mente de um id, um ego e um superego, representa qualquer progresso em nosso conhecimento, deveria 
capacitar-nos a compreender mais integralmente as relaes dinmicas dentro da mente e a descrev-las mais claramente. J conclumos tambm [[1]] que o ego se acha 
especialmente sob a influncia da percepo e que, falando de modo geral, pode-se dizer que as percepes tm para o ego a mesma significao que os instintos tm 
para o id. Ao mesmo tempo, o ego est sujeito tambm  influncia dos instintos, tal como o id, do qual, como sabemos,  somente uma parte especialmente modificada.
         Desenvolvi ultimamente uma viso dos instintos  que sustentarei aqui e tomarei como base de meus debates ulteriores. Segundo essa viso, temos de distinguir 
duas classes de instintos, uma das quais, os instintos sexuais ou Eros, , de longe, a mais conspcua e acessvel ao estudo. Ela abrange no apenas o instinto sexual 
desinibido propriamente dito e os impulsos instintuais de natureza inibida quanto ao objetivo ou sublimada que dele derivam, mas tambm o instinto autopreservativo, 
que deve ser atribudo ao ego e que, no incio de nosso trabalho analtico, tnhamos boas razes para contrastar com os instintos objetais sexuais. A segunda classe 
de instintos no foi to fcil de indicar; ao final, viemos a reconhecer o sadismo como seu representante. Com base em consideraes tericas, apoiadas pela biologia, 
apresentamos a hiptese de um instinto de morte, cuja tarefa  conduzir a vida orgnica de volta ao estado inanimado; por outro lado, imaginamos que Eros, por ocasionar 
uma combinao de conseqncias cada vez mais amplas das partculas em que a substncia viva se acha dispersa, visa a complicar a vida e, ao mesmo tempo, naturalmente, 
a preserv-la. Agindo dessa maneira, ambos os instintos seriam conservadores no sentido mais estrito da palavra, visto que ambos estariam se esforando para restabelecer 
um estado de coisas que foi perturbado pelo surgimento da vida. O surgimento da vida seria, ento, a causa da continuao da vida e tambm, ao mesmo tempo, do esforo 
no sentido da morte. E a prpria vida seria um conflito e uma conciliao entre essas duas tendncias. O problema da origem da vida permaneceria cosmolgico, e o 
problema do objetivo e propsito da vida seria respondido dualisticamente.Segundo este ponto de vista, um processo fisiolgico especial (de anabolismo ou catabolismo) 
estaria associado a cada uma das duas classes de instintos; ambos os tipos de instinto estariam ativos em toda partcula de substncia viva, ainda que em propores 
desiguais, de maneira que determinada substncia poderia ser o principal representante de Eros.
         A hiptese no lana qualquer luz sobre a maneira pela qual as duas classes de instintos se fundem, misturam e ligam uma com a outra, mas que isso se realiza 
de modo regular e de modo muito extensivo, constitui pressuposio indispensvel  nossa concepo. Parece que, em resultado da combinao de organismos unicelulares 
em formas multicelulares de vida, o instinto de morte da clula isolada pode ser neutralizado com sucesso e os impulsos destrutivos desviados para o mundo externo, 
mediante o auxlio de um rgo especial. Esse rgo especial pareceria ser o aparelho muscular; e o instinto de morte pareceria, ento, expressar-se - ainda que, 
provavelmente, apenas em parte - como um instinto de destruio dirigido contra o mundo externo e outros organismos. 
         Uma vez que tenhamos admitido a idia de uma fuso das duas classes de instintos uma com a outra, a possibilidade de uma 'desfuso' - mais ou menos completa 
- se impe a ns. O componente sdico do instinto sexual seria o exemplo clssico de uma fuso instintual til; e o sadismo que se tornou independente como perverso 
seria tpico de uma desfuso, embora no conduzida a extremos. A partir deste ponto, obtemos a viso de um grande domnio de fatos que ainda no tinham sido considerados 
sob essa luz. Percebemos que, para fins de descarga, o instinto de destruio  habitualmente colocado a servio de Eros; suspeitamos que a crise epilptica  produto 
e indicao de uma desfuso instintual, e viemos a compreender que a desfuso instintual e o surgimento pronunciado do instinto de morte exigem considerao especfica 
entre os efeitos de algumas neuroses graves, tais como, por exemplo, as neuroses obsessivas. Fazendo uma generalizao rpida, poderamos conjecturar que a essncia 
de uma regresso da libido (da fase genital para a anal-sdica, por exemplo) reside numa desfuso de instintos, tal como, inversamente, o avano de uma fase anterior 
para a genital definitiva estaria condicionado a um acrscimo de componentes erticos.Surge tambm a questo de saber se a ambivalncia comum, que com tanta freqncia 
 inusitadamente forte na disposio constitucional  neurose, no deveria ser encarada como produto de uma desfuso; a ambivalncia, contudo,  um fenmeno to 
fundamental que ela mais provavelmente representa uma fuso instintual que no se completou.
          natural que voltemos a indagar com interesse se no poderia haver vinculaes instrutivas a serem traadas entre, de um lado, as estruturas que presumimos 
existir - o ego, o superego e o id - e, de outro, as duas classes de instintos; e, alm disso, se se poderia demonstrar que o princpio de prazer que domina os processos 
mentais tem alguma relao constante tanto com as duas classes de instintos quanto com essas diferenciaes que traamos na mente. Antes de debater isto, porm, 
temos de afastar uma dvida que surge em relao aos termos em que o prprio problema  enunciado.  verdade que no h dvida sobre o princpio de prazer, e a diferenciao 
dentro do ego possui boa justificao clnica; mas a distino entre as duas classes de instintos no parece suficientemente assegurada e  possvel que se possa 
encontrar fatos da anlise clnica que ponham fim  sua pretenso.
         Parece existir um fato desse tipo. Para a oposio entre as duas classes de instintos podemos colocar a polaridade do amor e do dio. No h dificuldade 
em encontrar um representante de Eros; mas temos de ficar gratos se pudemos achar um representante do evasivo instinto de morte no instinto de destruio, ao qual 
o dio aponta o caminho. Ora, a observao clnica demonstra no apenas que o amor, com inesperada regularidade, se faz acompanhar pelo dio (ambivalncia), e que, 
nos relacionamentos humanos, o dio  freqentemente um precursor do amor, mas tambm que, num certo nmero de circunstncias, o dio se transforma em amor e o amor 
em dio. Se essa modificao  mais que uma mera sucesso temporal - isto , se um deles realmente se transforma no outro -, ento perde-se completamente a base 
para uma distino to fundamental como a existente entre instintos erticos e instintos de morte, distino que pressupe processos fisiolgicos correndo em direes 
opostas.Ora, o caso em que algum primeiramente ama e depois odeia a mesma pessoa (ou o inverso), porque essa pessoa lhe deu motivo para faz-lo, obviamente nada 
tem a ver com o nosso problema. Tampouco o tem o outro caso, em que sentimentos de amor que ainda no se tornaram manifestos, expressam-se, inicialmente, por hostilidade 
e tendncias agressivas; e pode ser que aqui o componente destrutivo da catexia do objeto se tenha apressado em ir  frente e somente mais tarde se lhe juntou o 
ertico. Mas sabemos de diversos casos na psicologia das neuroses em que  mais plausvel supor que uma transformao se efetua. Na parania persecutria, o paciente 
desvia um vnculo homossexual excessivamente forte que o liga a uma pessoa em especial; em resultado, esta pessoa a quem muito amava, se torna um perseguidor, contra 
quem o paciente dirige uma agressividade freqentemente perigosa. Aqui, temos o direito de interpolar uma fase prvia, que transformou o amor em dio. No caso da 
origem da homossexualidade, e tambm dos sentimentos sociais dessexualizados, a investigao analtica apenas recentemente nos ensinou a reconhecer que esto presentes 
sentimentos violentos de rivalidade que levam a inclinaes agressivas, sendo que, apenas aps estes terem sido superados, o objeto anteriormente odiado se torna 
amado ou d origem a uma identificao. Surge a questo de saber se, nesses casos, devemos presumir uma transformao direta de dio em amor.  claro que aqui as 
modificaes so puramente internas, e uma alterao no comportamento do objeto no participa delas.
         Existe, contudo, um outro mecanismo possvel, o qual viemos a conhecer pela investigao analtica dos processos que levam a uma transformao em parania. 
Uma atitude ambivalente acha-se presente desde o incio e a transformao  efetuada por meio de um deslocamento reativo de catexias, sendo a energia retirada do 
impulso ertico e adicionada ao hostil.
         No exatamente o mesmo, mas algo semelhante, ocorre quando a rivalidade hostil que conduz  homossexualidade  dominada. A atitude hostil no tinha probabilidade 
de satisfao; conseqentemente - por razes econmicas -, ela  substituda por uma atitude amorosa para a qual existe mais probabilidade de satisfao, isto , 
possibilidade de descarga. Assim, vemos que no somos obrigados, em qualquer destes casos, a presumir uma transformao direta de dio em amor, o que seria incompatvel 
com a distino qualitativa entre as duas classes de instintos.Notar-se-, contudo, que, pela introduo desse outro mecanismo de transformao de amor em dio, 
tacitamente fizemos outra suposio que merece ser enunciada explicitamente. Fizemos clculos como se existisse na mente - no ego ou no id - uma energia deslocvel, 
a qual, neutra em si prpria, pode ser adicionada a um impulso ertico ou destrutivo qualitativamente diferenciado e aumentar a sua catexia total. Sem presumir a 
existncia de uma energia deslocvel desse tipo, no podemos prosseguir. A nica questo  saber de onde ela provm, a que pertence e o que significa.
         O problema da qualidade dos impulsos instintuais e de sua persistncia atravs de suas diversas vicissitudes ainda  muito obscuro e mal foi enfrentado, 
at o presente. Nos instintos componentes sexuais, que so especialmente acessveis  observao,  possvel perceber alguns processos que pertencem  mesma categoria 
dos que estamos estudando. Vemos, por exemplo, que existe um certo grau de comunicao entre os instintos componentes, que um instinto que deriva de uma fonte ergena 
especfica pode transmitir sua intensidade para reforar outro instinto componente que se origina de outra fonte, que a satisfao de determinado instinto pode tomar 
o lugar da satisfao de outro - e demais fatos da mesma natureza, que devem incentivar-nos a nos aventurarmos por certas hipteses.
         Alm do mais, no presente estudo estou apenas apresentando uma hiptese; no tenho prova a oferecer. Parece ser uma concepo plausvel que essa energia 
deslocvel e neutra, que , sem dvida, ativa tanto no ego quanto no id, proceda do estoque narcsico de libido - que ela seja Eros dessexualizado. (Os instintos 
erticos parecem ser em geral mais plsticos, mais facilmente desviados e deslocados que os instinto destrutivos.) Disso, podemos facilmente passar a presumir que 
essa libido deslocvel  empregada a servio do princpio de prazer, para neutralizar bloqueios e facilitar a descarga. Com relao a isso,  fcil observar uma 
certa indiferena quanto ao caminho ao longo do qual a descarga se efetua, desde que se realize de algum modo. Conhecemos este trao;  caracterstico dos processos 
de catexia no id. Ele  encontrado nas catexias erticas, onde se manifesta uma indiferena peculiar com relao aos objetos, sendo especialmente evidente nas transferncias 
que surgem na anlise, as quais se desenvolvem de modo inevitvel, independentemente das pessoas que so seu objeto. H no muito tempo atrs, Rank [1923] publicou 
alguns bons exemplos da maneira pela qual atos neurticos de vingana podem ser dirigidos contra a pessoa errada. Tal comportamento por parte do inconsciente nos 
faz lembrar a cmica histria dos trs alfaiates de aldeia, um dos quais tinha de ser enforcado porque o nico ferreiro do povoado cometera um delito capital.A punio 
tem de ser exigida, mesmo que ela no incida sobre o culpado. Foi estudando o trabalho do sonho que pela primeira vez nos deparamos com esse tipo de frouxido nos 
deslocamentos ocasionados pelo processo primrio. Nesse caso, os objetos eram assim relegados a uma posio de importncia no mais que secundria, tal como, no 
caso que estamos agora debatendo, so os caminhos de descarga. Seria caracterstico do ego ser mais especfico sobre a escolha tanto de um objeto quanto de um caminho 
de descarga.
         Se essa energia deslocvel  libido dessexualizada, ela tambm pode ser descrita como energia sublimada, pois ainda reteria a finalidade principal de Eros 
- a de unir e ligar - na medida em que auxilia no sentido de estabelecer a unidade, ou tendncia  unidade, que  particularmente caracterstica do ego. Se os processos 
de pensamento, no sentido mais amplo, devem ser includos entre esses deslocamentos, ento a atividade de pensar  tambm suprida pela sublimao de foras motivadoras 
erticas.
         Chegamos aqui novamente  possibilidade, que j foi debatida [[1]], de que a sublimao pode efetuar-se regularmente atravs da mediao do ego. Ser recordado 
o outro caso, em que o ego trata com as primeiras catexias objetais do id (e certamente com as posteriores, tambm), retirando a libido delas para si prprio e ligando-as 
 alterao do ego produzida por meio da identificao. A transformao [de libido ertica] em libido do ego naturalmente envolve um abandono de objetivos sexuais, 
uma dessexualizao. De qualquer modo, isto lana luz sobre uma importante funo do ego em sua relao com Eros. Apoderando-se assim da libido das catexias do objeto, 
erigindo-se em objeto amoroso nico, e dessexualizando ou sublimando a libido do id, o ego est trabalhando em oposio aos objetivos de Eros e colocando-se a servio 
de impulsos instintuais opostos. Ele tem de aquiescer em algumas das outras catexias objetais do id; tem, por assim dizer, de participar delas. Retornaremos mais 
tarde a outra possvel conseqncia dessa atividade do ego [[1]].
         Isto pareceria implicar uma importante amplificao da teoria do narcisismo. Bem no incio, toda a libido est acumulada no id, enquanto que o ego ainda 
se acha em processo de formao ou ainda  fraco. O id envia parte dessa libido para catexias objetais erticas; em conseqncia, o ego, agora tornado forte, tenta 
apoderar-se dessa libido do objeto e impor-se ao id como objeto amoroso. O narcisismo do ego , assim, um narcisismo secundrio, que foi retirado dos objetos.
         Freqentemente descobrimos, quando podemos fazer remontar os impulsos instintuais, que eles se revelam como derivados de Eros. Se no fosse pelas consideraes 
apresentadas em Alm do Princpio de Prazer, e, em ltima anlise, pelos constituintes sdicos que se ligaram a Eros, teramos dificuldade em apegar-nos a nosso 
ponto de vista dualista fundamental. Mas, visto que no podemos fugir a essa concepo, somos levados a concluir que os instintos de morte so, por sua natureza, 
mudos, e que o clamor da vida procede, na maior parte, de Eros. 
         E da luta contra Eros! Dificilmente se pode duvidar que o princpio de prazer serve ao id como bssola em sua luta contra a libido - a fora que introduz 
distrbios no processo de vida. Se  verdade que o princpio de constncia de Fechner  governa a vida, que assim consiste numa descida contnua em direo  morte, 
so as reivindicaes de Eros, dos instintos sexuais, que, sob a forma de necessidades instintuais, mantm o nvel que tende a baixar e introduzem novas tenses. 
O id, guiado pelo princpio de prazer - isto , pela percepo de desprazer - desvia essas tenses de diversas maneiras. Em primeiro lugar, anuindo to rapidamente 
quanto possvel s exigncias da libido no dessexualizada - esforando-se pela satisfao das tendncias diretamente sexuais. Mas ele o faz de modo muito mais abrangente 
em relao a certa forma especfica de satisfao, em que todas as exigncias componentes convergem - pela descarga das substncias sexuais, que so veculos saturados, 
por assim dizer, de tenses erticas. A ejeo das substncias sexuais no ato sexual corresponde, em certo sentido,  separao do soma e do plasma germinal. Isto 
explica a semelhana do estado que se segue  satisfao sexual completa com o ato de morrer, e ofato de a morte coincidir com o ato da cpula em alguns dos animais 
inferiores. Essas criaturas morrem no ato da reproduo porque, aps Eros ter sido eliminado atravs do processo de satisfao, o instinto de morte fica com as mos 
livres para realizar seus objetivos. Finalmente, como vimos, o ego, sublimando um pouco da libido para si prprio e para seus propsitos, auxilia o id em seu trabalho 
de dominar as tenses.
         
         V - AS RELAES DEPENDENTES DO EGO
         
         A complexidade de nosso tema geral deve ser uma desculpa para o fato de nenhum dos ttulos de captulo deste livro corresponder inteiramente ao seu contedo 
e de, voltando-nos para novos aspectos do assunto, estarmos constantemente retomando tpicos que j foram tratados.
         Assim, temos afirmado repetidamente que o ego  formado, em grande parte, a partir de identificaes que tomam o lugar de catexias abandonadas pelo id; 
que a primeira dessas identificaes sempre se comporta como uma instncia especial no ego e dele se mantm  parte sob a forma de um superego: enquanto que, posteriormente, 
 medida que fica mais forte, o ego pode tornar-se mais resistente s influncias de tais identificaes. O superego deve sua posio especial no ego, ou em relao 
ao ego, a um fator que deve ser considerado sob dois aspectos: por um lado, ele foi a primeira identificao, uma identificao que se efetuou enquanto o ego ainda 
era fraco; por outro,  o herdeiro do complexo de dipo e, assim, introduziu os objetos mais significativos no ego. A relao do superego com as alteraes posteriores 
do ego  aproximadamente semelhante  da fase sexual primria da infncia com a vida sexual posterior, aps a puberdade. Embora ele seja acessvel a todas as influncias 
posteriores, preserva, no obstante, atravs de toda a vida, o carter que lhe foi dado por sua derivao do complexo paterno - a saber, a capacidade de manter-se 
 parte do ego e domin-lo. Ele constitui uma lembrana da antiga fraqueza e dependncia do ego, e o ego maduro permanece sujeito  sua dominao. Tal como a criana 
esteve um dia sob a compulso de obedecer aos pais, assim o ego se submete ao imperativo categrico do seu superego.
         Mas a derivao do superego a partir das primeiras catexias objetais do id, a partir do complexo de dipo, significa ainda mais para ele. Essa derivao, 
como j demonstramos [[1]], coloca-o em relao com as aquisies filogenticas do id e torna-o uma reencarnao de antigas estruturas do ego que deixaram os seus 
precipitados atrs de si no id. Assim, o superego acha-se sempre prximo do id e pode atuar como seu representante vis--vis do ego. Ele desce fundo no id e, por 
essa razo, acha-se mais distante da conscincia (consciousness) que o ego.Apreciaremos melhor estas relaes voltando-nos para certos fatos clnicos que h muito 
tempo perderam sua novidade, mas que ainda aguardam um exame terico.
         H certas pessoas que se comportam de maneira muito peculiar durante o trabalho de anlise. Quando se lhes fala esperanosamente ou se expressa satisfao 
pelo progresso do tratamento, elas mostram sinais de descontentamento e seu estado invariavelmente se torna pior. Comeamos por encarar isto como um desafio e uma 
tentativa de provar a sua superioridade ao mdico, mas, posteriormente, assumimos um ponto de vista mais profundo e mais justo. Ficamos convencidos, no apenas de 
que tais pessoas no podem suportar qualquer elogio ou apreciao, mas que reagem inversamente ao progresso do tratamento. Toda soluo parcial, que deveria resultar, 
e noutras pessoas realmente resulta, numa melhoria ou suspenso temporria de sintomas, produz nelas, por algum tempo, uma exacerbao de suas molstias; ficam piores 
durante o tratamento, ao invs de ficarem melhores. Exibem o que  conhecido como 'reao teraputica negativa'.
         No h dvida de que existe algo nessas pessoas que se coloca contra o seu restabelecimento, e a aproximao deste  temida como se fosse um perigo. Estamos 
acostumados a dizer que a necessidade de doena nelas levou a melhor sobre o desejo de restabelecimento. Se analisarmos essa resistncia da maneira habitual, ento, 
mesmo depois de feito o desconto de uma atitude de desafio para com o mdico e da fixao s diversas formas de ganho com a doena, a maior parte dela ainda resta, 
e revela-se como o mais poderoso de todos os obstculos  cura, mais poderoso que os conhecidos obstculos da inacessibilidade narcsica, da atitude negativa para 
com o mdico e do apego ao ganho com a enfermidade.
         Ao final, percebemos que estamos tratando com o que pode ser chamado de fator 'moral', um sentimento de culpa, que est encontrando sua satisfao na doena 
e se recusa a abandonar a punio do sofrimento. Devemos estar certos em encarar esta explicao desencorajadora como final. Mas, enquanto o paciente est envolvido, 
esse sentimento de culpa silencia; no lhe diz que ele  culpado; ele no se sente culpado, mas doente. Esse sentimento de culpa expressa-se apenas como uma resistncia 
 cura que  extremamente difcil de superar. tambm particularmente difcil convencer o paciente de que esse motivo encontra-se por trs do fato de ele continuar 
enfermo; ele se apega  explicao mais bvia de que o tratamento pela anlise no constitui o remdio certo para o seu caso.
         A descrio que demos aplica-se aos casos mais extremos desse estado de coisas; mas, em medida menor, esse fator tem de ser levado em conta em muitssimos 
casos, talvez em todos os casos relativamente graves de neurose. Em verdade, pode ser precisamente este elemento da situao, a atitude do ideal do ego, que determina 
a gravidade de uma doena neurtica. No hesitaremos, portanto, em examinar bem mais detalhadamente a maneira pela qual o sentimento de culpa se expressa sob condies 
diferentes.
         Uma interpretao do sentimento de culpa normal, consciente (conscincia), no apresenta dificuldades; ele se baseia na tenso existente entre o ego e o 
ideal do ego, sendo expresso de uma condenao do ego pela sua instncia crtica. Os sentimentos de inferioridade, to bem conhecidos nos neurticos, presumivelmente 
no se acham muito afastados disso. Em duas enfermidades muito conhecidas o sentimento de culpa  superintensamente consciente; nelas, o ideal do ego demonstra uma 
severidade particular e com freqncia dirige sua ira contra o ego de maneira cruel. A atitude do ideal doego nestes dois estados, a neurose obsessiva e a melancolia, 
apresenta, ao lado dessa semelhana, diferenas que no so menos significativas.
         Em certas formas de neurose obsessiva, o sentimento de culpa  super-ruidoso, mas no pode se justificar para o ego. Conseqentemente, o ego do paciente 
se rebela contra a imputao de culpa e busca o apoio do mdico para repudi-la. Seria tolice aquiescer nisso, pois faz-lo no teria efeito. A anlise acaba por 
demonstrar que o superego est sendo influenciado por processos que permaneceram desconhecidos ao ego.  possvel descobrir os impulsos reprimidos que realmente 
se acham no fundo do sentimento de culpa. Assim, nesse caso, o superego sabia mais do que o ego sobre o id inconsciente.
         Na melancolia, a impresso de que o superego obteve um ponto de apoio na conscincia (consciousness)  ainda mais forte. Mas aqui o ego no se arrisca a 
fazer objeo; admite a sua culpa e submete-se ao castigo. Entendemos a diferena. Na neurose obsessiva, o que estava em questo eram impulsos censurveis que permaneciam 
fora do ego, enquanto que na melancolia o objeto a que a ira do superego se aplica foi includo no ego mediante identificao.
         No se sabe bem por que o sentimento de culpa atinge essa fora to extraordinria nesses dois distrbios neurticos; mas o problema principal que se apresenta 
nesse estado de coisas encontra-se numa outra direo. Adiaremos a sua discusso at que tenhamos tratado dos outros casos em que o sentimento de culpa permanece 
inconsciente. [[1]]
          essencialmente na histeria e em estados de tipo histrico que isso  encontrado. Aqui o mecanismo pelo qual o sentimento de culpa permanece inconsciente 
 fcil de descobrir. O ego histrico desvia uma percepo aflitiva com que as crticas de seu superego o ameaam, da mesma maneira pela qual costuma desviar uma 
catexia objetal insuportvel - atravs de um ato de represso. O ego , portanto, o responsvel pelo fato de o sentimento de culpa permanecer inconsciente. Sabemos 
que, via de regra, o ego efetua represses a servio e por ordem do seu superego; mas este  um caso em que ele voltou a mesma arma contra seu severo feitor. Na 
neurose obsessiva, como sabemos, predominam os fenmenos de formao reativa, mas aqui [na histeria] o ego alcana xito apenas em manter  distncia o material 
a que o sentimento de culpa se refere.
         Pode-se ir mais longe e aventar a hiptese de que grande parte do sentimento de culpa deve normalmente permanecer inconsciente, pois a origem da conscincia 
(conscience) acha-se intimamente vinculada ao complexo de dipo, que pertence ao inconsciente. Se algum estivesse inclinadoa apresentar a paradoxal proposio de 
que o homem normal no apenas  muito mais imoral do que cr, mas tambm muito mais moral do que sabe, a psicanlise, em cujas descobertas repousa a primeira metade 
da assertiva, no teria objees a levantar contra a segunda metade.
         Constituiu uma surpresa descobrir que um aumento nesse sentimento de culpa Ics. pode transformar pessoas em criminosos. Mas isso indubitavelmente  um fato. 
Em muitos criminosos, especialmente nos principiantes,  possvel detectar um sentimento de culpa muito poderoso, que existia antes do crime, e, portanto, no  
o seu resultado, mas sim o seu motivo.  como se fosse um alvio poder ligar esse sentimento inconsciente de culpa a algo real e imediato.
         Em todas essas situaes, o superego exibe sua independncia do ego consciente e suas relaes ntimas com o id inconsciente. Considerando a importncia 
que atribumos aos resduos verbais pr-conscientes no ego [[1]], surge a questo de saber ser pode se o caso que o superego, na medida em que  Ics., consista em 
tais representaes verbais e, se no, em que mais consiste. Nossa tentativa de resposta ser que  impossvel, tanto para o superego como para o ego, negar sua 
origem a partir das coisas que ouviu; pois ele  parte do ego e permanece acessvel  conscincia (consciousness) por via dessas representaes verbais (conceitos, 
abstraes). Porm, a energia da catexia no chega a esses contedos do superego a partir da percepo auditiva (educao ou leitura), mas de fontes no id.
         A questo que adiamos responder [[1]] diz o seguinte: Como  que o superego se manifesta essencialmente como sentimento de culpa (ou melhor, como crtica 
- pois o sentimento de culpa  a percepo no ego que responde a essa crtica) e, alm disso, desenvolve to extraordinria rigidez e severidade para com o ego? 
Se nos voltarmos primeiramente para a melancolia, descobrimos que o superego excessivamente forte que conseguiu um ponto de apoio na conscincia dirige sua ira contra 
o ego com violncia impiedosa, como se tivesse se apossado de todo o sadismo disponvel na pessoa em apreo. Seguindo nosso ponto de vista sobre o sadismo, diramos 
que o componente destrutivo entrincheirou-se no superego e voltou-se contrao ego. O que est influenciando agora o superego , por assim dizer, uma cultura pura 
do instinto de morte e, de fato, ela com bastante freqncia obtm xito em impulsionar o ego  morte, se aquele no afasta o seu tirano a tempo, atravs da mudana 
para a mania.
         As censuras da conscincia em certas formas de neurose obsessiva so tambm aflitivas e atormentadoras, mas aqui a situao  menos manifesta.  digno de 
nota que o neurtico d o passo para a autodestruio;  como se ele estivesse imune ao perigo de suicdio e se achasse muito mais bem protegido contra ele que o 
histrico. Podemos perceber que o que garante a segurana do ego  o fato de o objeto ter sido retido. Na neurose obsessiva tornou-se possvel - mediante uma regresso 
 organizao pr-genital - aos impulsos amorosos transformarem-se em impulsos de agressividade contra o objeto. Aqui, o instinto de destruio foi liberado e mais 
uma vez busca destruir o objeto, ou, pelo menos, parece ter essa inteno. Esses objetivos no foram adotados pelo ego, e este luta contra eles com formaes reativas 
e medidas precautrias; eles permanecem no id. O superego, contudo, comporta-se como se o ego fosse responsvel por eles e demonstra, ao mesmo tempo, pela seriedade 
com que pune essas intenes destrutivas, que elas no so meras aparncias evocadas pela regresso, mas uma substituio real do amor pelo dio. Impotente em ambas 
as direes, o ego se defende em vo, tanto das instigaes do id assassino quanto das censuras da conscincia punitiva. Ele consegue manter sob controle pelo menos 
as aes mais brutais de ambos os lados; o primeiro resultado  um auto-suplcio interminvel, e eventualmente segue-se uma tortura sistemtica do objeto, na medida 
em que este estiver ao alcance.
         Os perigosos instintos de morte so tratados no indivduo de diversas maneiras: em parte so tornados incuos por sua fuso com componentes erticos; em 
parte so desviados para o mundo externo sob a forma de agressividade; enquanto que em grande parte continuam, sem dvida, seu trabalho interno sem estorvo. Ento, 
como  que na melancolia o superego pode tornar-se uma espcie de lugar de reunio para os instintos de morte?
         Do ponto de vista do controle instintual, da moralidade, pode-se dizer do id que ele  totalmente amoral; do ego, que se esfora por ser moral, e do superego 
que pode ser supermoral e tornar-se ento to cruel quanto somente o id pode ser.  notvel que, quanto mais um homem controla a sua agressividade para com o exterior, 
mais severo - isto , agressivo - ele se torna em seu ideal do ego. A opinio comum v a situao do outro lado; o padro erigido pelo ideal do ego parece ser o 
motivo para a supresso da agressividade. Permanece, contudo, o fato de que, como afirmamos, quantomais um homem controla a sua agressividade, mais intensa se torna 
a inclinao de seu ideal  agressividade contra seu ego.  como um deslocamento, uma volta contra seu prprio ego. Mas mesmo a moralidade normal e comum possui 
uma qualidade severamente restritiva, cruelmente proibidora.  disso, em verdade, que surge a concepo de um ser superior que distribui castigos inexoravelmente.
         No posso ir  frente em minha considerao dessas questes sem introduzir uma nova hiptese. O superego surge, como sabemos, de uma identificao com o 
pai tomado como modelo. Toda identificao desse tipo tem a natureza de uma dessexualizao ou mesmo de uma sublimao. Parece ento que, quando uma transformao 
desse tipo se efetua, ocorre ao mesmo tempo uma desfuso instintual [[1]]. Aps a sublimao, o componente ertico no mais tem o poder de unir a totalidade da agressividade 
que com ele se achava combinada, e esta  liberada sob a forma de uma inclinao  agresso e  destruio. Essa desfuso seria a fonte do carter geral de severidade 
e crueldade apresentado pelo ideal - o seu ditatorial 'fars'.
         Consideremos novamente, por um momento, a neurose obsessiva. Aqui, o estado de coisas  diferente. A desfuso de amor em agressividade no foi efetuada 
por ao do ego, mas  o resultado de uma regresso que ocorreu no id. Esse processo, porm, estendeu-se alm do id, at o superego, que agora aumenta a sua severidade 
para com o inocente ego. Pareceria, contudo, que nesse caso, no menos que no da melancolia, o ego, tendo ganho controle sobre a libido por meio da identificao, 
 punido pelo superego por assim proceder, mediante a instrumentalidade da agressividade que estava mesclada com a libido.
         As nossas idias sobre o ego esto comeando a clarear e os seus diversos relacionamentos ganham nitidez. Vemos agora o ego em sua fora e em suas fraquezas. 
Est encarregado de importantes funes. Em virtude de sua relao com o sistema perceptivo, ele d aos processos mentais uma ordem temporal e submete-os ao 'teste 
da realidade'. Interpondo os processos de pensamento, assegura um adiamento das descargas motoras e controla o acesso  motilidade. Este ltimo poder, com efeito, 
 mais uma questo de forma do que de fato; no assunto da ao, a posio do ego  semelhante  de um monarca constitucional, sem cuja sano nenhuma lei pode ser 
aprovada, mas que hesita longo tempo antes de impor seu veto a qualquer medida apresentada pelo parlamento. Todas as experincias da vida que se originam do exterior 
enriquecem o ego; o id, contudo,  o seu segundo mundo externo, que ele se esfora por colocar em sujeio a si. Ele retira libido do id e transforma as catexias 
objetais deste em estruturas do ego. Com a ajuda do superego, de uma maneira que ainda nos  obscura, ele se vale das experincias de poca passadas armazenadas 
no id [ [1]e[2]]
         H dois caminhos pelos quais os contedos do id podem penetrar no ego. Um  direto, o outro por intermdio do ideal do ego; seja qual for destes dois o 
caminho tomado, pode ser de importncia decisiva para certas atividades mentais. O ego evolui da percepo para o controle dos instintos, da obedincia a eles para 
a inibio deles. Nesta realizao, grande parte  tomada pelo ideal do ego, que, em verdade, constitui parcialmente uma formao reativa contra os processos instintuais 
do id. A psicanlise  um instrumento que capacita o ego a conseguir uma progressiva conquista do id.
         De outro ponto de vista, contudo, vemos este mesmo ego como uma pobre criatura que deve servios a trs senhores e, conseqentemente,  ameaado por trs 
perigos: o mundo externo, a libido do id e a severidade do superego. Trs tipos de ansiedade correspondem a esses trs perigos, j que a ansiedade  a expresso 
de um afastar-se do perigo. Como criatura fronteiria, o ego tenta efetuar mediao entre o mundo e o id, tornar o id dcil ao mundo e, por meio de sua atividade 
muscular, fazer o mundo coincidir com os desejos do id. De fato, ele se comporta como o mdico durante um tratamento analtico: oferece-se, com a ateno que concede 
ao mundo real, como um objeto libidinal para o id, e visa a ligar a libido do id a si prprio. Ele no  apenas um auxiliar do id;  tambm um escravo submisso que 
corteja o amor de seu senhor. Sempre que possvel, tenta permanecer em bons termos com o id; veste as ordens Ics. do id com suas racionalizaes Pcs.; finge que 
o id est mostrando obedincia s admonies da realidade, mesmo quando, de fato, aquele permanece obstinado e inflexvel; disfara os conflitos do id com a realidade 
e, se possvel, tambm os seus conflitos com osuperego. Em sua posio a meio-caminho entre o id e a realidade, muito freqentemente se rende  tentao de tornar-se 
sicofanta, oportunista e mentiroso, tal como um poltico que percebe a verdade, mas deseja manter seu lugar no favor do povo.
         Para com as duas classes de instintos, a atitude do ego no  imparcial. Mediante seu trabalho de identificao e sublimao, ele ajuda os instintos de 
morte do id a obterem controle sobre a libido, mas, assim procedendo, corre o risco de tornar-se objeto dos instintos de morte e de ele prprio perecer. A fim de 
poder ajudar desta maneira, ele teve que acumular libido dentro de si; torna-se assim o representante de Eros e, doravante, quer viver e ser amado.
         Mas, j que o trabalho de sublimao do ego resulta numa desfuso dos instintos e numa liberao dos instintos agressivos no superego, sua luta contra a 
libido expe-no ao perigo de maus tratos e morte. Sofrendo sob os ataques do superego e talvez at mesmo a eles sucumbindo, o ego se defronta com uma sorte semelhante 
 dos protistas que so destrudos pelos produtos da decomposio que eles prprios criaram. Do ponto de vista econmico, a moralidade que funciona no superego parece 
ser um produto de decomposio semelhante.
         Entre os relacionamentos dependentes em que o ego se coloca, o que se d com o superego  talvez o mais interessante.
         O ego  a sede real da ansiedade. Ameaado por perigos oriundos de trs direes, ele desenvolve o reflexo de fuga retirando sua prpria catexia da percepo 
ameaadora ou do processo semelhantemente considerado no id, e emitindo-a como ansiedade. Essa reao primitiva  posteriormente substituda pela efetivao de catexias 
protetoras (o mecanismo das fobias). O que o ego teme do perigo externo e do libidinal no pode ser especificado; sabemos que o medo  de ser esmagado ou aniquilado, 
mas ele no pode ser analiticamente compreendido. O ego est simplesmente obedecendo aoaviso do princpio de prazer. Por outro lado, podemos dizer o que se acha 
escondido por trs do pavor que o ego tem do superego, o medo da conscincia. O ser superior, que se transformou no ideal do ego, outrora ameaara de castrao, 
e esse temor da castrao  provavelmente o ncleo em torno do qual o medo subseqente da conscincia se agrupou;  esse temor que persiste como medo da conscincia.
         A frase altissonante 'todo medo , em ltima anlise, o medo da morte' dificilmente tem qualquer significado, e, de qualquer maneira, no pode ser justificada. 
Parece-me, pelo contrrio, perfeitamente correto distinguir o medo da morte do temor de um objeto (ansiedade realstica) e da ansiedade libidinal neurtica. Apresenta-se 
um problema difcil para a psicanlise, pois a morte  um conceito abstrato com contedo negativo para o qual nenhum correlativo inconsciente pode ser encontrado. 
Pareceria que o mecanismo do medo da morte s pode ser o fato de o ego abandonar em grande parte sua catexia libidinal narcsica - isto , de ele se abandonar, tal 
como abandona algum objeto externo nos outros casos em que sente ansiedade. Creio que o medo da morte  algo que ocorre entre o ego e o superego.
         Sabemos que o medo da morte faz seu aparecimento sob duas condies (as quais, alm disso, so inteiramente anlogas a situaes em que outros tipos de 
ansiedade se desenvolvem), a saber, como reao a um perigo externo e como um processo interno (como, por exemplo, na melancolia). Mais uma vez uma manifestao 
neurtica pode ajudar-nos a compreender uma normal.
         O medo da morte na melancolia s admite uma explicao: que o prprio ego se abandona porque se sente odiado e perseguido pelo superego, ao invs de amado. 
Para o ego, portanto, viver significa o mesmo que ser amado - ser amado pelo superego, que aqui, mais uma vez, aparece como representante do id. O superego preenche 
a mesma funo de proteger e salvar que, em pocas anteriores, foi preenchida pelo pai e, posteriormente, pela Providncia ou Destino. Entretanto, quando o ego se 
encontra num perigo real excessivo, que se acredita incapaz de superar por suas prprias foras, v-se obrigado a tirar a mesma concluso. Ele se v desertado por 
todas as foras protetoras e se deixa morrer. Aqui est novamente a mesma situao que fundamenta o primeiro grande estadode ansiedade do nascimento  e a ansiedade 
infantil do desejo - a ansiedade devida  separao da me protetora.
         Estas consideraes tornam possvel encarar o medo da morte, tal qual o medo da conscincia, como um desenvolvimento do medo da castrao. A grande significao 
que o sentimento de culpa tem nas neuroses torna concebvel que a ansiedade neurtica comum seja reforada nos casos graves pela formao de ansiedade entre o ego 
e o superego (medo da castrao, da conscincia, da morte).
         O id, ao qual finalmente retornamos, no possui meios de demonstrar ao ego amor ou dio. Ele no pode dizer o que quer; no alcanou uma vontade unificada. 
Eros e o instinto de morte lutam dentro dele; vimos com que armas um grupo de instintos defende-se contra o outro. Seria possvel representar o id como se achando 
sob o domnio dos silenciosos mas poderosos instintos de morte, que desejam ficar em paz e (incitados pelo princpio de prazer) fazer repousar Eros, o promotor de 
desordens; mas talvez isso seja desvalorizar o papel desempenhado por Eros.
         
         
         
         
         APNDICE A: O INCONSCIENTE DESCRITIVO E O INCONSCIENTE DINMICO
         
         Uma particularidade curiosa surge de duas frases, ambas as quais aparecem na ([1]). A ateno do Editor Ingls foi para ela chamada numa comunicao particular 
do Dr. Ernest Jones, que com a mesma se deparara no decurso do exame da correspondncia de Freud.
         Em 28 de outubro de 1923, poucos meses aps este trabalho ter aparecido, Ferenczi escreveu a Freud nestes termos: '(...) No obstante, aventuro-me a fazer-lhe 
uma pergunta (...) visto haver uma passagem em O Ego e o Id que, sem a sua soluo, eu no entendo (...) Na [1] encontro o seguinte: "(...) que, no sentido descritivo, 
h dois tipos de inconsciente, mas no sentido dinmico apenas um." Desde que, contudo, o senhor escreve na [1] que o inconsciente latente  inconsciente apenas descritivamente, 
no no sentido dinmico, pensei ser exatamente a linha dinmica de abordagem que exigia a hiptese de haverem dois tipos de Ics., enquanto que a descrio toma conhecimento 
apenas do Cs. e do Ics.'
         A isto, respondeu Freud em 20 de outubro de 1923: '(...) A sua pergunta sobre a passagem na [1]  de O Ego e o Id positivamente me horrorizou. O que l aparece 
d um sentido diretamente oposto  [1] ,e, na frase da [1], "descritivo" e "dinmico" foram simplesmente transpostos.'
         Uma pequena considerao deste surpreendente assunto sugere, contudo, que a crtica de Ferenczi baseou-se numa m compreenso e que Freud foi apressado 
demais em aceit-la. As confuses que fundamentam as observaes de Ferenczi no so muito facilmente classificadas e torna-se inevitvel um argumento bastante prolongado. 
Porm, desde que outros alm de Ferenczi podem incidir no mesmo erro, parece valer a pena tentar esclarecer o assunto.
         Comearemos pela primeira metade da ltima frase de Freud: 'no sentido descritivo, h dois tipos de inconsciente.' O significado disso parece perfeitamente 
claro: o termo 'inconsciente', em seu sentido descritivo, abrange duas coisas: o inconsciente latente e o inconsciente reprimido. Freud, contudo, poderia te expressado 
a idia ainda mais claramente. Ao invs de 'doistipos de inconsciente [zweierlei Unbewusstes]', poderia ter dito, explicitamente, que, no sentido descritivo, h 
'dois tipos de coisas que so inconscientes'. E, de fato, Ferenczi evidentemente compreendeu mal as palavras: tomou-as como dizendo que a expresso 'descritivamente 
inconsciente' tinha dois significados diferentes. Isso, como corretamente percebeu, no poderia ser assim: o termo inconsciente, utilizado descritivamente, s poderia 
ter um significado - o de que a coisa a que se aplicava no era consciente. Na terminologia lgica, pensou que Freud estava falando da conotao do termo, enquanto 
que este estava realmente falando de sua denotao.
         Passemos agora  segunda metade da ltima frase de Freud: 'mas no sentido dinmico [h] apenas um [tipo de inconsciente]'. Ainda aqui o significado parece 
perfeitamente claro: o termo 'inconsciente', em seu sentido dinmico, abrange apenas uma coisa: o inconsciente reprimido. Isso, mais uma vez, constitui uma afirmao 
sobre a denotao do termo'; e ainda que tivesse sido sobre sua conotao, seria verdadeira - o termo 'inconsciente dinmico' s pode ter um significado. Ferenczi, 
contudo, contesta isso, alegando 'ser precisamente a linha dinmica de abordagem que exigia a hiptese de haverem dois tipos de Ics.'. Mais uma vez estava compreendendo 
mal Freud. Pensou que ele estivesse dizendo que, se considerarmos o termo 'inconsciente' com fatores dinmicos em mente vemos que ele possui apenas um significado 
- o que, naturalmente, teria sido o oposto de tudo o que Freud argumentava, enquanto que o que este queria dizer era que todas as coisas que so dinamicamente inconscientes 
(isto , reprimidas) incidem numa s classe - A posio fica um pouco mais confusa porque Ferenczi usa o smbolo 'Ics.' para significar 'inconsciente' no sentido 
descritivo - lapso que o prprio Freud comete, por implicao, na [1].
         Assim, essa ltima frase de Freud parece inteiramente imune  crtica em si prpria. Mas ser que ela , como Ferenczi sugere e como o prprio Freud parece 
concordar, incompatvel com a frase anterior? Essa frase fala do inconsciente latente como sendo 'inconsciente apenas descritivamente, no no sentido dinmico'. 
Ferenczi parece ter pensado que isso contradizia a afirmao posterior de que, 'no sentido descritivo, h dois tipos de inconsciente'. Mas as duas afirmaes no 
se contradizem: o fato de o inconsciente latente ser apenas descritivamente inconsciente no implica, de maneira alguma, que seja a nica coisa descritivamente inconsciente.
         Existe, em verdade, uma passagem na Conferncia XXXI das Novas Conferncias Introdutrias, de Freud, escrita cerca de dez anos mais tarde que o presente 
trabalho, em que a totalidade desse argumento  repetida em temos muito semelhantes. Nessa passagem, explica-se mais de uma vez que,no sentido descritivo, tanto 
o pr-consciente quanto o reprimido so inconscientes, mas que, no sentido dinmico, o termo se restringe ao reprimido.
         Deve-se indicar que esse intercmbio de cartas efetuou-se apenas alguns dias aps Freud ter sofrido uma operao extremamente sria. Ele ainda no se achava 
capaz de escrever (a sua resposta foi ditada) e provavelmente no se encontrava em condies de pesar completamente o argumento. Parece provvel que, refletindo, 
tenha compreendido que a descoberta de Ferenczi fora um engano, pois a passagem nunca foi alterada nas edies posteriores do livro.
         
         APNDICE B: O GRANDE RESERVATRIO DA LIBIDO
         
         H considervel dificuldade sobre este assunto, que  mencionado na nota de rodap na [1] e debatido em maior extenso na [1].
         A analogia parece ter sido seu primeiro aparecimento numa nova seo acrescentada  terceira edio dos Trs Ensaios (1905d), publicada em 1915, mas preparada 
por Freud no outono de 1914. A passagem diz o seguinte (Ed. Standard Bras., Vol. VII, pg. 224, IMAGO Editora, 1972):
         'Libido narcsica ou libido do ego parece ser o grande reservatrio de onde so enviadas as catexias do objeto e para onde so novamente recolhidas; a catexia 
libidinal narcsica do ego  o estado de coisas original, realizado na primeira infncia, sendo meramente abrangido pelas manifestaes posteriores da libido, persistindo 
todavia, atrs delas, em seus elementos essenciais.'
         A mesma noo, contudo, fora expressa anteriormente em outra analogia favorita de Freud, a qual aparece s vezes como alternativa e outras vezes lado a 
lado do 'grande reservatrio'. Essa passagem anterior encontra-se no artigo sobre o prprio narcisismo (1914c), escrito por Freud na primeira parte do mesmo ano 
de 1914 (Ed. Standard Bras., Vol. XIV, pgs. 91-92, IMAGO Editora, 1974): 'Assim, formamos a idia de que h uma catexia libidinal original do ego, parte da qual 
 posteriormente transmitida a objetos, mas que fundamentalmente persiste e est relacionada com as catexias objetais, assim como o corpo de uma ameba est relacionado 
com os pseudpodos que produz.'
         As duas analogias aparecem juntas num artigo semipopular escrito ao final de 1916 para um peridico hngaro ('A Difficulty in the Path of Psycho-Analysis', 
1917a, Standard Ed., 17, 139): 'O ego  um grande reservatrio, do qual flui a libido que se destina ao objetos e para o qual ela flui de volta desses objetos (...) 
Como ilustrao deste estado de coisas, podemos pensar numa ameba, cuja substncia viscosa emite pseudpodos (...)'A ameba aparece mais uma vez na Conferncia XXVI 
das Conferncias Introdutrias (1916-17), que datam de 1917, e o reservatrio em Beyond the Pleasure Principle (1920g), Standard Ed., 18, 51: 'A psicanlise (...) 
chegou  concluso de que o ego  o verdadeiro e original reservatrio da libido, e que somente desse reservatrio  que a libido se estende aos objetos.'
         Freud incluiu uma passagem muito semelhante num artigo de enciclopdia que redigiu no vero de 1922 (1923a, Standard Ed., 18, 257), e ento, quase imediatamente 
aps, veio o anncio do id, e o que se parece com uma correo drstica das afirmaes anteriores: 'Agora que fizemos distino entre o ego e id, temos de identificar 
este ltimo como o grande reservatrio de libido (...)' E ainda: 'Bem no incio, toda a libido est acumulada no id, enquanto que o ego ainda se acha em processo 
de formao ou ainda  fraco. O id envia parte desta libido para catexias objetais erticas; em conseqncia, o ego, agora tornado forte, tenta apoderar-se dessa 
libido do objeto e impor-se ao id como objeto amoroso. O narcisismo do ego , assim, um narcisismo secundrio, que foi retirado dos objetos.' ([1] e [2].)
         Esta nova posio parece claramente inteligvel, e, portanto,  um pouco perturbador depararmo-nos com a seguinte frase, escrita apenas um ano, pouco mais 
ou menos, aps O Ego e o Id, no Autobiographical Study (1925d [1924]), Standard Ed., 20, 56: 'Durante toda a vida do indivduo, seu ego permanece sendo o grande 
reservatrio de sua libido, do qual as catexias do objeto so enviadas e para o qual a libido pode correr novamente de volta dos objetos.'
         A frase,  verdade, ocorre no decurso de um esboo histrico do desenvolvimento da teoria psicanaltica, mas no h indicao da mudana de opinio anunciada 
em O Ego e o Id. E, finalmente, encontramos esta passagem num dos ltimos trabalhos de Freud, no Captulo II do Esboo de Psicanlise (1940a), escrito em 1938: ' 
difcil dizer algo do comportamento da libido no id e no superego. Tudo o que sabemos sobre ele relaciona-se com o ego, no qual, a princpio, toda a cota disponvel 
de libido  armazenada. Chamamos a este estado absoluto de narcisismo primrio. Ele perdura at o ego comear a catexizar as idias dos objetos com a libido, a transformar 
a libido narcsica em libido objetal. Durante toda a vida o ego permanece sendo o grande reservatrio, do qual as catexias libidinais so enviadas aos objetos e 
para a qual elas so tambm mais uma vez recolhidas, exatamente comouma ameba se conduz com os seus pseudpodos.' (Ed. Standard Bras., Vol. XXIII, pg. 176, IMAGO 
Editora, 1975.)
         Indicariam essas passagens posteriores que Freud retratou-se das opinies que expressou no presente trabalho? Parece difcil de acreditar, e h dois pontos 
que podem ajudar no sentido de uma reconciliao das opinies aparentemente conflitantes. O primeiro  muito pequeno. A analogia do 'reservatrio' , por sua prpria 
natureza, ambgua: um reservatrio pode ser encarado como um tanque de armazenamento de gua ou como uma fonte de suprimento de gua. No h grande dificuldade em 
aplicar a imagem em ambos os sentidos tanto ao ego quanto ao id, e teria certamente esclarecido as diversas passagens em que foi citada - em particular a nota de 
rodap da [1] - se Freud tivesse mostrado mais exatamente que representao se achava em sua mente.
         O segundo ponto  de importncia maior. Nas Novas Conferncias Introdutrias, apenas algumas pginas aps a passagem mencionada na nota de rodap acima, 
no decorrer de um estudo do masoquismo, Freud escreve: 'Se  verdade que o instinto destrutivo assim como o ego - mas o que temos aqui em mente  antes o id, a pessoa 
integral - inclui originalmente todos os impulsos instintuais (...)' A frase entre travesses aponta, naturalmente, para um estado primitivo de coisas, no qual o 
id e o ego ainda so indiferenciados. E h uma observao semelhante, mas mais definida, no Esboo, desta vez dois pargrafos antes da passagem j citada: 'Podemos 
imaginar um estado inicial como sendo o estado em que a energia total disponvel de Eros, a qual, doravante, mencionaremos como "libido", acha-se presente no ego-id 
ainda indiferenciado (...)' Se tomarmos isto como sendo a verdadeira essncia da teoria de Freud, a contradio aparente de sua expresso  diminuda. Este 'ego-id' 
foi originalmente o 'grande reservatrio da libido', no sentido de ser um tanque de armazenamento. Aps a diferenciao ter ocorrido, o id continuaria como tanque 
de armazenamento, mas, quando comeou a enviar catexias (quer para objetos quer para o ego agora diferenciado), ele seria, alm disso, uma fonte de suprimento. Mas 
o mesmo tambm seria verdadeiro quanto ao ego, pois este seria um tanque de armazenamento da libido narcsica bem como, segundo um dos pontos de vista, uma fonte 
de suprimento para as catexias objetais.
         Este ltimo ponto nos conduz, todavia, a uma nova questo, segundo a qual parece inevitvel supor que Freud sustentou opinies diferentes emocasies diferentes. 
Em O Ego e o Id ([1]), 'bem no incio, toda a libido est acumulada no id'; depois, 'o id envia parte desta libido para catexias objetais erticas', as quais o ego 
tenta controlar impondo-se ao id como objeto amoroso: 'o narcisismo do ego, assim,  um narcisismo secundrio'. No Esboo, porm, 'a princpio, toda a cota disponvel 
de libido  armazenada no ego', 'chamamos a este estado absoluto de narcisismo primrio', e 'ele perdura at o ego comear a catexizar as idias dos objetos com 
a libido'. Dois processos diferentes parecem ser considerados nestas duas descries. No primeiro, imagina-se as catexias objetais originais como saindo diretamente 
do id e s chegando ao ego indiretamente; no segundo, a totalidade da libido  imaginada como indo do id para o ego e s chegando aos objetos indiretamente. Os dois 
processos no parecem incompatveis e  possvel que ambos possam ocorrer; sobre esta questo, contudo, Freud silencia.
         













UMA NEUROSE DEMONACA DO SCULO XVII (1923 [1922])
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         EINE TEUFELSNEUROSE IM SIEBZEHNTEN JAHRHUNDERT
         (a) EDIES ALEMS:
         1923 Imago, 9, (1), 1-34
         1924 G. S., 10, 404-45.
         1924 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 43 pgs.
         1928 Edio limitada dos 'Bibliophiles', com 7 gravuras. Mesmos editores, 81 pgs.
         1940 G. W., 13, 317-53.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         
         'A Neurosis of Demoniacal Possession in the Seventeenth Century'
         
         1925 C.P., 4, 436-72. (Trad. de E. Glover.)
         
         A presente traduo inglesa, sob novo ttulo,  verso consideravelmente modificada da publicada em 1925. A edio dos 'Biblifilos' foi produzida para 
o Congresso dos Biblifilos Alemes de 1928, em Viena. Continha reprodues em preto e branco de trs das pinturas (representando a primeira, a segunda e a quinta 
apario do Demnio) e de quatro flios do manuscrito.
         
         Este trabalho foi escrito nos ltimos meses de 1922 (Jones, 1957, 105). O prprio Freud explica suficientemente sua origem no comeo da Seo I ([1]). O 
interesse dele pela feitiaria, possesses e fenmenos afins j vinha de longa data. Parece possvel que tenha sido estimulado por seus estudos na Salptrire em 
1885-6. O prprio Charcot concedera muita ateno aos aspectos histricos da neurose, fato mencionado em mais de um ponto do 'Relatrio' de Freud sobre sua visita 
a Paris (1956a [1886]). H uma descrio de um caso de possesso no sculo XVI no incio da Conferncia XVI da primeira srie de conferncias de Charcot traduzidas 
por Freud (1886f) e um debate sobre a natureza histrica das 'demoniomanias' medievais na stima das Leons du mardi, na segunda srie de tradues de Freud (1892-94). 
Alm disso, em seu necrolgio de Charcot (1893f), concedeu ele nfase especial a esse aspecto da obra de seu mestre.Duas cartas a Fliess, de 17 a 24 de janeiro de 
1897 (Freud, 1950a, Cartas 56 e 57), que tratam de feiticeiras e de sua relao com o Demnio, demonstram que esse interesse no diminura de fato, na primeira delas 
fala como se o assunto fosse debatido com freqncia entre ele e Fliess. J h uma sugesto de que o Demnio possa ser uma figura paterna, e Freud insiste particularmente 
no papel desempenhado pelo material anal nas crenas medievais sobre feiticeiras. Ambos os temas reaparecem numa breve aluso ao assunto no artigo sobre 'Character 
and Anal Erotism' (1908b), Standard Ed., 9, 174. Informa-nos Jones (1957, 378) que em 27 de janeiro de 1909 Hugo Heller, livreiro e editor vienense, leu para a Sociedade 
Psicanaltica de Viena, da qual era membro, um trabalho sobre 'A Histria do Demnio'. As minutas da Sociedade, infelizmente, no foram postas  nossa disposio, 
mas, segundo Jones, Freud falou demoradamente sobre a composio psicolgica da crena no Demnio, evidentemente, em grande parte, segundo as mesmas linhas da Seo 
III do presente artigo. Tambm nessa seo, Freud passa da discusso de um caso individual e do limitado problema demonolgico para a considerao de algumas das 
questes mais amplas envolvidas na adoo, por parte de indivduos do sexo masculino, de uma atitude feminina para com o pai. E aqui ele levanta a histria do Dr. 
Schreber como paralelo, ainda que em parte alguma classifique o presente caso como sendo de parania.
         Um suntuoso volume apareceu recentemente, sob o ttulo de Schizophrenia 1677 (Londres, 1956, Dawson), da autoria da Dra. Ida Macalpine e do Dr. R. A. Hunter. 
Inclui um fac-smile do manuscrito da 'Relquia de Mariazell' e reprodues coloridas das nove pinturas a ele ligadas. Um exame dessas pinturas tornou possvel efetuar 
uma ou duas adies e correes  descrio, feita por Freud, do manuscrito, que sem dvida se baseava inteiramente na transcrio e relatrio do Dr. Payer-Thurn, 
ver ([1]). Deve-se acrescentar que os extensos comentrios da Dra. Macalpine e do Dr. Hunter dirigem-se em grande parte  crtica das conceituaes de Freud sobre 
o caso; infelizmente, foi impossvel adotar sua traduo das muitas passagens do manuscrito citadas por Freud, visto que em dois ou trs pontos importantes a sua 
verso do original discorda da de Freud. Mais recentemente, o Dr. G. Vandendriessche descobriu uma quantidade de material histrico - desconhecido para Freud - referente 
a Christoph Haizmann, incluindo novas transcries de partes do Trophaeum, as quais o capacitaram a efetuarcorrees no texto do manuscrito de Viena e a reconstruir 
suas partes danificadas. Seus achados esto incorporados, com detalhes, em um exame crtico do artigo de Freud (The Parapraxis in the Haizmann Case of Sigmund Freud, 
Louvain e Paris, 1965).
         No se tentou, na presente traduo inglesa, imitar o estilo do alemo do sculo XVII do manuscrito.
         
         UMA NEUROSE DEMONACA DO SCULO XVII  [INTRODUO]
         
         As neuroses da infncia ensinaram-nos que nelas pode ser percebida facilmente a olho nu uma srie de coisas que, em idade posterior, s se pode descobrir 
aps investigao exaustiva. Podemos esperar que isso mesmo seja verdade quanto s doenas neurticas em sculos anteriores, desde que estejamos preparados para 
reconhec-las sob outros nomes que no os de nossas neuroses atuais. No precisamos ficar surpresos em descobrir que, ao passo que as neuroses de nossos pouco psicolgicos 
dias de hoje assumem um aspecto hipocondraco e aparecem disfaradas como enfermidades orgnicas, as neuroses daqueles antigos tempos surgem em trajes demonacos. 
Diversos autores, e dentre eles Charcot  o principal, identificaram, como sabemos, manifestaes de histeria nos retratos de possesso e xtase que nos foram preservados 
nas produes artsticas. Se se tivesse concedido maior ateno s histrias de tais casos na poca, no teria sido difcil retraar neles o tema geral de uma neurose.
         A teoria demonolgica daquelas pocas sombrias levou a melhor, ao final, sobre todas as vises somticas do perodo da cincia 'exata'. Os estados de possesso 
correspondem s nossas neuroses, para cuja explicao mais uma vez recorremos aos poderes psquicos. A nossos olhos, os demnios so desejos maus e repreensveis, 
derivados de impulsos instintuais que foram repudiados e reprimidos. Ns simplesmente eliminamos a projeo dessas entidades mentais para o mundo externo, projeo 
esta que a Idade Mdia fazia; em vez disso, encaramo-las como tendo surgido na vida interna do paciente, onde tm sua morada.
         
         I - A HISTRIA DE CHRISTOPH HAIZMANN, O PINTOR
         
         Estou em dbito para com o interesse amistoso do Hofrat* Dr. Payer-Thurn, diretor da antiga Fideikommissbibliothek  Imperial de Viena, pela oportunidade 
de estudar uma neurose demonaca do sculo XVII deste tipo. Payer-Thurn descobriu nessa biblioteca um manuscrito originrio do santurio de Mariazell   e no qual 
havia uma descrio pormenorizada da redeno miraculosa de um pacto com o Demnio, mediante a graa da Santa Virgem Maria. Seu interesse foi despertado pela semelhana 
dessa histria com a lenda de Fausto, e levou-o a empreender a exaustiva publicao e coordenao do material. Descobrindo, contudo, que a pessoa cuja redeno era 
descrita estivera sujeita a crises convulsivas e vises, procurou-me em busca de uma opinio mdica sobre o caso. Chegamos a um acordo em publicar nossas investigaes 
de modo independente e separado. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer-lhe por sua sugesto original e pelas muitas maneiras por que me auxiliou 
no estudo do manuscrito.
         Esse caso clnico de demonologia conduz a achados realmente valiosos, que podem ser trazidos  luz sem muita interpretao - aproximadamente como s vezes 
se d com um veio de metal puro, o qual, em outros lugares, tem de ser laboriosamente extrado do minrio.
         O manuscrito, do qual uma cpia exata est  minha frente, divide-se em duas sees inteiramente distintas. Uma delas  um relatrio, escrito em latim, 
da autoria de um escriba ou compilador monstico; a outra  um fragmento do dirio do paciente, escrito em alemo. A primeira seo contm um prefcio e uma descrio 
da cura miraculosa real. A segunda dificilmente fora de significao para os reverendos padres, mas tanto maior  seu valor para ns. Ela serve, em grande parte, 
para confirmar nosso julgamento do caso, que de outra maneira teria sido hesitante, e temos boas razes para sermos gratos ao clero pela preservao do documento, 
embora ele nada acrescentasse em apoio do teor de suas opinies; antes, pode mesmo hav-lo enfraquecido.
         Antes, porm, de ir adiante na composio desta pequena brochura manuscrita, que traz o ttulo de Trophaeum Mariano-Cellense, devo relatar uma parte de 
seu contedo, que extraio do prefcio.
         Em 5 de setembro de 1677, o pintor Christoph Haizmann, bvaro, foi trazido a Mariazell, com uma carta de apresentao do proco da aldeia de Pottenbrunn 
(na ustria inferior), no muito longe dali. A carta declara que o homem estivera morando em Pottenbrunn durante alguns meses, exercendo sua ocupao de pintor. 
Em 29 de agosto, enquanto se encontrava na igreja da aldeia, fora tomado por convulses assustadoras. Como as convulses tornaram a apresentar-se durante os dias 
seguintes, fora examinado pelo Praefectus Dominii Pottenbrunnensis, com vistas a descobrir o que o oprimia e se ele no havia assumido intercmbio ilcito com o 
Esprito Mau. A seguir, o homem havia admitido que, nove anos antes, encontrando-se em estado de desalento quanto  sua arte e duvidoso sobre a possibilidade de 
se sustentar, entregara-se ao Demnio, que o havia tentado nove vezes, e dera-lhe seu compromisso por escrito de pertencer-lhe em corpo e alma aps um perodo de 
nove anos. Esse perodo expiraria no 24 dia do ms corrente. A carta prosseguia dizendo que o infeliz se havia arrependido e estava convencido de que s a graa 
da Me de Deus em Mariazell poderia salv-lo, obrigando o Maligno a liber-lo do compromisso, escrito com sangue. Por essa razo, o padre da aldeia aventurara-se 
a recomendar miserum hunc hominem omni auxilio destitutum   benevolncia dos padres de Mariazell.
         Aqui termina a narrativa de Leopoldus Braun, o padre da aldeia de Pottenbrunn, datada de 1 de setembro de 1677.Podemos agora prosseguir com a anlise do 
manuscrito. Ele consiste em trs partes:
         (1) Uma pgina de rosto colorida, representando a cena da assinatura do pacto e a cena da redeno, na capela de Mariazell. Na folha seguinte  encontram-se 
oito quadros, tambm coloridos, representando as aparies subseqentes do Demnio, com uma breve legenda em alemo referida a cada um deles. Esses quadros no so 
os originais; trata-se de cpias - cpias fiis, asseguram-nos solenemente - das pinturas originais de Christoph Haizmann.
         (2) O Trophaeum Mariano-Cellense real (em latim), trabalho de um compilador clerical que se assina 'P.A.E.' ao p da pgina, e apensa a estas iniciais quatro 
linhas de versos contendo sua biografia. O Trophaeum termina com um depoimento do Abade Kilian de So Lamberto, datado de 9 [Assim est no manuscrito. Erroneamente 
indicado por Freud como '12 de setembro', conforme aponta Vandendriessche (1965).] de setembro de 1729, em caligrafia diferente da do compilador. Ele testifica a 
correspondncia exata do manuscrito e dos quadros com os originais preservados nos arquivos. No h meno do ano em que o Trophaeum foi compilado. Ficamos livres 
para presumir que a compilao se fez no mesmo ano em que o Abade Kilian apresentou seu depoimento - isto , em 1729; ou, de vez que a ltima data mencionada no 
texto  1714, podemos localizar o trabalho do compilador entre os anos de 1714 e 1729. O milagre que deveria ser preservado do olvido por meio desse manuscrito, 
ocorrera em 1677 - o que equivale a dizer: de 37 a 52 anos mais cedo.
         (3) O dirio do pintor, escrito em alemo e abrangendo o perodo de sua redeno na capela at 13 de janeiro do ano seguinte, 1678. Est inserido no texto 
do Trophaeum, junto ao final.
         O cerne do Trophaeum real consiste em dois documentos: a carta de apresentao, acima mencionada [[1]], do proco da aldeia, LeopoldBraun, de Pottenbrunn, 
datada de 1 de setembro de 1677, e o relatrio do Abade Franciscus de Mariazell e So Lamberto, descrevendo a cura miraculosa, datado de 12 de setembro de 1677, 
isto , de apenas alguns dias mais tarde. A atividade do editor ou compilador, F.A.E., forneceu um prefcio que, por assim dizer, funde o contedo desses dois documentos; 
acrescentou tambm algumas passagens de vinculao de pequena importncia, e, ao final, um relato das vicissitudes subseqentes do pintor, baseado em indagaes 
feitas no ano de 1714.
         A histria anterior do pintor  assim contada trs vezes no Trophaeum: (1) na carta de apresentao do proco da aldeia de Pottenbrunn; (2) no relatrio 
formal de autoria do Abade Franciscus; e (3) no prefcio do editor. Uma comparao dessas trs fontes revela certas discrepncias que no nos ser sem importncia 
acompanhar.
         Posso prosseguir agora com a histria do pintor. Aps ter passado por um prolongado perodo de penitncia e orao em Mariazell, o Demnio apareceu-lhe 
na sagrada capela  meia-noite de 8 de setembro, dia da Natividade da Virgem, sob a forma de um drago alado, e devolveu-lhe o compromisso, que estava escrito com 
sangue. Aprenderemos mais tarde, para nossa surpresa, que dois compromissos com o Demnio aparecem na histria de Christoph Haizmann - um anterior, escrito em tinta 
preta, e um posterior, redigido com sangue. O mencionado na descrio da cena de exorcismo, como se pode ver no quadro da pgina de rosto,  o escrito com sangue 
- isto , o posterior.
         A essa altura, uma dvida quanto  credibilidade dos relatores clericais bem pode despertar em nossas mentes e avisar-nos para no desperdiar nosso trabalho 
com um produto da superstio monstica. -nos dito que diversos clrigos, mencionados pelo nome, assistiram ao exorcismo e estavam presentes na capela quando o 
Diabo apareceu. Se tivesse sido afirmado que tambm eles viram o Demnio aparecer sob a forma de drago e oferecer ao pintor o documento redigido em vermelho (Schedam 
sibi porrigentem conspexisset), depararamos com diversas possibilidades desagradveis, dentre elas a de uma alucinao coletiva seria a mais branda. Mas o testemunho 
do Abade Franciscus dissipa essa dvida. Longe de asseverar que os clrigos assistentes tambm viram o Diabo, declara apenas, em palavrasfrancas e sbrias, que o 
pintor subitamente se desvencilhou dos padres que o seguravam, correu para o canto da capela onde vira a apario, e depois retornou com o documento na mo.
         O milagre era grande, e a vitria da Santa Me sobre Sat, indiscutvel; infelizmente, porm, a cura no foi duradoura. Mais uma vez conta em favor do clero 
no terem eles ocultado isso. Aps curto tempo, o pintor deixou Mariazell com a melhor sade e foi para Viena, onde residiu com uma irm casada. Em 11 de outubro, 
comearam novas crises, algumas delas muito graves, as quais foram relatadas no dirio at 13 de janeiro [de 1678]. Consistiam em vises e 'absences', nas quais 
via e experimentava todo tipo de coisas, em acessos convulsivos acompanhados das sensaes mais penosas; em certa ocasio, com paralisia das pernas, e assim por 
diante. Desta vez, porm, no era o Demnio que o atormentava, mas por figuras sagradas  que era afligido - por Cristo e pela prpria Santa Virgem.  digno de nota 
que ele no sofresse menos por essas manifestaes celestiais e pelos castigos que lhe infligiam, do que anteriormente sofrera por seu intercmbio com o Demnio. 
Em seu dirio, em verdade, incluiu essas novas experincias tambm como manifestaes do Diabo, e quando, em maio de 1678, retornou a Mariazell, queixou-se de maligni 
Spirits manifestationes ['manifestaes do Esprito Mau'].
         Contou aos reverendos padres que sua razo para retornar era ter de solicitar ao Demnio devolver-lhe outro compromisso anterior, que fora escrito a tinta. 
Ainda desta vez a Santa Virgem e os piedosos padres ajudaram-no a conseguir o atendimento de seu pedido. Quanto  maneira por que isso aconteceu, no entanto, o relatrio 
silencia. Ele simplesmente declara de modo sucinto: qu iuxta votum reddit ['quando este foi devolvido de acordo com sua prece'] - ele orou de novo e recebeu de 
volta o pacto. Passado isso, sentiu-se inteiramente livre e ingressou na Ordem dos Irmos Hospitalrios.Mais uma vez temos ocasio de reconhecer que, apesar do intuito 
bvio de seus esforos, o compilador no foi tentado a apartar-se da veracidade exigida de um caso clnico, pois no esconde o resultado da indagao que em 1714 
foi feita pelo Superior do Mosteiro dos Irmos Hospitalrios [em Viena], com referncia  histria posterior do pintor. O reverendo Pater Provincialis comunicou 
que o Irmo Crisstomo havia sido repetidamente tentado pelo Esprito Mau, que tentara seduzi-lo a fazer um novo pacto (embora isso s acontecesse 'quando ele bebera 
vinho um pouco em demasia'). Mas, pela graa de Deus, sempre fora possvel repelir essas tentativas. O Irmo Crisstomo morrera de febre hctica, 'pacificamente 
e bem confortado', no ano de 1700, no Mosteiro da Ordem, em Neustatt sobre a Moldvia.
         
         II - O MOTIVO PARA O PACTO COM O DEMNIO
         
         Se examinarmos esse compromisso com o Demnio como se fosse o caso clnico de um neurtico, nosso interesse se voltar, em primeira instncia, para a questo 
de sua motivao, que, naturalmente, est intimamente vinculada  sua causa excitante. Por que algum assina um compromisso com o Demnio? Fausto,  verdade, indagou 
desdenhosamente: 'Was willst du armer Teufel geben?' ['O que tens a dar, pobre Diabo?'] Mas ele estava errado. Em troca de uma alma imortal, o Demnio tem muitas 
coisas a oferecer, que so altamente prezadas pelos homens: riqueza, segurana quanto ao perigo, poder sobre a humanidade e as foras da natureza, at mesmo artes 
mgicas, e, acima de tudo o mais, o gozo - o gozo de mulheres belas. Esses servios desempenhados ou empreendimentos efetuados pelo Demnio so geralmente mencionados 
de modo especfico no acordo que com ele  feito. Qual, ento, foi o motivo que induziu Christoph Haizmann a fazer seu pacto?
         De modo bastante curioso, no foi nenhum desses desejos muito naturais. Para deixar o assunto alm de qualquer dvida, h apenas que ler as breves observaes 
apostas pelo pintor s suas ilustraes das aparies do Demnio. Por exemplo, a legenda da terceira viso diz: 'Na terceira ocasio dentro de um ano e meio, ele 
me apareceu sob essa forma abominvel, em sua mo um livro que estava cheio de magia e artes negras...'  Mas, da legenda aposta a uma apario posterior, ficamos 
sabendo que o Diabocensurou-o violentamente por haver 'queimado seu livro anteriormente mencionado', e ameaou despeda-lo se no o devolvesse.
         Em sua quarta apario, o Demnio mostrou-lhe um grande saco amarelo de dinheiro e um grande ducado, e prometeu dar-lhe tantos deles quantos ele quisesse, 
em qualquer ocasio. Mas o pintor pode gabar-se de que 'nada aceitou dessa espcie'.
         Noutra ocasio, o Demnio pediu-lhe para voltar-se para o gozo e a diverso, mas o pintor observa que 'isso, em verdade, veio a ocorrer por seu desejo, 
mas eu no continuei por mais que trs dias e logo aps fui novamente liberado'.
         Visto ter rejeitado as artes mgicas, o dinheiro e os prazeres quando lhe foram oferecidos pelo Demnio, e tampouco os tornados condies do pacto, fica 
realmente imperativo saber o que o pintor de fato queria do Diabo, quando assinou um compromisso com ele. Algum motivo ele deve ter tido para seus tratos com o Demnio.
         Tambm sobre esse ponto o Trophaeum nos proporciona informaes fidedignas. Ele ficara abatido, era incapaz ou no tinha disposio de trabalhar adequadamente, 
e estava preocupado sobre como ganhar a vida; isso equivale a dizer que sofria de depresso melanclica, com uma inibio em seu trabalho e temores (justificados) 
quanto ao seu futuro. Podemos ver que estamos tratando realmente com um caso clnico. Ficamos sabendo tambm a causa excitante da doena, que o prprio pintor, na 
legenda a um de seus retratos do Diabo, chama realmente de melancolia ('que eu procurasse diverso e banisse a melancolia'). A primeira de nossas trs fontes de 
informao, a carta de apresentao do proco da aldeia, fala,  verdade, apenas no estado de depresso ('dum artis suae progressum emolumentumque secuturum pusillaminis 
perpenderet'), mas a segunda fonte, o relatrio do Abade Franciscus, conta-nos tambm a causa desse desalento ou depresso. Diz ele: 'accept aliqu pusillanimitate 
ex morte parentis', e no prefciodo compilador so usadas as mesmas palavras, embora em ordem inversa: ('ex morte parentis accept aliqu pusillanimitate'). Seu 
pai, portanto, falecera, e, em conseqncia, ele havia cado em um estado de melancolia, aps o que o Demnio se aproximara dele e lhe perguntara por que estava 
to abatido e triste, e prometera 'auxili-lo de todas as maneiras e dar-lhe apoio'.
         Temos aqui, portanto, uma pessoa que assinou um compromisso com o Diabo, a fim de ser libertado de um estado de depresso. Um motivo excelente, indubitavelmente, 
como concordar quem quer que possa ter um senso compreensivo dos tormentos de tal estado e que saiba bem quo pouco os remdios podem fazer para aliviar essa enfermidade. 
Entretanto, ningum que tenha acompanhado a histria at aqui seria capaz de adivinhar qual foi realmente o fraseado desse compromisso (ou melhor, desses dois compromissos) 
com o Demnio.
         Esses compromissos nos trazem duas grandes surpresas. Em primeiro lugar, no mencionam nenhuma promessa feita pelo Demnio, em troca de cuja efetivao 
o pintor comprometa a sua felicidade eterna, mas apenas uma exigncia efetuada pelo Diabo, que o pintor deve satisfazer. Impressiona-nos como inteiramente ilgico 
e absurdo que esse homem deva entregar sua alma, no por algo que deva conseguir do Demnio, mas por algo que tem de fazer para este. A promessa feita pelo pintor, 
porm, parece ainda mais estranha.
         O primeiro 'syngrapha' [compromisso], redigido a tinta, diz o seguinte: 'Ich Christoph Haizmann vndterschreibe mich disen Herrn sein leibeigener Sohn auff 
9. Jahr. 1669 Jahr.'  O segundo, escrito com sangue, diz:
                 'Anno 1669.
         'Christoph Haizmann. Ich verschreibe mich disen Satan ich sein leibeigner Sohn zu sein, und in 9. Jahr ihm mein Lieb und Seel zuzugeheren.' Todo o nosso 
espanto se desfaz, contudo, se lermos o texto dos compromissos no sentido de que aquilo que  representado neles como uma exigncia feita pelo Demnio, , pelo contrrio, 
um servio por ele desempenhado - quer dizer, trata-se de um pedido feito pelo pintor. O pacto incompreensvel teria, nesse caso, um significado direto e poderia 
ser assim parafraseado: o Demnio compromete-se a substituir o pai perdido pelo pintor durante nove anos. Ao final desse tempo, o pintor se torna propriedade, em 
corpo e alma, do Demnio, como era o costume usual em tais barganhas. A seqncia de pensamento que motivou o pintor a fazer o pacto parece ter sido esta: a morte 
do pai o fizera perder sua disposio de nimo e capacidade de trabalhar; se pudesse conseguir um substituto paterno, poderia esperar reconquistar o que perdera.
         Um homem que caiu em melancolia por causa da morte do pai deve realmente ter gostado muito dele. Se assim foi, no entanto,  muito estranho que esse homem 
tenha tido a idia de aceitar o Demnio como substituto do pai que amara.
         
         
         III - O DEMNIO COMO SUBSTITUTO PATERNO
         
         Temo que os crticos sbrios no estaro preparados para admitir que essa nova interpretao tenha esclarecido o significado desse pacto com o Demnio. 
Tero duas objees a fazer-lhe.
         Em primeiro lugar, diro que no  necessrio encarar o pacto como um contrato em que os compromissos de ambas as partes foram estabelecidos. Pelo contrrio, 
argumentaro, ele contm apenas a promessa do pintor; a do Diabo  omitida do texto, sendo, por assim dizer, sousentendue: o pintor faz duas promessas - primeiro, 
ser o filho do Demnio durante nove anos, e, segundo, pertencer-lhe inteiramente aps a morte. Assim, uma das premissas em que nossa concluso se funda, seria dispensada.
         A segunda objeo ser a de no termos justificativa para ligar qualquer importncia especial  expresso 'filho obrigado do Demnio'; que ela no  mais 
que uma figura comum de retrica, que qualquer um poderia interpretar da mesma maneira como os reverendos Padres podem ter feito, pois, em sua traduo latina, eles 
no mencionam o relacionamento filial prometido nos compromissos, mas simplesmente dizem que o pintor 'mancipavit' a si prprio - tornava-se mancpio - ao Maligno 
e empreendia levar uma vida pecaminosa e negar Deus e a Santssima Trindade. Por que afastarmo-nos dessa viso bvia e natural do assunto? A posio seria simplesmente 
a de um homem que, no tormento e perplexidade de uma depresso melanclica, assina um compromisso com o Demnio, a quem atribui o maior poder teraputico. Que a 
depresso fosse ocasionada pela morte do pai seria ento irrelevante; a ocasio poderia to bem ter sido outra qualquer.
         Tudo isso soa convincente e razovel. A psicanlise mais uma vez tem de enfrentar a censura de fazer complicaes bizantinas das coisas mais simples e de 
ver mistrios e problemas onde nenhum deles existe, e que assim procede por dar nfase indevida a pormenores insignificantes e irrelevantes, tais como ocorrem em 
todas as partes, e transform-los na base das mais estranhas e exageradas concluses. Seria intilapontarmos que essa rejeio de nossa interpretao negaria muitas 
notveis analogias e romperia certo nmero de sutis conexes que pudemos demonstrar nesse caso. Nossos opositores diro que essas analogias e conexes no existem 
de fato, mas que as trouxemos para o caso com engenhosidade totalmente dispensvel.
         No prefaciarei minha resposta com as palavras 'para ser honesto' ou 'para ser sincero', porque ser um ou outro  sempre uma necessidade que dispensa quaisquer 
preliminares especiais. Em vez disso, simplesmente direi saber muito bem que nenhum leitor que j no acredite na justificabilidade do modo de pensamento psicanaltico 
adquirir essa crena com o caso do pintor do sculo XVII, Christoph Haizmann. Tampouco  minha inteno usar esse caso como prova da validade da psicanlise. Pelo 
contrrio, pressuponho sua validade e estou empregando-a para lanar luz sobre a molstia demonaca do pintor. Minha justificao para assim proceder reside no sucesso 
de nossas investigaes da natureza das neuroses em geral. Podemos dizer, com toda a modstia, que hoje mesmo os mais obtusos de nossos colegas e contemporneos 
esto comeando a entender que nenhuma compreenso dos estados neurticos pode ser alcanada sem o auxlio da psicanlise.
         'Estas lanas podem conquistar Tria, estas lanas sozinhas'
         como confessa Odisseu, no Filocteto, de Sfocles.
         Se estamos com a razo em considerar o compromisso de nosso pintor com o Demnio como uma fantasia neurtica, no h necessidade de novas escusas para consider-la 
psicanaliticamente. Mesmo pequenas indicaes possuem significado e importncia, e muito especialmente quando se acham relacionadas s condies em que uma neurose 
se origina. Com efeito,  to possvel supervaloriz-las quanto subvaloriz-las, sendo questo de julgamento saber at onde se pode ir no explor-las. Mas a todo 
aquele que no acredite na psicanlise - ou, a propsito, nem mesmo no Diabo - deve-se deixar que faa o que puder do caso do pintor, seja ele capaz de fornecer 
uma explicao prpria, seja que nada veja ali que necessite de explicao.
         Retornemos portanto  nossa hiptese de que o Demnio, com quem o pintor assinou o compromisso, era um substituto direto de seu pai. E isso  confirmado 
pela forma sob a qual o Diabo pela primeira vez lhe apareceu - como um honesto cidado de idade, de barbas castanhas, vestido com uma capa vermelha e apoiando-se 
com a mo direita numa bengala,com um co negro ao lado (cf. a primeira ilustrao). Posteriormente, sua aparncia torna-se cada vez mais terrificante - mais mitolgica, 
dir-se-ia. Est aparelhado com chifres, garras de gua e asas de morcego. Teremos de retornar mais tarde a um pormenor especfico de sua forma corporal.
         De fato, soa estranho que o Diabo seja escolhido como substituto para um amado pai. Porm, s  primeira vista, pois sabemos de muitas coisas que iro abrandar 
nossa surpresa. Para comear, sabemos que Deus  um substituto paterno, ou, mais corretamente, que ele  um pai exalado, ou, ainda, que constitui a cpia de um 
pai tal como este  visto e experimentado na infncia - pelos indivduos em sua prpria infncia, e pela humanidade em sua pr-histria, como pai da horda primitiva 
e primeva. Posteriormente na vida, o indivduo v seu pai como algo diferente e menor. Porm, a imagem ideativa que pertence  infncia  preservada e se funde com 
os traos da memria herdados do pai primevo para formar a idia que o indivduo tem de Deus. Sabemos tambm, da vida secreta do indivduo revelada pela anlise, 
que sua relao com o pai foi talvez ambivalente desde o incio, ou, pelo menos, cedo veio a ser assim. Isso equivale a dizer que ela continha dois conjuntos de 
impulsos emocionais que se opunham mutuamente; continha no apenas impulsos de natureza afetuosa e submissa, mas tambm impulsos hostis e desafiadores.  nossa opinio 
que a mesma ambivalncia dirige as relaes da humanidade com sua Divindade. O problema no solucionado entre o anseio pelo pai, por um lado, e, por outro, o medo 
dele e o seu desafio pelo filho, nos proporcionou uma explicao de importantes caractersticas da religio e de decisivas vicissitudes nela.
         Com respeito ao Demnio Maligno, sabemos que ele  considerado como a anttese de Deus, e, contudo, est muito prximo dele em sua natureza. Sua histria 
no foi bem estudada como a de Deus; nem todas as religies adotaram o Esprito Maligno, o oponente de Deus, e seu prottipo na vida do indivduo at o presente 
permaneceu obscuro. Uma coisa, porm,  certa: os deuses podem transformar-se em demnios maus quando novos deuses os expulsam. Quando determinado povo foi conquistado 
por outro, seus deuses cados no raramente se transformam em demnios aos olhos dos conquistadores. O demnio mau da f crist - o diabo da Idade Mdia - foi, de 
acordo com a mitologia crist, ele prprio um anjo cado e de natureza semelhante a Deus. No  preciso muitaperspiccia para adivinhar que Deus e o Demnio eram 
originalmente idnticos - uma figura nica posteriormente cindida em duas figuras com atributos opostos. Nas pocas primitivas da religio o prprio Deus ainda possua 
todos os aspectos terrificantes que mais tarde se combinaram para formar uma contraparte dele.
         Temos aqui um exemplo do processo, com que estamos familiarizados, pelo qual uma idia que possui um contedo contraditrio - ambivalente -, se divide em 
dois opostos nitidamente contrastados. As contradies da natureza original de Deus, contudo, constituem um reflexo da ambivalncia que governa a atitude do indivduo 
com seu pai pessoal. Se o Deus benevolente e justo  um substituto do pai, no  de admirar que tambm sua atitude hostil para com o pai, que  uma atitude de odi-lo, 
tem-lo e fazer queixas contra ele, ganhe expresso na criao de Sat. Assim, o pai, segundo parece,  o prottipo individual tanto de Deus quanto do Demnio. Mas 
deveramos esperar que as religies portassem marcas indelveis do fato de que o primitivo pai primevo era um ser de maldade ilimitada - um ser mais semelhante ao 
Demnio do que a Deus.
          verdade que de modo algum  fcil demonstrar os traos dessa viso satnica do pai na vida mental do indivduo. Quando um menino desenha rostos grotescos 
e caricaturas, podemos francamente demonstrar que neles est escarnecendo de seu pai, e quando uma pessoa de qualquer sexo tem medo de ladres e arrombadores  noite, 
no  difcil identific-los como partes expelidas (split-off) do pai. Tambm os animais que aparecem nas fobias animais das crianas so muito amide substitutos 
paternos, como o foram os animais totmicos das pocas primevas. Que o Demnio, porm, seja uma duplicata do pai e possa agir como substituto dele, no fora demonstrado 
to claramente noutra parte como na neurose demonaca desse pintor do sculo XVII. Foi por isso que, no incio deste artigo [[1]], predisse que um caso clnico de 
demonologia desse tipo produziria, sob a forma de metal puro, um material que nas neuroses de uma poca posterior (no mais supersticiosas, mas antes hipocondracas) 
tem de ser laboriosamente extrado, pelo trabalho analtico,do minrio das associaes livres e dos sintomas. Uma penetrao mais profunda na anlise da molstia 
de nosso pintor provavelmente trar uma convico mais forte. No  algo fora do comum para um homem adquirir uma depresso melanclica e uma inibio em seu trabalho, 
em resultado da morte do seu pai. Quando isto acontece, conclumos que o homem fora ligado ao pai por um amor especialmente intenso e recordamos com quanta freqncia 
uma melancolia grave surge como forma neurtica de luto.
         Nesse ponto, estamos indubitavelmente certos. Mas no se concluirmos, ademais, que essa relao foi simplesmente de amor. Ao contrrio, seu luto pela perda 
do pai tem mais probabilidade de se transformar em melancolia, quanto mais sua atitude para com ele portar a marca da ambivalncia. Essa nfase na ambivalncia, 
contudo, prepara-nos para a possibilidade de o pai ser submetido a um aviltamento, como vemos acontecer na neurose demonaca do pintor. Se pudssemos conhecer tanto 
sobre Christoph Haizmann quanto conhecemos sobre um paciente que faz anlise conosco, seria assunto fcil trazer  tona essa ambivalncia, faz-lo recordar quando 
e face a quais provocaes ele encontrou motivos para temer e odiar o pai, e acima de tudo, descobrir quais foram os fatores acidentais que se acrescentaram aos 
motivos tpicos para o dio ao pai, inerentes ao relacionamento natural de filho e pai. Talvez pudssemos ento encontrar uma explicao especial para a inibio 
do pintor no trabalho.  possvel que seu pai se tivesse oposto ao seu desejo de se tornar pintor. Se assim foi, sua incapacidade de exercer sua arte aps a morte 
do pai seria, por um lado, expresso do conhecido fenmeno de 'obedincia adiada'  e, por outro, tornando-o incapaz de ganhar a vida, seria compelida a aumentar 
seu anseio pelo pai como protetor contra os cuidadosda vida. Em seu aspecto de obedincia adiada, seria tambm expresso de remorso e uma autopunio bem-sucedida.
         Visto, contudo, no podermos efetuar uma anlise desse tipo com Christoph Haizmann, que faleceu no ano de 1700, temos de contentar-nos com salientar aqueles 
aspectos de seu caso clnico que possam apontar as causas excitantes tpicas de uma atitude negativa para com o pai. H apenas alguns desses aspectos, sequer muito 
notveis, porm so de grande interesse.
         Consideremos primeiramente o papel desempenhado pelo nmero nove. O pacto com o Maligno foi por nove anos. Sobre esse ponto, o relatrio inquestionavelmente 
fidedigno do proco da aldeia de Pottenbrunn  inteiramente claro: pro novem annis Syngraphen scriptam tradidit.. Essa carta de apresentao, datada de 1 de setembro 
de 1677, pode tambm informar-nos de que o perodo indicado estava a ponto de expirar em alguns dias: quorum et finis 24 mensis hujus futurus appropinquat.  O pacto, 
portanto, teria sido assinado em 24 de setembro de 1668. No mesmo relatrio, na verdade, ainda outro emprego  feito do nmero nove. O pintor alega ter resistido 
s tentaes do Maligno nove vezes - 'nonies' - antes de render-se a ele. Este no  mais mencionado nos relatrios posteriores. Na declarao do Abade, a frase 
'post annos novem [aps nove anos]'  usada, e o compilador repete 'ad novem annos [durante nove anos]' em seu resumo - prova de que esse nmero no era encarado 
como indiferente.
         O nmero nove  bem conhecido de ns das fantasias neurticas. Ele  o nmero dos meses de gravidez, e, onde quer que aparea, dirige nossa ateno para 
uma fantasia de gravidez. No caso de nosso pintor, com efeito, o nmero refere-se a anos, no a meses, e haver objeo de que nove  um nmero significativo sob 
outros aspectos tambm. Mas quem sabe se porventura ele no deve, em geral, boa parte de sua santidade ao papel que desempenha na gravidez? Nem precisamos ficar 
desconcertados pela mudana de nove meses para nove anos. Sabemos pelos sonhos  quais as liberdades que a 'atividade mental inconsciente' toma com os nmeros. Se, 
por exemplo, em um sonho ocorre o nmero cinco, isso pode ser invariavelmente remontado a um cinco que  importante na vida desperta; porm, enquanto na vida desperta 
o cinco era umadiferena de cinco anos de idade ou um grupo de cinco pessoas, no sonho ele apareceu como cinco notas de dinheiro ou cinco frutas. Isso equivale a 
dizer que o nmero  mantido, mas seu denominador  modificado de acordo com as exigncias da condensao e do deslocamento. Nove anos, em um sonho, poderiam assim 
facilmente corresponder a nove meses na vida real. A elaborao onrica brinca com os nmeros da vida desperta de outra maneira tambm, pois demonstra um desprezo 
soberano pelos zeros e no os trata como nmeros de modo algum. Cinco dlares em um sonho podem representar 50, 500 ou 5.000 dlares na realidade. 
         Outro pormenor nas relaes do pintor com o Demnio possui, mais uma vez, uma referncia sexual. Na primeira ocasio, como mencionei, ele viu o Maligno 
sob a forma de um honesto cidado. J na segunda ocasio o Diabo estava nu e disforme, e tinha dois pares de seios femininos. Em nenhuma de suas aparies subseqentes 
os seios esto ausentes, quer como par nico ou duplo. Somente em um deles o Demnio exibe, alm dos seios, um grande pnis terminando por uma serpente. Essa nfase 
do carter sexual feminino, pela introduo de grandes e pendentes seios (nunca h qualquer indicao dos rgos genitais femininos) est fadada a parecer-nos uma 
contradio notvel de nossa hiptese de que o Demnio tinha o significado de um substituto paterno para o pintor. E, de fato, tal maneira de representar o Demnio 
 em si prpria fora do comum. Onde se pensa em 'diabo' num sentido genrico e demnios aparecem em grande nmero, nada h de estranho em representar demnios femininos; 
mas que o Demnio, que constitui uma grande individualidade, o Senhor do Inferno e o Adversrio de Deus, seja representado diferentemente de um macho e, na verdade, 
como um supermacho, com chifres, cauda e uma grande serpente-pnis - isso, creio, jamais  encontrado.
         Essas duas indicaes ligeiras do-nos uma idia de qual fator tpico determina o lado negativo da relao do pintor com o pai. Aquilo contra o que est 
se rebelando e a sua atitude feminina para com o pai, que culmina pela fantasia de dar-lhe um filho (os nove anos). De nossas anlises, temos um conhecimento preciso 
dessa resistncia, de onde ela assume formas muito estranhas na transferncia e nos d boa dose de trabalho. Com o luto do pintor pelo pai perdido e a intensificao 
de seu anseio por ele, tambm sucede neleuma reativao de sua fantasia de gravidez h muito tempo reprimida, e ele  obrigado a se defender dela com uma neurose 
e com aviltamento do pai.
         No entanto por que deveria seu pai, aps ser reduzido  condio de Demnio, portar essa marca fsica de uma mulher? A caracterstica, a princpio, parece 
difcil de interpretar, porm logo encontramos duas explicaes que competem uma com a outra, sem se exclurem mutuamente. A atitude feminina de um menino com o 
pai sofre represso to logo ele compreende que sua rivalidade com uma mulher pelo amor do pai tem, como precondio, a perda de seus prprios rgos genitais masculinos 
- em outras palavras: a castrao. O repdio da atitude feminina , assim, o resultado de uma revolta contra a castrao. Ela normalmente encontra sua expresso 
mais forte na fantasia inversa de castrar o pai, de transform-lo em mulher. Desse modo, os seios do Demnio corresponderiam a uma projeo da prpria feminilidade 
do indivduo sobre o substituto paterno. A segunda explicao desses acrscimos femininos ao corpo do diabo no tem mais um sentido hostil, mas afetuoso. Ela v 
na adoo dessa forma uma indicao de que os sentimentos ternos da criana pela me foram deslocados para o pai, e isso sugere que houve previamente intensa fixao 
na me, fixao que, por sua vez,  responsvel por parte da hostilidade da criana para com o pai. Seios grandes so as caractersticas sexuais positivas da me, 
mesmo numa ocasio em que a caracterstica negativa de uma mulher - sua falta de um pnis - ainda  desconhecida da criana.
         Se a repugnncia de nosso pintor de aceitar a castrao lhe tornou impossvel apaziguar seu anseio pelo pai,  perfeitamente compreensvel que se tenha 
voltado para a imagem da me em busca de auxlio e salvao. Essa a razo de haver declarado que apenas a Santa Me de Deus de Mariazell poderia libert-lo de seu 
pacto com o Demnio e de haver obtido sua liberdade mais uma vez no dia da Natividade da Me (8 de setembro). Se o dia em que o pacto foi feito - 24 de setembro 
- tambm no foi determinado de algum modo parecido, isso naturalmente nunca saberemos.
         Entre as observaes feitas pela psicanlise sobre a vida mental das crianas, dificilmente existe alguma que soe to repugnante e inacreditvel a um adulto 
normal quanto a da atitude feminina de um menino para com o pai e a fantasia de gravidez que dela surge. Somente depois que o Senatsprsident Daniel Paul Schreber, 
juiz presidente de uma diviso da Corte de Apelao da Saxnia, publicou a histria de sua doena psictica e seu amplo restabe lecimento dela, que podemos debater 
o assunto sem agitao ou escusas. Informa-nos esse valiosssimo livro que, por volta da idade de 50 anos, o Senatsprsident ficou firmemente convencido de que Deus 
- ele, incidentalmente, apresentava traos distintos de seu pai, o digno mdico Dr. Schreber - decidira emascul-lo, utiliz-lo como mulher e engendrar nele 'uma 
nova raa de homens, nascidos do esprito de Schreber.' (Seu prprio matrimnio era sem filhos.) Em sua revolta contra essa inteno de Deus, que lhe parecia altamente 
injusta e 'contrria  Ordem das Coisas', caiu enfermo com sintomas de parania, os quais, entretanto, experimentaram um processo de involuo no decorrer dos anos, 
deixando atrs de si apenas um pequeno resduo. O dotado autor de seu prprio caso clnico no poderia ter adivinhado que, nele, revelara um fator patognico tpico.
         Essa revolta contra a castrao ou uma atitude feminina foi arrancada de seu contexto orgnico por Alfred Adler. Ele a vinculou superficial ou falsamente 
ao anseio de poder e postulou-a de um 'protesto masculino' independente. De vez que uma neurose s pode originar-se de um conflito entre duas tendncias,  to justificvel 
enxergar a causa de 'toda' neurose no protetor masculino quanto v-la na atitude feminina contra a qual o protesto  feito.  inteiramente verdico que esse protesto 
masculino desempenha papel regular na formao do carter - em certos tipos de pessoas, um papel muito grande - e que o encontramos na anlise de homens neurticos 
como vigorosa resistncia. A psicanlise concedeu a importncia devida ao protesto masculino em vinculao com o complexo de castrao, sem poder aceitar sua onipotncia 
ou sua onipresena nas neuroses. O caso mais acentuado de protesto masculino, com todas as suas reaes manifestas e traos de carter, com que me defrontei na anlise, 
foi o de um paciente que me procurou para tratamento por causa de uma neurose obsessiva em cujos sintomas o conflito no solucionado entre uma atitude masculina 
e outra feminina (medo da castrao e desejo da castrao) encontrava clara expresso. Ademais, o paciente havia desenvolvido fantasias masoquistas, derivadas inteiramente 
de um desejo de aceitar a castrao, e fora mesmo alm dessas fantasias,  satisfao real em situaes pervertidas. A totalidade de seu estado repousava - como 
a prpria teoria de Adler - na represso e negao de primitivas fixaes infantis de amor.O Senatsprsident Schreber encontrou o caminho da cura quando decidiu 
abandonar sua resistncia  castrao e acomodar-se ao papel feminino que lhe fora estabelecido por Deus. Passado isso, ficou lcido e calmo, foi capaz de levar 
a cabo sua prpria alta do asilo e levou uma vida normal - com a nica exceo de dedicar algumas horas de cada dia ao cultivo de sua prpria feminilidade, de cujo 
avano gradual no sentido do objetivo determinado por Deus permaneceu convencido.
         
         IV - OS DOIS COMPROMISSOS
         
         Um pormenor notvel na histria de nosso pintor  a declarao de que ele assinou dois compromissos diferentes com o Demnio.
         O primeiro, escrito a tinta preta, dizia o seguinte:
          'Eu, Chr., H., subscrevo-me a este Senhor como seu filho obrigado, at o nono ano.'
         O segundo, redigido com sangue, dizia:
         'Chr. H. Assino um compromisso com este Sat, de ser seu filho obrigado, e, no nono ano, pertencer-lhe em corpo e alma.'
         Diz-se que os originais de ambos estiveram nos arquivos de Mariazell quando o Trophaeum foi compilado, e ambos portam a mesma data: 1669.
         J fiz certo nmero de referncias aos dois compromissos e agora me proponho tratar deles com mais detalhe, embora seja exatamente aqui que o perigo de 
supervalorizar insignificncias parece especialmente grande.
         No  hbito algum assinar duas vezes um compromisso com o Diabo, de maneira que o primeiro documento seja substitudo pelo segundo sem, contudo, perder 
sua prpria validade. Talvez essa ocorrncia seja menos surpreendente para outras pessoas que esto mais  vontade com material demonolgico. De minha parte, s 
pude encar-lo como uma peculiaridade especial de nosso caso e minhas suspeitas despertaram quando descobri que os relatrios variavam exatamente nesse ponto. O 
exame dessas discrepncias nos facultar, inesperadamente, uma compreenso mais profunda do caso clnico.
         A carta de apresentao do proco da aldeia de Pottenbrunn descreve uma situao muito simples e clara. Nela, faz-se meno apenas a um compromisso, escrito 
com sangue pelo pintor nove anos antes, e que deveria expirar no perodo de alguns dias - em 24 de setembro [de 1677]. Deve, portanto, ter sido redigido em 24 de 
setembro de 1668; essa data, infelizmente, embora possa ser inferida com certeza, no  explicitamente enunciada.
         O depoimento do Abade Franciscus, datado, como sabemos, de alguns dias depois (12 de setembro de 1677) j descreve um estudo de coisas mais complicado. 
 plausvel presumir que o pintor fornecera informaes maisprecisas nesse intervalo. O depoimento relata que o pintor assinara dois compromissos: um no ano de 1668 
(data que tambm deveria ser a correta, de acordo com a carta de apresentao), escrito em tinta preta, e o outro 'sequenti anno [no ano seguinte] 1669', escrito 
com sangue. O compromisso que recebera de volta no dia da Natividade da Virgem [8 de setembro] fora o escrito com sangue, ou seja, o posterior, assinado em 1669. 
Isso no aparece no depoimento do Abade, pois a simplesmente diz que mais tarde 'schedam redderet [devolver-lhe-ia o documento]' e 'schedam sibi porrigentem conspexisset 
[viu-o oferecendo o documento]', como se se pudesse tratar apenas de um nico documento. Mas isso decorre do curso subseqente da histria, e tambm da pgina de 
rosto colorida do Trophaeum, onde o que  claramente um escrito vermelho pode ser visto sobre o documento que o drago demonaco est segurando. O curso ulterior 
da histria , como j relatei, que o pintor retornou a Mariazell em maio de 1678, aps ter experimentado novas tentaes do Maligno em Viena, e implorou que, mediante 
novo ato de graa por parte da Santa Me, o primeiro documento, redigido a tinta, tambm lhe pudesse ser devolvido. A maneira por que isso aconteceu no  to plenamente 
descrita como a primeira ocasio. -nos simplesmente dito: 'qu juxta votum reddit [quando este foi devolvido de acordo com a sua prece]'; e, noutra passagem, o 
compilador diz que esse compromisso especfico foi arremessado ao pintor pelo Demnio, 'amassado em bola e rasgado em quatro pedaos', em 9 de maio de 1678, por 
volta das nove horas da noite.
         Ambos os compromissos, contudo, portam a data do mesmo ano: 1669.
         Tal incompatibilidade, ou no tem significao ou pode colocar-nos na pista seguinte.
         Se tomarmos como ponto de partida o relato do Abade, por ser o mais pormenorizado, confrontamo-nos com certo nmero de dificuldades. Quando Christoph Haizmann 
confessou ao proco da aldeia de Pottenbrunn que fora pressionado pelo Demnio e o limite de tempo certo expiraria, s poderia [em 1677] ter estado pensando no compromisso 
que assinara em 1668, quer dizer, o primeiro deles, escrito em negro (mencionado na carta de introduo como sendo o nico, porm nela descrito como redigido com 
sangue). Alguns dias mais tarde, em Mariazell, preocupava-se apenas em conseguir de volta o compromisso posterior, em sangue, cujo vencimento ento no estava prximo 
(1669-77), e permitiu que o primeiro vencesse. Esse ltimo no foi reclamado at 1678, isto , quando havia entrado em seu dcimo ano.Ademais, por que so os compromissos 
datados do mesmo ano (1669), quando um deles  explicitamente atribudo ao ano seguinte ('anno subsequenti' )?
         O compilador deve ter observado essas dificuldades, pois fez uma tentativa para remov-las. Em seu prefcio adotou a verso do Abade, mas modificou-a em 
determinado particular. O pintor, diz ele, assinou um compromisso com o Demnio em 1669 a tinta, mas depois ('deinde vero'), com sangue. Excedeu ele, assim, a declarao 
expressa de que um compromisso fora assinado em 1668, e ignorou a observao do Abade, em seu depoimento, no sentido de que havia uma diferena no nmero do ano 
entre os dois compromissos. Fez isso a fim de manter-se em harmonia com a data dos dois documentos devolvidos pelo Demnio.
         No depoimento do Abade ocorre entre parnteses uma passagem aps as palavras 'sequenti vero anno [mas no ano seguinte] 1669'. Diz ela: 'sumitur hic alter 
annus pro nondum completo, uti saepe in loquendo fieri solet, nam eunden annum indicant syngraphae, quarum atramento scripta ante praesentem attestationem nondum 
habita fuit.' Esta passagem  claramente uma interpolao por parte do compilador, pois o Abade, que s vira um compromisso, no poderia ter declarado que ambos 
portavam a mesma data. A colocao da passagem entre parnteses, alm disso, deve ter sido com a inteno de mostrar ser uma adio ao texto do depoimento. Ela representa 
outra tentativa por parte do compilador para reconciliar a prova incompatvel. Concorda que o primeiro compromisso foi assinado em 1668, mas acha que, visto o ano 
j estar to avanado (era setembro), o pintor ps-datara-o de um ano, de modo a que ambos os compromissos pudessem apresentar o mesmo ano. Ele invocara o fato de 
que as pessoas amide fazem o mesmo tipo de coisa em conversa, parece-me assinalar toda a sua tentativa de explicao com uma dbil evaso, no mais.
         No posso dizer se minha apresentao do caso causou alguma impresso no leitor e se o colocou em posio de se interessar por essas mincias. Eu prprio 
achei impossvel chegar com alguma certeza ao verdadeiro estadode coisas, porm estudando esse confuso assunto deparei com uma noo que tem a vantagem de fornecer 
a representao mais natural do curso dos acontecimentos, embora novamente as provas escritas no se ajustem inteiramente a ela.
         Minha opinio  que, quando chegou pela primeira vez a Mariazell, o pintor falou apenas de um s compromisso, redigido, de maneira normal, com sangue, o 
qual estava a ponto de vencer e, portanto, fora assinado em setembro de 1668 - tudo exatamente como descrito na carta de apresentao do proco da aldeia. Tambm 
em Mariazell ele apresentou esse compromisso em sangue como sendo o que lhe devolvera o Demnio sob compulso da Santa Me. Sabemos o que aconteceu em seguida. O 
pintor deixou o santurio logo depois e foi para Viena, onde se sentiu livre at meados de outubro. Ento, comeou, porm, mais uma vez a ficar sujeito a padecimentos 
e aparies, nas quais viu a obra do Esprito Maligno. Sentiu-se novamente em necessidade de redeno, mas defrontou-se com a dificuldade de explicar por que o exorcismo 
na sagrada capela no lhe trouxera libertao permanente. Certamente no seria bem acolhido em Mariazell se l retornasse no curado e com uma recada. Nesse dilema, 
inventou um primeiro compromisso, mais antigo, o qual, contudo, deveria ser redigido a tinta, para que sua anulao em favor de um posterior, escrito com sangue, 
parecesse mais plausvel. Havendo retornado a Mariazell, teve esse pretenso primeiro compromisso devolvido a ele, tambm. Depois disso, foi deixado em paz pelo Maligno; 
ao mesmo tempo, porm, fez algo mais, que nos demonstrar o que jazia por trs de sua neurose.
         Os desenhos que fez foram indubitavelmente executados durante sua segunda estada em Mariazell: a pgina de rosto, que  uma composio nica, contm a representao 
de ambas as cenas dos compromissos. A tentativa de fazer sua nova histria combinar com a anterior provavelmente pode ter-lhe causado embaraos. Foi para ele lamentvel 
que sua inveno adicional s pudesse ser de um compromisso anterior, no de um posterior. No pde, assim, evitar o resultado esquisito de que honrara um deles 
- o de sangue - cedo demais (no oitavo ano) e o outro - a tinta - demasiadamente tarde (no dcimo ano). E revelou a composio dupla da histria cometendo um equvoco 
na data dos compromissos e atribuindo tanto o anterior quanto o posterior ao ano de 1669. Esse equvoco tem o significado de uma amostra de honestidade no intencional: 
permite-nos adivinhar que o compromisso supostamente anterior foi fabricado na data posterior. O compilador, que certamente no comeou a revisar o material antes 
de 1714, e talvez no antes de 1729, teve de dar o melhor de si para solucionar suas contradies noirrelevantes. Descobrindo estarem datados de 1669 ambos os compromissos 
que tinha perante ele, recorreu  evaso que interpolou no depoimento do Abade.
          fcil perceber onde est o ponto fraco dessa reconstruo sob outros aspectos atraente. J se fez referncia  existncia de dois compromissos, um em 
preto e outro em sangue, no depoimento do Abade. Portanto, tenho a escolher entre acusar o compilador de ter efetuado tambm uma alterao no depoimento, alterao 
intimamente relacionada  sua interpolao, ou confessar que sou incapaz de desemaranhar a trama.
         O leitor h muito tempo ter julgado suprflua toda essa discusso e muito sem importncia os pormenores a ela relacionados. Mas o assunto ganha novo interesse 
se for acompanhado em certa direo.
         Acabei de expressar a opinio de que, ao ser desagradavelmente surpreendido pelo curso tomado por sua molstia, o pintor inventou um compromisso anterior 
(o redigido a tinta), a fim de poder manter sua posio junto aos reverendos padres de Mariazell. Ora, estou escrevendo para leitores que, conquanto acreditem na 
psicanlise, no acreditam no Diabo, e eles podem objetar que foi absurdo em levantar tal acusao contra o pobre infeliz - hunc miserum, como  chamado na carta 
de apresentao -, pois, diro, o compromisso a sangue foi um produto de sua fantasia tal qual o supostamente anterior, escrito a tinta. Na realidade, nenhum Demnio 
lhe apareceu absolutamente, e todo o assunto dos pactos com o Diabo s existiu em sua imaginao. Entendo perfeitamente isso: no se pode negar ao pobre homem o 
direito de suplementar sua fantasia original com uma nova, se circunstncias alteradas parecem exigi-lo.
         Contudo, tambm aqui o assunto prossegue. Afinal de contas, os dois compromissos no foram fantasias, como as vises do Demnio. Foram documentos, preservados, 
segundo as garantias do copista e o depoimento do posterior Abade Kilian, nos arquivos de Mariazell, para todos verem e tocarem. Estamos, portanto, num dilema. Ou 
presumimos que ambos os documentos, supostos ter sido devolvidos ao pintor mediante a graa divina, foram escritos por ele na ocasio em que deles necessitou, ou 
ento, malgrado todas as garantias solenes, a prova confirmatria de testemunhas, assinada e selada, e assim por diante, seremos obrigados a negar a credibilidade 
dos reverendos padres de Mariazell e So Lamberto. Devo admitir que no estou disposto a lanar dvidas sobre os padres. Fico inclinado a pensar,  verdade, que 
o compilador, no interesse da coerncia, falsificou algumas coisas do depoimento feito pelo primeiro abade, mas uma 'elaborao secundria' como essa no vai muito 
alm da que  efetuada mesmo por modernos historiadores leigos, e, em todo o caso, foi feita de boa-f. Sob outro aspecto, os reverendos padres conquistaram justo 
direito  nossa confiana. Como j disse [[1] e [2]], nada havia para impedi-los de suprimir os relatos da parcialidade da cura e da continuao das tentaes. E 
mesmo a descrio da cena de exorcismo na capela, que se poderia ter encarado com certa apreenso,  sobriamente redigida e inspira crdito. Assim, nada resta a 
fazer, a no ser lanar a culpa sobre o pintor. Fora de dvida, ele tinha consigo o compromisso em vermelho quando se dirigiu  prece penitencial na capela, e produziu-o 
posteriormente, quando retornou at seus assistentes espirituais, de seu encontro com o Demnio. Nem precisa ser esse o mesmo documento mais preservado nos arquivos, 
e, de acordo com nossa construo, ele pode ter apresentado a data de 1668 (nove anos antes o exorcismo).
         
         V - O CURSO ULTERIOR DA NEUROSE
         
         Entretanto, isso procedendo, estaramos lidando no com uma neurose, mas com uma fraude, e o pintor seria um simulador e falsificador, em vez de um homem 
doente sofrendo de uma possesso. Os estgios intermedirios entre a neurose e a simulao contudo so muito fluidos, como sabemos. Tampouco vejo qualquer dificuldade 
em supor que o pintor escreveu esse documento e o posterior, e conduziu-os consigo em um estado peculiar semelhante quele em que teve suas vises. Na verdade no 
havia outro curso aberto a ele, se desejasse pr em execuo sua fantasia do pacto com o Demnio e sua redeno.
         Por outro lado, o dirio escrito em Viena, que entregou aos clrigos em sua segunda visita a Mariazell, traz a marca da veracidade. Ele sem dvida nos fornece 
uma compreenso interna (insight) da motivao - ou, digamos antes, da explorao - da neurose.
         Os apontamentos se estendem da poca do exorcismo bem-sucedido at 13  de janeiro do ano seguinte, 1678.
         At 11 de outubro ele se sentiu muito bem em Viena, onde morava com uma irm casada; depois, porm, teve novas crises, com vises, convulses, perda de 
conscincia e sensaes penosas, que finalmente acarretaram seu retorno a Mariazell, em maio de 1678.
         A histria de sua nova doena incide em trs fases. Primeiramente, a tentao apareceu-lhe sob a forma de um cavaleiro finamente vestido, tentando persuadi-lo 
a jogar fora o documento que atestava sua admisso  Irmandade do Santo Rosrio. Resistiu a essa tentao, aps o que a mesma coisa sucedeu no dia seguinte, apenas 
desta vez a cena se dispondo em um salo magnificamente decorado onde imponentes senhores danavam com formosas damas. O mesmo cavaleiro que antes o havia tentado 
fez-lhe uma proposta relacionada com pintar e prometeu dar-lhe bela soma de dinheiro em troca. Aps ter feito desaparecer essa viso atravs da orao, ela se repetiu 
mais uma vez alguns dias mais tarde, de forma ainda mais pressionante. Desta vez, o cavaleiro enviou at ele uma das damas mais belas que estavam sentadas  mesa 
de banquete, para persuadi-lo a unir-se  sua companhia e ele teve dificuldade em defender-se da tentadora. Mais terrificante de todas, ademais, foi a viso que 
lhe ocorreu pouco aps isso. Viu um salo ainda mais magnfico, onde havia um 'trono feito de peas de ouro'. Cavaleiros por ali estavam de p, aguardando a chegada 
de seu rei. A mesma pessoa que to amide lhe fizera propostas aproximou-se ento dele e o convocou a ascender ao trono, pois 'desejavam t-lo como rei, para honr-lo 
para sempre'. Essa fantasia extravagante concluiu a primeira fase, perfeitamente transparente, da histria de sua tentao.
         Estava fadado a haver uma reviravolta nisso, e com efeito, iniciou-se uma reao asctica. Em 20 de outubro apareceu uma grande luz e dela saiu uma voz, 
identificando-se como Cristo, e ordenou-lhe renegar este mundo perverso e servir Deus no deserto durante seis anos. O pintor claramente sofreu mais com essas aparies 
sagradas do que com as anteriores, demonacas; somente duas horas e meia depois despertou dessa crise. Na seguinte, a figura santa cercada de luz mostrou-se muito 
mais inamistosa. Lanou ameaas contra ele por no haver obedecido o mandado divino e desceu com ele ao Inferno, a fim de que se aterrorizasse com a sorte dos malditos. 
Evidentemente, contudo, isso fracassou em seu efeito, pois as aparies da figura rodeada de luz, que passava por Cristo, repetiram-se diversas vezes mais. A cada 
vez o pintor experimentava uma absence e xtase que duravam horas. No maior desses xtases, a figura rodeada de luz levou-o primeiro a uma cidade em cujas ruas o 
povo perpetuava todos os atos sombrios; e, ento, em contraste, conduziu-o a um prado encantador em que anacoretas levavam uma vida devota e recebiam provas tangveis 
da graa e do cuidado de Deus. L apareceu, em vez de Cristo, a prpria Santa Me que, lembrando-o do que j fizera por ele, invocou-o a obedecer s ordens de seu 
amado filho. 'De vez que no podia verdadeiramente decidir-se a assim proceder', Cristo apareceu-lhe novamente no dia seguinte e repreendeu-o vigorosamente com ameaas 
e promessas. Por fim, ele cedeu e resolveu abandonar o mundo e fazer o que era exigido dele. Com essa deciso, terminou a segunda fase. O pintor declara que, dessa 
poca em diante, no teve mais vises ou tentaes.
         No obstante, sua resoluo no pode ter sido bastante firme ou deve ter retardado sua execuo por tempo demais, pois, enquanto se achava em meio s suas 
devoes, em 26 de dezembro, em [a Catedral de] Santo Estevo, ao avistar uma robusta jovem acompanhada por um cavalheiro elegantemente trajado, no pde afastar 
o pensamento de que ele prprio poderia estar no lugar do cavalheiro. Isso exigia castigo, que nessa mesma noite o acometeucomo um raio. Viu a si mesmo em chamas 
brilhantes e esvaiu-se num desmaio. Fizeram-se tentativas de despert-lo, mas ele rolou pelo quarto at o sangue fluir de sua boca e nariz. Sentia estar rodeado 
de calor e odores infectos, e escutou uma voz dizer que fora condenado a esse estado em punio por seus pensamentos vos e ociosos. Posteriormente Espritos Maus 
o aoitaram com cordas e foi-lhe dito que todos os dias seria assim atormentado, at que se decidisse a entrar para a Ordem dos Anacoretas. Essas experincias prosseguiram 
at a ltima anotao em seu dirio (13 de janeiro).
         Vemos como as fantasias de tentao de nosso desafortunado pintor foram sucedidas por outras ascticas e, finalmente, por fantasias de punio. O final 
de seu relato de sofrimento j nos  conhecido. Em maio partiu para Mariazell, contou sua histria de um compromisso anterior, escrito em tinta preta, ao qual explicitamente 
atribuiu seu tormento continuado pelo Demnio, recebeu de volta tambm esse compromisso e ficou curado.
         L, durante sua segunda estada, pintou os quadros que esto copiados no Trophaeum. A seguir, deu um passo que se harmonizava com as exigncias da fase asctica 
de seu dirio. Na verdade, no foi para o deserto, para tornar-se anacoreta, mas ingressou na Ordem dos Irmos Hospitalrios: religiosus factus est.
         Lendo o dirio, conseguimos uma compreenso interna (insight) de outra parte da histria. Ser lembrado que o pintor assinou um compromisso com o Demnio 
porque, aps a morte do pai e sentindo-se deprimido e incapaz de trabalhar, ficou preocupado sobre como ganhar a vida. Esses fatores da depresso, da inibio em 
seu trabalho e do luto pelo pai esto de algum modo vinculados uns com os outros, seja de maneira simples ou complicada. Talvez a razo por que as aparies do Demnio 
eram to exageradamente generosas de seios fosse a pretenso de que o Diabo se tornasse seu pai de criao. Essa expectativa no foi preenchida e o pintor continuou 
a ver-se em mau estado. No podia trabalhar corretamente, ou estava sem sorte e no podia encontrar empregos suficientes. A carta de apresentao do proco da aldeia 
fala dele como 'hunc miserum omni auxilio destitutum' [[1]]. Estava, assim, no s em dificuldades morais, mas padecendo tambm necessidades materiais. No relato 
[em seu dirio] de suas vises posteriores, encontramos aqui e ali observaes a indicar - como o fazem os contedos das cenas descritas - que mesmo aps o primeiro 
e bem-sucedido exorcismo nada se alterara em sua situao. Vimos a conhec-lo como um homem que fracassa em tudo e em quem, portanto, ningum confia. Em sua primeira 
viso, o cavaleiro perguntou-lhe 'o que faria, visto no ter ningum para valer-lhe'. A primeira srie de vises em Viena harmonizava-se completamente com as fantasiasrepletas 
de desejo de um homem pobre, que decara no mundo e estava faminto de prazer: sales magnificentes, elevado passadio, baixelas de prata e belas mulheres. Aqui encontramos 
realizado o que estava faltando em suas relaes com o Demnio. Nessa poca ele estivera em melancolia, que o tornara incapaz de fruir qualquer coisa e o obrigara 
a rejeitar as ofertas mais atraentes. Aps o exorcismo, a melancolia parece ter sido superada e todos os seus desejos mundanos mais uma vez ficaram ativos.
         Em uma das vises ascticas, queixou-se a seu guia (Cristo) de que ningum tinha crena nele, sendo pois incapaz de executar as ordens a ele atribudas. 
A resposta recebida infelizmente nos  obscura: 'Ainda que eles no acreditem em mim, sei bem o que aconteceu, mas no posso declar-lo.' Especialmente esclarecedoras, 
contudo, so as experincias por que seu guia celeste o fez passar entre os anacoretas. Chegou a uma caverna onde um velho estivera sentado durante os ltimos sessenta 
anos, e, em resposta a uma pergunta, soube que esse ancio fora alimentado, todos os dias, por anjos de Deus. E ento viu, por si prprio, como um anjo trazia alimento 
ao velho: 'Trs pratos com comida, uma cdea de po, um bolinho e um pouco de bebida.' Aps o eremita ter comido, o anjo reuniu tudo e levou-o consigo. Podemos ver 
qual a tentao que as piedosas vises ofereciam ao pintor: destinavam-se a induzi-lo a adotar um modo de existncia em que no mais necessitaria preocupar-se com 
a subsistncia. As palavras de Cristo na ltima viso so tambm de nota. Aps ameaar que, no se mostrando dcil, aconteceria algo que o obrigaria, e ao povo, 
a acreditar [nisso], Cristo deu-lhe um aviso de que 'no devo prestar ateno ao povo; mesmo que me persigam ou no me dem auxlio, Deus no me abandonaria.'
         Christoph Haizmann tinha bastante de artista e de filho desde mundo, para achar difcil renunciar a este mundo pecaminoso. No obstante, em vista de sua 
posio desamparada, ao final assim procedeu. Entrou para uma Ordem Sagrada. Com isso, tanto sua luta interior quanto sua necessidade material terminaram. Em sua 
neurose, esse desfecho refletiu-se no ato de suas crises e vises terem um fim com a devoluo de um suposto primeiro compromisso. Na realidade, ambas as partes 
de sua doena demonaca tinham o mesmo significado. Ele quisera, todo o tempo, simplesmente tornar segura sua vida. Primeiro tentara consegui-lo com ajuda do Demnio, 
ao custo de sua salvao, e quando isso fracassou e teve de ser abandonado, tentara alcan-lo com o auxlio do clero, ao custo de sua liberdade e da maioria daspossibilidades 
de prazer na vida. Talvez ele prprio fosse apenas um pobre-diabo simplesmente sem sorte; talvez fosse ineficiente ou pouco talentoso demais para ganhar a vida, 
e um daqueles tipos de pessoas que so conhecidas como 'bebs eternos' - incapazes de arrancar-se do estado beatfico no seio da me e que, por toda a vida, persistem 
na exigncia de serem nutridos por algum. Foi assim que, nessa histria de sua enfermidade, ele seguiu o caminho que levou de seu pai, por intermdio do Demnio 
como substituto paterno, aos piedosos padres da Igreja.
         A uma observao superficial, a neurose de Haizmann parece ser um embuste sobrejacente a uma parte da sria, ainda que comum, luta pela existncia. Nem 
sempre  esse o caso, porm assim sucede no poucas vezes. Os analistas amide descobrem quo improdutivo  tratar um homem de negcios que, 'embora sob outros aspectos 
em boa sade, apresentou por algum tempo sinais de neurose'. A catstrofe nos negcios com que ele prprio se sente ameaado, arremessa para cima a neurose, como 
um subproduto, e isso lhe concede a vantagem de poder ocultar suas preocupaes sobre a vida real por trs de seus sintomas. Afora isso, porm, a neurose no serve 
a qualquer propsito til, visto utilizar foras que teriam sido mais lucrativamente empregadas tratando-se racionalmente com a situao perigosa.
         Em casos bem mais numerosos, a neurose  mais autnoma e independente dos interesses de autopreservao e autoconservao. No conflito criador da neurose, 
o que est em jogo so interesses unicamente libidinais ou interesses libidinais em vinculaes ntimas com interesses autopreservativos. Em todos os trs casos, 
a dinmica da neurose  a mesma. Uma libido representa que no pode ser satisfeita, na realidade logra xito, com o auxlio de uma regresso a fixaes antigas, 
em encontrar descarga atravs do inconsciente reprimido. O ego do doente, na medida em que pode extrair um 'lucro da doena' a partir desse processo, aprova a neurose, 
embora no possa haver dvida de sua nocividade em seu aspecto econmico.
         Tampouco a desesperada situao de nosso pintor na vida teria provocado nele uma neurose demonaca, se sua necessidade material no houvesse intensificado 
o anseio pelo pai. No entanto, aps livrar-se de sua melancolia e do Demnio, ainda teve de enfrentar a luta entre sua fruio libidinal da vida e sua compreenso 
de que os interesses de autopreservao exigiam imperativamente renncia e ascetismo.  interessante ver que o pintor estava bem ciente da unidade das duas partes 
de sua molstia, pois atribuiu ambas aos compromissos firmados com o Demnio. Por outro lado, no efetuouuma distino ntida entre as operaes do Esprito Mau 
e as dos Poderes Divinos, e tinha apenas uma descrio para ambas: eram manifestaes do Demnio.
         
         













OBSERVAES SOBRE A TEORIA E PRTICA DA INTERPRETAO DE SONHOS (1923 [1922])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         BEMERKUNGEN ZUR THEORIE UND PRAXISDER TRAUMDEUTUNG
          
         (a) EDIES ALEMS:
         1923 Int. Z. Psychoanal., 9, (1), 1-11.
         1925 G.S., 3, 305-18.
         1925 Traumlehre, 49-62.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 354-68.
         1940 G.W., 13, 301-14.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Remarks upon the Theory and Practice of Dream-Interpretation'
         1943 Int. J. Psycho-Anal., 24 (1-2), 66-71. (Trad. de James Strachey.)
         1945 Yb. Psychoanal., 1, 13-30. (Reimpresso da traduo acima.
         1950 C.P., 5, 136-49. (Reimpresso revista da traduo acima.)
         
         A presente traduo inglesa  verso corrigida, com notas adicionais, da publicada em 1950.
         
         O contedo deste artigo foi comunicado por Freud a seus companheiros durante um passeio a p pelas Montanhas do Harz, em setembro de 1921 (Jones, 1957, 
86), o mesmo passeio em que leu para eles dois outros trabalhos, 1941d e 1922b (Edio Standard Brasileira, Vol. XVIII, pg. 215 e 271, IMAGO Editora, 1976). O presente 
artigo, contudo, s foi realmente escrito um ano mais tarde, em julho de 1922, em Gastein (Jones, ibid., 93). (A data do ano da redao  erradamente fornecida como 
'1923', em Jones, 1955, 269.) Ver-se- que as Sees VIII e X refletem o interesse de Freud na 'compulso  repetio' e na demonstrao de um 'ideal do ego', tal 
como debatido em seus trabalhos contemporneos, Alm do Princpio de Prazer (1920g) e Psicologia de Grupo (1921c), respectivamente.
         
         
         
         
         OBSERVAES SOBRE A TEORIA E PRTICA DA INTERPRETAO DE SONHOS
         
         A circunstncia acidental de as ltimas edies de A Interpretao de Sonhos (1900a) terem sido impressas com chapas estereotipadas, levou-me a publicar 
as seguintes observaes de uma forma independente, em lugar de introduzi-las no texto como modificaes ou acrscimos.
         I 
         Ao interpretar um sonho durante uma anlise, fica em aberto a escolha de um entre vrios procedimentos tcnicos.
         Pode-se (a) proceder cronologicamente e fazer com que o sonhador traga suas associaes aos elementos do sonho na ordem em que esses elementos ocorreram 
em seu relato do sonho.  esse o mtodo original, clssico, que ainda considero o melhor se estamos analisando os prprios sonhos.
         Ou pode-se (b) iniciar o trabalho de interpretao a partir de algum elemento especfico do sonho, que se apanha de seu meio. Por exemplo, pode-se escolher 
o fragmento mais notvel dele, ou aquele que apresenta a maior clareza ou intensidade sensria, ou, ainda, pode-se comear de algumas palavras enunciadas no sonho, 
na expectativa de que elas conduziro  rememorao de algumas palavras faladas na vida desperta.
         Ou pode-se (c) comear por desprezar inteiramente o contedo manifesto e, em vez disso, perguntar quele que sonhou quais os acontecimentos do dia anterior 
associados em sua mente com o sonho que acabou de descrever.
         Finalmente, pode-se (d), estando aquele que sonhou j familiarizado com a tcnica da interpretao, evitar fornecer-lhe quaisquer instrues e deix-lo 
decidir com que associaes ao sonho ir comear.
         No posso estabelecer que uma ou outra dessas tcnicas seja prefervel ou, em geral, produza melhores resultados.
         II 
         De bem maior importncia  a questo de saber se o trabalho de interpretao progride sob uma presso da resistncia que  alta ou baixa - ponto quanto 
ao qual o analista nunca permanece muito tempo em dvida. Se a presso  alta, pode-se talvez lograr descobrir com que coisas o sonho se relaciona, mas no se pode 
entender o que diz sobre essas coisas.  como se estivssemos tentando ouvir uma conversa que se realiza  distncia ou em voz muito baixa. Nesse caso, pode-se confiar 
em que no h muita perspectiva de colaborar com o que sonhou, decidimos no nos preocupar demais a respeito e no lhe fornecer muito auxlio, e contentamo-nos em 
colocar diante dele algumas tradues de smbolos que parecem provveis.
         A maioria dos sonhos em uma anlise difcil  desse tipo; assim, no se pode aprender muito, deles, sobre a natureza e o mecanismo da formao onrica. 
Menos importante de tudo, deles se pode aprender algo acerca da questo recorrente sobre onde  provvel jazer oculta a realizao de desejo do sonho. Quando a presso 
da resistncia  extremamente alta, defrontamo-nos com o fenmeno das associaes daquele que sonhou, de se expandirem em vez de se aprofundarem. Em lugar das associaes 
desejadas ao sonho j narrado, aparece uma sucesso constante de novos fragmentos do sonho, os quais, por sua vez, permanecem sem associaes.
         Somente quando a resistncia  mantida dentro de limites moderados que surge o quadro familiar do trabalho de interpretao: as associaes do sonhador 
comeam por divergir amplamente dos elementos manifestos, de modo que um grande nmero de temas e alcances de idias so tocados, e a seguir uma segunda srie de 
associaes rapidamente converge daqueles para os pensamentos onricos que esto sendo procurados. Quando  assim a colaborao entre o analista e aquele que sonhou 
se torna possvel, ao passo que, sob a alta presso da resistncia, ela nem sequer seria vantajosa.
         Certo nmero de sonhos que ocorrem durante as anlises so intraduzveis, embora eles, na realidade, no demonstrem muito da resistncia l encontrada. 
Representam verses livres dos pensamentos onricos latentes por trs deles e so comparveis a escritos criativos bem-sucedidos que foram artisticamente elaborados 
e nos quais os temas bsicos ainda so reconhecveis, malgrado tenham sido submetidos a alguma reordenao e transformao. Os sonhos desse tipo servem, no tratamento, 
como uma introduo a pensamentos e lembranas daquele que sonhou, sem entrar em cogitao seu prprio contedo real.
         III 
          possvel distinguir entre sonhos oriundos de cima e sonhos oriundos de baixo, desde que a distino no se faa com demasiada nitidez. Sonhos de baixo 
so os provocados pela intensidade de um desejo inconsciente (reprimido), que encontrou meio de ser representado em algum dos resduos diurnos. Podem ser encarados 
como incurses do reprimido na vida desperta.Os sonhos de cima correspondem a pensamentos ou intenes do dia anterior que durante a noite conseguiram obter reforo 
de um material reprimido excludo do ego.  Assim sendo, a anlise via de regra despreza esse aliado inconsciente e logra xito em inserir os pensamentos onricos 
latentes na contextura do pensamento desperto. Essa distino no exige modificao na teoria dos sonhos.
         IV 
         Em algumas anlises, ou em determinados perodos de uma anlise, pode aparecer um divrcio entre a vida onrica e a vida desperta, como o divrcio entre 
a atividade da fantasia e a vida desperta encontrado na 'histria continuada' (um romance em devaneios). Nesse caso, determinado sonho parte de outro, tomando como 
ponto central algum elemento antes ligeiramente aflorado em seu predecessor, e assim por diante. Descobrimos, porm, com muito mais freqncia, que os sonhos no 
se ligam uns aos outros, mas so interpolados numa srie sucessiva de parte do pensamento desperto.
         V 
         A interpretao de um sonho incide em duas fases: a fase em que  traduzido e a fase em que  julgado ou seu valor foi determinado. Durante a primeira no 
devemos permitir-nos ser influenciados, por nenhuma considerao, para a segunda fase.  como se tivssemos  frente um captulo de alguma obra em lngua estrangeira 
- da autoria de Lvio, por exemplo. A primeira coisa que se deseja saber  o que Lvio diz no captulo, e depois disso surge a discusso, saber se o que foi lido 
 uma narrativa histrica, uma lenda ou uma digresso por parte do autor.
         Que concluses se pode extrair de um sonho corretamente traduzido? Parece-me que a prtica analtica nem sempre evitou erros e avaliaes em demasia sobre 
esse ponto, em parte devido a um respeito exagerado pelo 'inconsciente misterioso'.  muito fcil esquecer que um sonho, via de regra,  simplesmente um pensamento 
como outro qualquer, tornado possvel pelo relaxamento da censura e pelo reforo inconsciente, e deformado pela operao da censura e pela reviso inconsciente.
         Tomemos como exemplo os chamados sonhos de restabelecimento. Se um paciente teve um sonho desse tipo, no qual parece abandonar as restries de sua neurose 
- por exemplo, superando alguma fobia ou abandonando alguma ligao emocional -, ficamos inclinados a pensar que ele deu um grande passo  frente, que est apto 
a ocupar seu lugar em um novo estado de vida, comeou a confiar em seu restabelecimento etc. Isso amide pode ser verdadeiro, porm com a mesma freqncia tais sonhos 
de restabelecimento s tm o valor dos sonhos de convenincia: significam um desejo de estar bem, afinal, para evitar outra parte do trabalho de anlise que sentimos 
estar diante. Nesse consenso, os sonhos de restabelecimento ocorrem muito amide, por exemplo, quando o paciente est a ponto de ingressar numa fase nova e desagradvel 
da transferncia. Est-se comportando nisso exatamente como certos neurticos que, aps algumas horas de anlise, declaram que ficaram curados - por quererem fugir 
a todo o desprazer fadado a surgir para discusso na anlise. Os que padecem de neuroses de guerra abandonam seus sintomas porque a terapia adotada pelos mdicos 
militares conseguiu tornar o estar doente ainda mais inconfortvel do que servir na frente de batalha - e em ambos os casos as curas igualmente mostraram ser apenas 
temporrias.
         VI 
         Absolutamente no  fcil chegar a concluses gerais sobre o valor dos sonhos corretamente traduzidos. Se est ocorrendo no paciente um conflito em virtude 
da ambivalncia, o surgimento, nele, de um pensamento hostil deveras no implica uma derrota permanente de seu impulso afetuoso - quer dizer, uma resoluo do conflito 
-, tampouco nenhuma implicao desse tipo decorre de um sonho com um contedo semelhantemente hostil. Durante um conflito como esse, decorrente da ambivalncia, 
h amide dois sonhos todas as noites, cada qual representando uma atitude oposta. Nesse caso, o progresso reside no ato de se ter logrado um isolamento completo 
dos dois impulsos contrastados podendo cada um deles, com o auxlio de seus reforos inconscientes, ser acompanhado e entendido at seus limites extremos. E, se 
algumas vezes acontece ter sido esquecido um dos dois sonhos ambivalentes, no devemos deixar-nos levar  suposio de que uma deciso foi tomada em favor de determinado 
lado. Ter-se esquecido de um dos sonhos realmente demonstra que, no momento, determinada tendncia est em ascendncia, mas isso procede apenas para o dia, e pode 
ser modificado. A noite seguinte talvez possa trazer a expresso oposta para o primeiro plano. S se pode determinar o verdadeiro estado do conflito levando-se em 
considerao todas as outras indicaes, inclusive as da vida desperta.
         VII 
         A questo do valor a ser atribudo aos sonhos est intimamente relacionada  outra questo de sua suscetibilidade  influncia da 'sugesto' por parte do 
mdico. Os analistas podem, a princpio, ficar alarmados  meno dessa possibilidade. Numa segunda reflexo, contudo, esse alarma ceder lugar ao entendimento de 
que influenciar os sonhos do paciente constitui menos um erro grosseiro por parte do analista ou uma infelicidade para ele, do que a orientao dos pensamentos conscientes 
do paciente.
         O fato de o contedo manifesto dos sonhos ser influenciado pelo tratamento analtico no necessita de provas. Ele decorre de nosso conhecimento de que os 
sonhos se originam da vida desperta e elaboram material dela derivado. As ocorrncias durante o tratamento analtico esto naturalmenteentre as impresses da vida 
desperta e logo se tornam algumas das mais poderosas delas. Assim, no  de surpreender os pacientes sonharem com coisas que o analista debateu com eles e das quais 
neles despertou expectativas. Pelo menos, no  mais surpreendente do que aquilo que est implcito no fato conhecido dos sonhos 'experimentais'.
         Daqui, porm, nosso interesse passa para a questo de saber se os pensamentos onricos latentes, a que h de se chegar pela interpretao, tambm podem 
ser influenciados ou sugeridos pelo analista. E a resposta pertinente mais uma vez deve ser obviamente afirmativa, de vez que uma parte desses pensamentos onricos 
latentes corresponde a formaes pr-conscientes de pensamentos, perfeitamente capazes de ser conscientes, com as quais aquele que sonhou muito bem poderia ter reagido 
s observaes do mdico tambm em seu estado de viglia - estivessem as reaes do paciente em harmonia com essas observaes ou em oposio a elas. De fato, se 
substituirmos o sonho pelos pensamentos onricos nele contidos, a questo de saber at onde se pode sugerir sonhos coincide com a questo mais geral de saber at 
onde um paciente em anlise  acessvel  sugesto.
         Sobre o mecanismo da prpria formao onrica, sobre a elaborao onrica no sentido estrito da palavra, nunca se exerce qualquer influncia. Podemos estar 
inteiramente seguros disso.
         Ao lado daquela parte do sonho que j examinamos - os pensamentos onricos pr-conscientes -, todo sonho verdadeiro contm indicaes dos impulsos desejosos 
reprimidos aos quais ele deve a possibilidade de sua formao. Quem duvida replicar que eles aparecem no sonho porque o sonhador sabe da sua urgncia de produzi-los 
- que eles so esperados pelo analista. O prprio analista acertadamente pensar de outro modo.
         Se um sonho traz  tona situaes que podem ser interpretadas como referentes a cenas do passado do sonhador, parece em especial importante indagar se a 
influncia do mdico tambm pode desempenhar algum papel em contedos de sonho como esses. E essa questo  mais urgente de todas no caso dos sonhos chamados sonhos 
'corroborativos', aqueles que, por assim dizer, 'seguem atrs' da anlise. Com alguns pacientes, esses so os nicos sonhos que se conseguem. Tais pacientes reproduzem 
apenas asexigncias passadas de sua infncia depois de t-las construdo a partir de seus sintomas, associaes e outros sinais, e proposto a eles essas construes. 
Seguem-se ento os sonhos corroborativos, acerca dos quais, contudo, surge a dvida de saber se no podem ser inteiramente despidos de valor probatrio, em vista 
da sua possibilidade de ter sido imaginados em submisso s palavras do analista, em lugar de trazidos  luz desde o inconsciente do sonhador. No se pode fugir 
a essa situao ambgua na anlise, de vez que, com esses pacientes, e a menos que se interprete, construa e proponha, jamais obtemos acesso ao que neles est reprimido.
         A situao assume um aspecto favorvel se a anlise de um sonho corroborativo desse tipo, que 'segue atrs',  imediatamente acompanhada por impresses 
de lembrar o que at ento fora esquecido. O prprio ctico, porm, pode recorrer  assero de que as rememoraes so ilusrias. Ademais, tais impresses na maior 
parte esto ausentes. S se permite que o material reprimido flua fragmento a fragmento, e toda falta de inteireza inibe ou retarda a formao de um senso de convico. 
Mais ainda, aquilo com que estamos lidando pode no ser a reproduo de um acontecimento real e esquecido, mas a apresentao de uma fantasia inconsciente, sobre 
a qual nenhuma impresso de lembrana pode sequer ser esperada, conquanto possa permanecer s vezes a possibilidade de um senso de convico subjetiva.
         Ser possvel, ento, que os sonhos corroborativos sejam realmente resultado da sugesto, que sejam sonhos 'obsequiosos'? Os pacientes que produzem somente 
sonhos corroborativos so os mesmos pacientes em quem a dvida desempenha o papel principal na resistncia. No se faz tentativa de calar essa dvida mediante a 
prpria autoridade ou de reduzi-la mediante argumentos. Ela deve persistir at receber fim no curso ulterior da anlise. Tambm o analista pode reter em si uma dvida 
do mesmo tipo em certos casos especficos. O que o torna certo ao final  exatamente a complicao do problema  sua frente, que se assemelha  soluo de um quebra-cabea. 
Uma figura colorida, colada sobre uma delgada folha de madeira e a ajustar-se exatamente a uma moldura de madeira,  cortada em grande nmero de pedaos dos formatos 
mais irregulares e tortuosos. Conseguindo-se dispor a confusa pilha de fragmentos, cada qual fazendo um pedao ininteligvel do desenho, de modo a que a figura adquira 
um significado, que no haja lacunas em parte alguma dela e que a totalidade se ajuste na moldura - se todas essascondies forem preenchidas, ento sabemos que 
o enigma foi solucionado e no existe soluo alternativa.
         Uma analogia desse tipo naturalmente no pode ter sentido para o paciente enquanto o trabalho de anlise ainda estiver incompleto. Nesse ponto, recordo 
uma discusso a que fui levado com um paciente cuja atitude excepcionalmente ambivalente se expressava pela mais intensa e compulsiva dvida. Ele no discutia minhas 
interpretaes de seus sonhos e ficava muito impressionado com sua adeso s hipteses que eu apresentava. Perguntava, porm, se esses sonhos corroborativos no 
poderiam ser expresso de sua submisso para comigo. Apontei que os sonhos tambm trouxeram  tona uma quantidade de pormenores os quais eu no poderia suspeitar, 
e que, afora isso, sua conduta no tratamento no se caracterizara precisamente pela submisso; ao que ele passou para outra teoria, perguntando se seu desejo narcsico 
de ser curado no poderia t-lo feito produzir esses sonhos, visto afinal de contas eu haver-lhe apresentado uma perspectiva de restabelecimento, pudesse ele aceitar 
as minhas construes. S pude responder que ainda no deparara com nenhum mecanismo de formao onrica desse tipo. Chegou-se, porm, a uma deciso por outro caminho. 
Ele relembrou alguns sonhos passados, antes de iniciar a anlise, e, de fato, antes que tivesse sabido qualquer coisa sobre ela; e a anlise desses sonhos, que estavam 
livres de toda suspeita de sugesto, conduziu s mesmas interpretaes que os posteriores. Na verdade, sua obsesso pela contradio mais uma vez encontrou sada 
na idia de que os primeiros sonhos tinham sido menos claros que os ocorridos durante o tratamento; no entanto, fiquei satisfeito com a sua semelhana. Penso ser, 
em geral, um bom plano manter de tempos em tempos em mente o fato de as pessoas terem o hbito de sonhar antes que existisse uma coisa chamada psicanlise.
         VIII 
          bem plausvel acontecer que os sonhos durante a psicanlise consigam trazer  luz a coisa reprimida em grau maior do que os sonhos tidos fora dessa situao. 
Isso, porm, no se pode provar, de vez que ambas as situaes no so comparveis; o emprego dos sonhos na anlise  algo muito afastado de seu propsito original. 
Em compensao, no se pode duvidar de que, dentro de uma anlise, muito mais a coisa reprimida vem  luz em vinculao com sonhos que por qualquer outro mtodo. 
A ttulo de explicao, deve haver algum poder motivador, alguma fora inconsciente mais bem capacitada aconceder apoio aos propsitos da anlise durante o estado 
de sono, que em outras ocasies. O que est em pauta no pode ser outro fator seno a submisso do paciente em relao ao analista, derivada de seu complexo paterno 
- em outras palavras, a parte positiva daquilo que chamamos de transferncia; e, de fato, em muitos sonhos que recordam o antes esquecido e reprimido,  impossvel 
descobrir qualquer outro desejo inconsciente a que se possa atribuir a fora motivadora para a formao do sonho. Desse modo, se algum deseja sustentar que a maioria 
dos sonhos utilizveis em anlise so sonhos obsequiosos e devem sua origem  sugesto, nada se pode dizer contra essa opinio, do ponto de vista da teoria analtica. 
Nesse caso, preciso apenas acrescentar uma referncia ao que j disse em minhas Introductory Lectures [(1916-17) Conferncia XXVIII], onde tratei da relao entre 
a transferncia e a sugesto, e demonstrei quo pouco a fidedignidade de nossos resultados  afetada por um reconhecimento da operao da sugesto em nosso sentido.
         Em Alm do Princpio de Prazer (1920g) [Edio Standard Brasileira, Vol. XVIII, pg. 31 e segs. IMAGO Editora, 1976] tratei do problema econmico de como 
aquilo que, sob todos os aspectos, constitui experincias aflitivas do primitivo perodo sexual infantil, pode conseguir xito em forar sua passagem a algum tipo 
de reproduo. Fui obrigado a atribuir-lhes um impulso ascendente extraordinariamente forte, sob a forma de 'compulso  repetio' - uma fora capaz de superar 
a represso que, em obedincia ao princpio de prazer, pesa sobre elas -, ainda que somente aps 'o trabalho do tratamento ter ido encontr-la a meio-caminho e afrouxado 
a represso'. Podemos acrescentar, aqui, ser a transferncia positiva que d essa assistncia  compulso  repetio. Assim, fez-se uma aliana entre o tratamento 
e a compulso  repetio, aliana que, em primeira instncia,  dirigida contra o princpio de prazer, e cujo propsito final, porm,  o estabelecimento do domnio 
do princpio de realidade. Como demonstrei na passagem a que estou me referindo, muito amide acontece a compulso  repetio abandonar suas obrigaes sob essa 
aliana e no se contentar com o retorno do reprimido simplesmente sob a forma de imagens onricas.
         Tanto quanto eu possa perceber, no momento, os sonhos ocorrentes em uma neurose traumtica constituem as nicas excees genunas [ibid., Vol. XVIII, pg. 
48 e seg.], e os sonhos de punio as nicas excees aparentes[ibid., Vol. V, pg. 593 e seg., IMAGO Editora, 1972]  regra de que os sonhos se orientam para a 
realizao de desejos. Na ltima classe de sonhos, deparamos com o fato notvel de que, na realidade, nada pertencente aos pensamentos onricos latentes  aproveitado 
no contedo manifesto do sonho. Ao invs, aparece algo inteiramente diferente, que deve ser descrito como uma formao reativa contra os pensamentos onricos, uma 
rejeio e contradio completa deles. Uma ao assim ofensiva contra o sonho apenas pode ser atribuda  instncia crtica do ego e, portanto, deve-se presumir 
que o ltimo, provocado pela realizao inconsciente de desejos, foi temporariamente restabelecido, mesmo durante o estado de sono. Ele poderia ter reagido ao contedo 
indesejado do sonho pelo despertar, mas descobriu na construo do sonho de punio um meio de evitar uma interrupo do sono.
         Por exemplo, no caso dos bem conhecidos sonhos do poeta Rosegger, que debati em A Interpretao de Sonhos [ibid., Vol. V, pgs. 505-10], temos de suspeitar 
da exigncia de uma verso recalcada, com um texto arrogante e jactancioso, no sonho real ao dizer-lhe: 'Voc  um oficial de alfaiate incompetente.' Naturalmente, 
seria intil buscar um impulso desejoso reprimido como fora motivadora para um sonho manifesto como esse; temos de nos contentar com a realizao de desejo de autocrtica.
         Uma estrutura onrica dessa espcie provocar menos espanto se considerarmos quo freqentemente a deformao onrica, agindo a servio da censura, substitui 
um elemento especfico por algo que , em um ou outro sentido, seu oposto ou contrrio. Da,  apenas um curto passo para a substituio de uma parte caracterstica 
do contedo do sonho por uma contradio defensiva, e um passo mais adiante conduzir  substituio de todo o contedo onrico objetvel pelo sonho de punio. 
Gostaria de fornecer alguns exemplos caractersticos da fase intermediria na falsificao do contedo manifesto.
         Eis aqui um extrato do sonho de uma moa com forte fixao no pai, e que tinha dificuldade de falar durante a anlise. Estava sentada em um quarto com uma 
amiga e vestida apenas com um quimono. Um cavalheiro entrou e ela se sentiu embaraada, ele porm, disse: 'Ora, essa  a moa que certa vez vi to bem vestida!' 
- O cavalheiro representava a mim, e, mais atrs, o pai. No entanto, nada podemos aproveitar do sonho, a menos que nos decidamos a substituir o elemento mais importante 
na fala do cavalheiro pelo oposto: 'Essa  a moa que certa vez vi despida e que parecia to bonita ento!' Quando era criana de trs ou quatro anos, dormira por 
algum tempo no mesmo quarto que o pai e tudo leva a sugerir que costumava atirar para trs as roupas em que estava, em seu sono, para agradar ao pai. A repressosubseqente 
de seu prazer de exibir-se era o motivo para sua reserva no tratamento, seu desagrado por mostrar-se abertamente.
         Agora, outra cena do mesmo sonho. Ela estava lendo seu prprio caso clnico, que tinha diante dela, impresso. Ali estava a afirmao de que 'um jovem assassinava 
sua amada - chocolate - o que se inclui em erotismo anal.' Essa ltima frase era um pensamento que ela tivera no sonho,  meno de chocolate. - A interpretao 
desse fragmento do sonho foi ainda mais difcil que a anterior. Surgiu por fim que, antes de ir dormir, ela estivera lendo minha 'History of an Infantile Neurosis' 
(1918b), cujo ponto central  a observao real ou imaginada, por parte de um paciente, dos pais copulando. Ela antes j havia relacionado esse caso clnico ao seu, 
e isso no constitua a nica indicao de que, tambm em seu caso, havia a questo de uma observao da mesma espcie. O jovem assassinando sua amada era uma referncia 
clara a uma viso sdica da cena de cpula. Porm o elemento seguinte, chocolate, era muito afastado da cena. Sua nica associao a chocolate era o costume de sua 
me dizer que o chocolate dava dor de cabea, e ela sustentava haver escutado a mesma coisa de outras mulheres. Ademais, identificar-se em certa ocasio com sua 
me, mediante dores de cabea parecidas com as de sua me. Pois bem, eu no podia descobrir qualquer vnculo entre os dois elementos do sonho, exceto supor que ela 
desejava efetuar um desvio das conseqncias da observao do coito. No, estava ela dizendo, o coito nada tem a ver com a procriao de filhos; os filhos provm 
de algo que se come (como acontece nos contos de fadas), e a meno do erotismo anal, que se parece a uma tentativa de interpretao no sonho, suplementava a teoria 
infantil que invocara em seu auxlio, acrescentando-lhe o nascimento anal.
         X 
         Algumas vezes revela-se algum espanto ante o fato de o ego daquele que sonha poder aparecer duas ou mais vezes no sonho manifesto, ora como ele prprio, 
depois disfarado por trs das figuras de outras pessoas. No decorrer da construo do sonho, a elaborao secundria evidentemente buscouobliterar essa multiplicidade 
do ego, que no se pode ajustar a qualquer situao cnica possvel; ela, porm,  restabelecida pelo trabalho da interpretao. Em si mesma, essa multiplicidade 
no  mais notvel que o aparecimento mltiplo do ego em um pensamento desperto, especialmente quando o ego se divide em sujeito e objeto, coloca uma parte de si 
mesmo como uma instncia observadora e crtica em contraste com a outra, ou compara sua natureza atual com o passado relembrado, que outrora tambm foi ego, por 
exemplo, em frases tais como 'Quando eu penso no que eu fiz a esse homem' ou 'Quando eu penso que tambm eu fui criana outrora'. No entanto, devo rejeitar como 
especulao sem sentido e injustificvel a noo de que todas as figuras que aparecem num sonho devem ser encaradas como fragmentaes e representantes do prprio 
ego daquele que sonha.  suficiente que nos atenhamos com firmeza ao fato de que a separao do ego de um agente observador, crtico e punidor (um ideal do ego) 
tambm deve ser levada em conta na interpretao de sonhos.
         
         
         





























ALGUMAS NOTAS ADICIONAIS SOBRE A
 INTERPRETAO DE SONHOS COMO UM TODO (1925)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         
         EINIGE NACHTRGE ZUM GANZEN DER TRAUMDEUTUNG
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1925 G.S., 3, 172-84.
         1925 Traumlehre, 63-76.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 369-81 (omitindo a Parte III).
         1952 G.W., 1, 559-73.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Some Additional Notes upon Dream-Interpretation as a Whole'
         1943 Int. J. Psycho-Anal., 24 (1-2), 71-4 (Trad. de James Strachey.)
         1950 C.P., 5, 150-62. (Reimpresso revista da traduo acima.)
         
         O Volume III dos Gesammelte Schriften, em que este trabalho pela primeira vez apareceu, foi publicado no outono de 1925. Aproximadamente na mesma poca 
(setembro de 1925), somente o terceiro destes ensaios foi includo no Almanach 1926 (pgs. 27-31) e foi tambm impresso em Imago, 11 (3) (1925), 234-8. Uma reimpresso 
da traduo inglesa do terceiro ensaio s foi includa em Psychoanalysis and the Occult, Nova Iorque, 1953, International Universities Press, 87-90, editado por 
George Devereux. A presente traduo inglesa constitui verso ligeiramente modificada, com notas adicionais, da publicada em 1950.
         Estes trs breves ensaios tiveram uma histria bibliogrfica um tanto acidentada. Como se explicou na Introduo do Editor Ingls a A Interpretao de Sonhos 
(Edio Standard Brasileira, Vol. IV, xviii, IMAGO Editora, 1972), quando a primeira edio coligida das obras de Freud (os Gesammelte Schriften) apareceu, foi decidido 
dedicar o segundo volume a uma reimpresso exata da primeira edio de Die Traumdeutung e recolher no terceiro volume todas as alteraes e acrscimos quele trabalho, 
que haviam sido feitos em suas edies posteriores. Em meio a esse material adicional estavam trs 'Zusatzkapiteln (Captulos Suplementares)' inteiros. Os dois primeiros 
(que tratavam dos smbolos e da elaborao secundria, respectivamente)consistiam quase inteiramente em material antigo que fora adicionado ao livro da segunda edio 
em diante. O Zusatzkapitel C (o presente grupo de artigos) era, porm, inteiramente novo e jamais aparecera em qualquer edio anterior. Entretanto, pouca dvida 
pode haver de que Freud pretendia inclu-lo em todas as edies posteriores de Die Traumdeutung, pois o lugar em que deveria aparecer - ao prprio final do livro 
- fora indicado claramente na reimpresso da primeira edio nos Gesammelte Schriften (2, 538).
         Isso foi em 1925. A seguinte edio normal, em um s volume, de Die Traumdeutung (a oitava), apareceu em 1930. Ela inclua todo o material novo da edio 
de 1925, com a nica exceo do Captulo Suplementar C. Uma das conseqncias imediatas disso foi a sua ausncia tambm na traduo inglesa revista (de Brill) de 
1932. Tampouco  ele includo na edio de Die Traumdeutung que ocupa o volume duplo 2-3 das Gesammelte Werke (1942). De fato, parecia atormentado por infortnios, 
pois foi acidentalmente negligenciado quando chegou a sua vez para incluso no ponto cronolgico correto em G.W., 14, (publicado em 1948) e, finalmente, teve de 
se encontrar lugar para ele no final de G.W., 1, o ltimo volume da srie a aparecer, em 1952. O texto alemo, assim, fora perdido de vista por mais de vinte anos.
         Existe uma explicao possvel para o mais antigo desses acontecimentos - a omisso do captulo na 8 edio de Die Traumdeutung. A aceitao em grande 
parte, por Freud, da genuinidade da telepatia no ltimo destes ensaios provocara em seu primeiro aparecimento fortes protestos de Ernest Jones, com fundamento em 
que prejudicaria a causa da psicanlise nos crculos cientficos, particularmente na Inglaterra. A descrio do episdio dada por Jones (1957, 422 e segs.) mostra 
que Freud no pareceu tocado pelos protestos, mas  concebvel que, sem embargo, tenha-se rendido a eles, a ponto de no incluir o ensaio no cnone do mais famoso 
de todos os seus trabalhos.
         
         (A) OS LIMITES  POSSIBILIDADE DE INTERPRETAO 
         
         Pode-se perguntar se  possvel fornecer uma traduo completa e segura para a linguagem da vida desperta (isto , uma interpretao) de todos os produtos 
da vida onrica. Essa questo no ser tratada aqui abstratamente, mas com referncias s condies em que se trabalha ao interpretar sonhos.
         Nossas atividades mentais perseguem um objetivo til ou um rendimento imediato de prazer. No primeiro caso, aquilo com que estamos lidando so juzos intelectuais, 
preparaes para a ao ou a transmisso de informaes a outras pessoas. No ltimo, descrevemos essas atividades como jogo ou fantasia. O que  til,  (como  
bem sabido) em si apenas um caminho tortuoso at a satisfao prazerosa. Pois bem, sonhar  uma atividade do segundo tipo, mas na verdade , do ponto de vista da 
evoluo, o primeiro.  enganador dizer que os sonhos esto relacionados s tarefas da vida perante ns ou buscam encontrar soluo para os problemas de nosso trabalho 
cotidiano. Isso  assunto do pensamento pr-consciente. Um trabalho til desse tipo est to afastado dos sonhos quanto qualquer inteno de transmitir informaes 
a outra pessoa. Quando um sonho lida com um problema da vida concreta, soluciona-o  maneira de um desejo irracional, e no  maneira de uma reflexo razovel. H 
apenas uma tarefa til, apenas uma funo que pode ser atribuda a um sonho, e ela consiste em guardar da interrupo o sono. Um sonho pode ser descrito como uma 
fantasia a trabalhar em prol da manuteno do sono.
         Da decorre que, em geral, para o ego que dorme  indiferente o que pode ser sonhado durante a noite, desde que o sonho desempenhe sua misso, e que esses 
sonhos desempenham melhor sua funo quando nada se sabe sobre ela aps acordar. Se (como acontece to amide, doutra forma) recordamos os sonhos, mesmo aps anos 
e dcadas, isso sempre significa que houve uma irrupo do inconsciente reprimindo no ego normal. Sem essa concesso aoego, o reprimido no teria consentido em emprestar 
sua ajuda  remoo da ameaa de perturbao do sono. Sabemos ser o fato dessa irrupo que fornece aos sonhos sua importncia para a psicopatologia. Se pudermos 
revelar a fora motivadora de um sonho, conseguiremos informaes insuspeitadas sobre os impulsos reprimidos no inconsciente; por outro lado, se pudermos desfazer 
suas deformaes, entreouviremos o pensamento pr-consciente realizando-se em estados de reflexo interna, que no teriam atrado a conscincia para si mesmos durante 
as horas do dia.
         Ningum pode praticar a interpretao de sonhos como atividade isolada; ela se mantm uma parte do trabalho de anlise. Na anlise dirigimos nosso interesse 
segundo a necessidade, ora para o contedo pr-consciente do sonho, ora para a contribuio inconsciente  sua formao, e amide negligenciamos um dos elementos 
em favor do outro. Tampouco seria de qualquer valia para algum esforar-se por interpretar sonhos fora da anlise. Esse no conseguiria fugir s condies da situao 
analtica e, caso trabalhasse com seus prprios sonhos, estaria empreendendo uma auto-anlise. Esse comentrio no se aplicaria a algum que passasse sem a colaborao 
daquele que sonhou, e procurasse interpretar sonhos pela compreenso interna (insight) intuitiva. No entanto, a interpretao de sonhos, desse tipo, sem referncia 
s associaes daquele que sonhou, permaneceria no caso mais favorvel um virtuosismo no cientfico de valor muito duvidoso.
         Praticando-se a interpretao de sonhos pelo nico procedimento tcnico justificvel, logo se nota que o xito depende inteiramente da tenso da resistncia 
entre o ego desperto e o inconsciente reprimido. O trabalho sob uma 'alta presso da resistncia' exige (como j expliquei noutro lugar [[1]]) uma atitude diferente 
por parte do analista quanto ao trabalho sob uma baixa presso. Em anlise, h ocasionalmente que lidar durante longos perodos com fortes resistncias ainda desconhecidas 
para ns, e de qualquer modo impossveis de superar enquanto permaneceram desconhecidas. Portanto, no  de admirar que apenas determinada parte dos produtos onricos 
de um paciente possa ser traduzida e utilizada, e, mesmo assim, na maior parte das vezes de modo incompleto. Ainda que, devido  prpria experincia, estejamos em 
condies para compreender muitos sonhos, cuja interpretao recebeu pouca contribuio do sonhador, devemos sempre lembrar que a certeza de tais interpretaes 
permanece em dvida, e hesitamos em impingir nossas prprias conjecturas ao paciente.
         Agora, vozes crticas vo-se elevar. No sendo possvel interpretar todo sonho com que se lida, iro objetar que seria preciso deixar de afirmar, mais do 
que se pode estabelecer, e contentar-me em dizer que se pode demonstrarpela interpretao que alguns sonhos tm um significado, mas que, quanto ao resto, nos vemos 
desconhecedores. O prprio fato de o sucesso na interpretao depender da resistncia, porm, absolve o analista da necessidade de tal modstia. Ele pode ter a experincia 
de um sonho, a princpio ininteligvel, tornar-se claro durante a mesmssima hora, aps alguma observao afortunada ter-se libertado de uma das resistncias daquele 
que sonhou. Parte do sonho que o paciente at ento esquecera pode subitamente ocorrer-lhe e trazer a chave da interpretao, ou ento emergir uma nova associao 
que lance luz sobre as trevas. Vez e outra tambm acontece, aps meses ou anos de labor analtico, retornar-se a um sonho que no princpio do tratamento pareceu 
sem sentido e incompreensvel, e agora,  luz do conhecimento obtido nesse meio tempo, contudo,  completamente elucidado. E levando-se ainda em considerao o argumento 
da teoria dos sonhos, de que os produtos onricos modelo das crianas possuem invariavelmente um significado claro e so fceis de interpretar, ser ento justificvel 
asseverar serem os sonhos, muito geralmente, estruturas mentais capazes de interpretao, embora a situao nem sempre possa permitir que se chegue a uma interpretao.
         Descoberta a interpretao de um sonho, nem sempre  fcil decidir se  'completa', isto , se outros pensamentos pr-conscientes tambm no podem ter encontrado 
expresso no mesmo sonho. Nesse caso, devemos considerar provado o sentido que se baseia nas associaes do sonhador e em nossa estimativa da situao, sem por isso 
nos sentirmos obrigados a rejeitar o outro significado. Ele continua sendo possvel, embora no provado; temos de nos acostumar com que o sonho  assim capaz de 
ter muitos significados. Ademais, a culpa aqui devida nem sempre deve ser atribuda  incompleteza do trabalho de interpretao; ela tambm pode ser inerente aos 
prprios pensamentos onricos latentes. Na realidade, pode acontecer na vida desperta, inteiramente  parte da situao de interpretao de sonhos, a incerteza de 
saber se alguma observao ouvida ou alguma informao recebida esto abertas  construo dessa ou daquela forma, ou se aludem a algo mais alm de seu sentido evidente.Uma 
ocorrncia interessante, que foi insuficientemente investigada, pode ser vista onde o mesmo contedo onrico manifesto d simultaneamente expresso a um conjunto 
de idias concretas e a uma seqncia abstrata de pensamento, nelas baseada. Naturalmente,  difcil  elaborao onrica encontrar um meio de representar pensamentos 
abstratos.
         
         (B) RESPONSABILIDADE MORAL PELO CONTEDO DOS SONHOS
         
         No captulo introdutrio desse livro [A Interpretao de Sonhos] (que debate 'A Literatura Cientfica que Trata dos Problemas de Sonhos') demonstrei a maneira 
pela qual escritores reagiram ao que se considera como o fato aflitivo de o contedo desenfreado dos sonhos tantas vezes estar em disparidade com o senso moral daquele 
que sonha. (Deliberadamente evito falar de sonhos 'criminosos', visto tal descrio, que ultrapassaria os limites do interesse psicolgico, parecer-me inteiramente 
desnecessria.) O carter imoral dos sonhos naturalmente proporcionou novo motivo para negar-lhes qualquer valor psquico: se os sonhos so o produto inexpressivo 
de uma atividade mental desordenada, no pode ento haver fundamento para assumir responsabilidade por seu contedo aparente.
         O problema da responsabilidade pelo contedo manifesto dos sonhos foi fundamentalmente deslocado e, na realidade, descartado pelas explicaes fornecidas 
em A Interpretao de Sonhos.
         Sabemos agora que o contedo manifesto  um engano, uma faade. No vale a pena submet-lo a um exame tico ou tomar suas rupturas da moralidade mais a 
srio que seus rompimentos com a lgica ou a matemtica. Quando se fala do 'contedo' dos sonhos, necessariamente a referncia s pode estar sendo feita ao contedo 
dos pensamentos pr-conscientes e do impulso desejoso reprimido, revelados por trs da faade do sonho mediante o trabalho de interpretao. No obstante, essa faade 
imoral tem uma questo a formular-nos. Ouvimos que os pensamentos onricos latentes tm de submeter-se a uma censura severa antes que lhes permitam acesso ao contedo 
manifesto. Ento, como pode acontecer que essa censura, que cria dificuldades sobre coisas mais triviais, falhe to completamente ante esses sonhos manifestamente 
imorais?
         No  fcil chegar-se  resposta, e talvez possa no parecer completamente satisfatria. Submetendo-se, em primeiro lugar, esses sonhos  interpretao, 
descobre-se que alguns deles no ofenderam a censura porque, au fond, no possuem um significado mau. So inocentes jactncias ou identificaes que colocam uma 
mscara de fingimento;no foram censurados porque no contam a verdade. Outros deles, porm - e, devemos admitir, a maioria - realmente significam o que dizem e 
no experimentaram deformao por parte da censura. So expresso de impulsos imorais, incestuosos e perversos ou de lascvias assassinas e sdicas. Aquele que sonha 
reage a muitos desses sonhos despertando assustado, caso em que a situao no mais  obscura para ns. A censura negligenciou sua tarefa, o que foi notado tarde 
demais, e a gerao de ansiedade constitui um substituto para a deformao que foi omitida. Em ainda outros exemplos de tais sonhos, essa exata expresso de afeto 
est ausente. O assunto objetvel  continuado pelo auge da excitao sexual, atingida durante o sono, ou encarado com a mesma tolerncia com que uma pessoa desperta 
poderia encarar uma crise de raiva, um humor de raiva ou a indulgncia em fantasias cruis.
         Nosso interesse na gnese desses sonhos manifestamente imorais , porm, grandemente reduzida quando descobrimos, pela anlise, que a maioria dos sonhos 
- sonhos inocentes, sonhos sem afeto e sonhos de ansiedade - so revelados, quando as deformaes da censura foram desfeitas como a satisfao de impulsos desejosos 
imorais - egostas, sdicos, pervertidos ou incestuosos. Tal como no mundo da vida desperta, esses criminosos mascarados so muito mais comuns que aqueles com a 
viseira levantada. O sonho direto de relaes sexuais com a prpria me, a que Jocasta alude em dipo Rei,  uma raridade em comparao com toda a multiplicidade 
de sonhos que a psicanlise deve interpretar no mesmo sentido.
         Lidei to exaustivamente nessas pginas [isto , de A Interpretao de Sonhos] com essa caracterstica dos sonhos, a qual deveras fornece o motivo para 
sua deformao, que posso passar imediatamente desse tpico para o problema que jaz  nossa frente: devemos assumir responsabilidade pelo contedo dos prprios sonhos? 
Por amor  perfeio seria preciso, contudo, acrescentar que os sonhos nem sempre oferecem realizaes imorais de desejos, mas com freqncia reaes enrgicas contra 
elas sob a forma de 'sonhos de punio'. Noutras palavras, a censura de sonhos pode no apenas expressar-se em deformaes e gerao de ansiedade, mas chegar ao 
ponto de apagar completamente o tema geral imoral e substitu-lo por algo que sirva de expiao, embora nos permita ver o que est por trs. O problema da responsabilidade 
pelo contedoimoral dos sonhos no mais existe para ns, como antigamente existia para escritores que nada sabiam dos pensamentos onricos latentes e da parte reprimida 
de nossa vida mental. Obviamente, temos de nos considerar responsveis pelos impulsos maus dos prprios sonhos. Que mais se pode fazer com eles? A menos que o contedo 
do sonho (corretamente entendido) seja inspirado por espritos estranhos, ele faz parte de seu prprio ser. Se procuro classificar os impulsos presentes, em mim, 
segundo padres sociais, em bons e maus, tenho de assumir responsabilidade por ambos os tipos; e, se em defesa digo que o desconhecido, inconsciente e reprimido 
em mim no  meu 'ego', no estarei baseando na psicanlise minha posio, no terei aceito suas concluses - e talvez serei mais bem ensinado pelas crticas de 
meus semelhantes, pelos distrbios em minhas aes e pela confuso de meus sentimentos. Aprenderei, talvez, que o que estou repudiando no apenas 'est' em mim, 
mas vez e outra 'age' tambm desde mim para fora.
          verdade que, no sentido metapsicolgico, esse contedo reprimido mau no pertence ao meu 'ego' - isto , presumindo que sou um indivduo moralmente inatacvel 
-, porm pertence a um 'id' sobre o qual meu ego se assenta. Esse ego desenvolvido a partir do id contudo forma com ele uma unidade biolgica isolada,  apenas uma 
parte perifrica especialmente modificada dele, e est sujeito s influncias e obedece s sugestes ambas originrias do id. Para qualquer intuito vital, uma separao 
entre o ego e o id seria empreendimento irrealizvel.
         Ademais, se eu cedesse ao meu orgulho moral e tentasse decretar que, para fins de avaliao moral, poderia desprezar o mal no id e no precisaria tornar 
meu ego responsvel por ele, que utilidade isso teria para mim? A experincia me demonstra que, no obstante, eu realmente assumo essa responsabilidade, que sou, 
de certa maneira, compelido a faz-lo. A psicanlise nos tornou familiarizados com uma condio patolgica, a neurose obsessiva, na qual o pobre ego se sente responsvel 
por todos os tipos de impulsos maus, dos quais nada sabe; impulsos que so levantados contra ele na conscincia, e que ele, no entanto,  incapaz de reconhecer. 
Algo, como parte disso, est presente em todapessoa normal.  fato notvel que quanto mais moral ela seja, mais sensvel  sua 'conscincia'.  exatamente como se 
pudssemos dizer que quanto mais saudvel  um homem, mais sujeito a contgios e ao efeito de danos ele fica. Isso sem dvida se deve ao fato de a conscincia ser, 
em si, uma formao reativa contra o mal percebido no id. Quanto mais fortemente o ltimo  suprimido, mais ativa  a conscincia.
         O narcisismo tico da humanidade deveria contentar-se em conhecer que o fato da deformao nos sonhos, assim como a existncia de sonhos de ansiedade e 
sonhos de punio, fornece uma prova to clara de sua natureza moral quanto a interpretao de sonhos proporciona da existncia e fora de sua natureza m. Se algum 
ficar insatisfeito com isso e gostar de ser 'melhor' do que foi criado, deixem-no ver se pode atingir na vida algo mais que hipocrisia ou inibio.
         O mdico deixar ao jurista construir para fins sociais uma responsabilidade que  artificialmente limitada ao ego metapsicolgico.  notrio que as maiores 
dificuldades so encontradas pelas tentativas de derivar de tal construo conseqncias prticas que no estejam em contradio com os sentimentos humanos.
         
         (C) O SIGNIFICADO OCULTO DOS SONHOS 
         
         No parece haver fim para os problemas da vida onrica; isso, porm, s pode ser surpreendente se esquecermos que todos os fenmenos da vida mental reaparecem 
nos sonhos, com o acrscimo de alguns novos, emergentes da natureza especial daqueles. Muitas dentre as coisas que estudamos nos sonhos, porque as encontramos a, 
no obstante pouco ou nada tm a ver com a peculiaridade psicolgica dos sonhos. Assim, por exemplo, o simbolismo no  um problema onrico, mas sim um tpico vinculado 
ao nosso pensar arcaico - nossa 'lngua bsica', como foi apropriadamente chamada pelo paranico. Ele domina os mitos e o ritual religioso to bem quanto os sonhos, 
e o simbolismo onrico sequer pode reivindicar ser peculiar no sentido de ocultar mais especificamente coisas que so sexualmente importantes. Mais, no  de se 
esperar que a explicao dos sonhos de ansiedade seja encontrada na teoria dos sonhos. A ansiedade  mais propriamente um problema da neurose, e tudo quanto resta 
a discutir  o modo como ocorre que a ansiedade possa despertar sob condies onricas.
         A posio  exatamente a mesma, penso eu, na questo da relao dos sonhos com os supostos fatos do mundo oculto. Entretanto, visto os prprios sonhos sempre 
terem sido coisas misteriosas, eles foram colocados em vinculao ntima com os outros mistrios desconhecidos. Indubitavelmente, tambm, eles possuem um direito 
histrico a essa posio, de vez que nas eras primevas, quando nossa mitologia se formava, imagens onricas podem ter tido um desempenho na origem das idias sobre 
espritos.
         Pareceria haver duas categorias de sonhos com direito a serem considerados fenmenos ocultos: os sonhos profticos e os sonhos telepticos. Uma multido 
incontvel de testemunhas fala em favor de ambos, ao passo que contra os dois existe a averso obstinada, ou talvez preconceito, da cincia.
         Com efeito, no pode haver dvida de que existem coisas tais como sonhos profticos, no sentido de seu contedo fornecer determinado tipo deretrato do futuro; 
a nica questo  saber se essas predies coincidem em algum grau observvel com o que, em realidade, subseqentemente acontece. Devo confessar que a esse respeito 
minha resoluo em favor da imparcialidade me desampara. A noo de que existe algum poder mental, afora um clculo acurado, que possa prever com detalhes acontecimentos 
futuros, est, por um lado, muitssimo em contradio com todas as expectativas e suposies da cincia e, por outro, corresponde de muito perto a determinados desejos 
humanos antigos e familiares que a crtica tem de rejeitar como pretenses injustificveis. Tomadas em considerao a infidedignidade, a credulidade e a inconvencibilidade 
da maioria desses relatos, juntamente com a possibilidade de falsificaes da memria facilitadas por causas emocionais e pela inevitabilidade de alguns acertos 
felizes, sou de opinio que, feito isso, pode-se antecipar que o espectro de sonhos profticos verdicos desaparecer no nada. Pessoalmente, jamais experimentei 
algo ou soube de alguma coisa que pudesse encorajar suposio mais favorvel.
         Outra coisa sucede com os sonhos telepticos. Nesse ponto, porm, deve-se esclarecer com toda a nitidez que ningum ainda sustentou estarem os fenmenos 
telepticos - a recepo de um processo mental de uma pessoa por outra, por outros meios que no a percepo sensorial - relacionados exclusivamente aos sonhos. 
Assim, mais uma vez a telepatia no constitui um problema onrico: nosso julgamento sobre ela existir ou no, no necessita basear-se em um estudo dos sonhos telepticos.
         Se submetemos relatrios de ocorrncias telepticas (ou, para falar mais exatamente, de transmisso de pensamentos)  mesma crtica que as histrias de 
outros eventos ocultos, resta uma considervel quantidade de material que no pode ser to facilmente negligenciada. Ademais,  bem mais possvel coletar observaes 
e experincias prprias nesse campo que justificam uma atitude favorvel para com o problema da telepatia, malgrado possam no ser suficientes para acarretar uma 
convico segura. Chega-se  concluso provisria de ser bem plausvel que a telepatia realmente exista e que fornea o ncleo de verdade em muitas outras hipteses 
que doutra maneira seriam incrveis. certamente correto, no que concerne  telepatia, aderir obstinadamente  mesma posio ctica, e s render-se com relutncia 
 fora da evidncia. Acredito ter descoberto uma classe de material, que est isento de dvidas que se podem doutra maneira justificar - como profecias no realizadas 
efetuadas por adivinhos profissionais. Infelizmente, tenho apenas poucas observaes desse tipo  minha disposio; duas dentre elas, porm, me causaram uma impresso 
poderosa. No estou apto a descrev-las em detalhes que produzam efeito semelhante em outras pessoas, e devo restringir-me a apresentar alguns pontos essenciais.
         Uma predio fora feita aos inquiridores (num estranho lugar e por um estranho adivinho, que ao mesmo tempo realizava um ritual, presumivelmente irrelevante), 
de que algo lhes aconteceria em determinada poca, o que, de fato, no se realizou. A data em que a profecia deveria ter-se cumprido j passou h muito tempo. Foi 
notvel que os interessados relataram sua experincia sem escrnio ou desapontamento, e sim com satisfao bvia. No que lhes fora dito estavam includos determinados 
pormenores bem definidos, que pareciam caprichosos e ininteligveis, e que s se teriam justificado caso houvessem acertado o alvo. Por exemplo, a uma mulher de 
27 anos (embora parecesse muito mais jovem), que havia retirado sua aliana de casada, o quiromante disse que ela se casaria e teria dois filhos antes de completar 
23 anos. A mulher estava com 43 anos quando, agora seriamente enferma, contou-me a histria em sua anlise: ela continuara sem filhos. Acaso fosse conhecida sua 
histria particular (que o 'Professor' no saguo de um hotel de Paris certamente ignorava), poder-se-ia entender os dois nmeros includos na profecia. A jovem se 
casara aps uma ligao inusitadamente intensa com o pai e tivera ento um anseio apaixonado por filhos, de modo a poder substituir o marido pelo pai. Aps anos 
de desapontamento, achando-se  beira de uma neurose, obteve a profecia, que lhe prometia - a ventura de sua me. Pois era um fato que essa ltima tivera dois filhos 
pela poca em que contava 32 anos. Assim, somente com o auxlio da psicanlise se tornou possvel fornecer uma interpretao significante das peculiaridades dessa 
pretensa mensagem do exterior. Mas ento, no havia melhor explicao de toda a cadeia inequivocamente determinada de eventos que supor que um forte desejo por parte 
da inquiridora - o desejo inconsciente mais forte,em realidade, de toda a sua vida emocional e a fora motivadora de sua neurose iminente - se tornara manifesto 
ao adivinho por ser-lhe diretamente transferido enquanto sua ateno era distrada pelos desempenhos que efetuava.
         No decurso de experimentos em meu crculo particular tive, com freqncia, a impresso de que recordaes intensa e emocionalmente coloridas podem ser transferidas 
com sucesso, sem muita dificuldade. Tendo-se a coragem de submeter a um exame analtico as associaes da pessoa a quem se supe que os pensamentos sejam transferidos, 
amide vm  luz correspondncias que, de outra maneira, teriam permanecido irreveladas. Com base em certo nmero de experincias, estou inclinado a concluir que 
uma transferncia de pensamentos desse tipo ocorre de modo particularmente fcil no momento em que uma idia emerge do inconsciente ou, em termos tericos, quando 
ela passa do 'processo primrio' para o 'processo secundrio'.
         Apesar da cautela prescrita pela importncia, novidade e obscuridade do assunto, sinto que no seria justificado reter mais tempo essas consideraes sobre 
o problema da telepatia. Tudo isso tem apenas o seguinte a ver com os sonhos: se existem coisas como as mensagens telepticas, no se pode desprezar a possibilidade 
de que elas alcancem algum durante o sono e cheguem  sua conscincia em um sonho. De fato, segundo a analogia de outros materiais perceptuais e intelectuais, surge 
ainda a possibilidade de que mensagens telepticas recebidas no curso do dia s possam ser tratadas durante um sonho da noite seguinte. Ento, nada haveria de contraditrio 
em o material, telepaticamente comunicado, ser modificado e transformado em sonho, como qualquer outro material. Seria satisfatrio se, com o auxlio da psicanlise, 
pudssemos obter um maior e mais bem autenticado conhecimento da telepatia.
         
         






A ORGANIZAO GENITAL INFANTIL (UMA INTERPOLAO NA TEORIA DA SEXUALIDADE) (1923)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DIE INFANTILE GENITALORGANISATION(EINE EINSCHALTUNG IN DIE SEXUALTHEORIE)
         
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1923 Int. Z. Psychoanal., 9 (2), 168-71.
         1924 G.S., 5, 232-7.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 140-6.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 188-93.
         1940 G.W., 13, 291-8.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Infantile Genital Organization of the Libido:A Supplement to the Theory of Sexuality.'
         1924 Int. J. Psycho-Anal., 5, 125-9 (Trad. de Joan Riviere.)
         1924 C.P., 2, 244-9. (Reimpresso da traduo acima.)
         
         A presente traduo inglesa, com o ttulo modificado, baseia-se na publicada em 1924.
         
         Este artigo foi escrito em fevereiro de 1923 (Jones, 1957, 106). Constitui essencialmente, como seu subttulo implica, um acrscimo aos Trs Ensaios sobre 
a Teoria da Sexualidade (1905d), de Freud; e, com efeito, uma nova nota de rodap, fornecendo a essncia do que  aqui apresentado, foi acrescentada  edio daquela 
obra que apareceu no ano seguinte (1924), Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pgs. 205-6, IMAGO Editora, 1972. O ponto de partida deste artigo deriva principalmente 
das Sees 5 e 6 do segundo ensaio, ibid., pgs. 199-204, ambas datando somente de 1915. No entanto, ele tambm encampa idias que sero encontradas nas ltimas 
pginas sobre 'A Disposio  Neurose Obsessiva' (1931i), Edio Standard Brasileira, Vol. XII, pg. 407-9, IMAGO Editora, 1976, bem como diversas que remontam a 
antes ainda, a 'The Sexual Theories of Children' (1908c), Standard Ed., 9, 215-20.
         
         
         
         
         A ORGANIZAO GENITAL INFANTIL (UMA INTERPOLAO NA TEORIA DA SEXUALIDADE)
         
         A dificuldade do trabalho de pesquisa em psicanlise demonstra-se claramente pelo fato de ser-lhe possvel, apesar de dcadas inteiras de observao incessante, 
desprezar aspectos de ocorrncia geral e situaes caractersticas, at que, afinal, elas nos confrontam sob forma inequvoca. As observaes que seguem tm a inteno 
de reparar uma negligncia desse tipo no campo do desenvolvimento sexual infantil.
         Os leitores de meus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905d) dar-se-o conta de que jamais empreendi qualquer remodelao completa dessa obra 
em suas edies posteriores, tendo, porm, mantido a disposio original e acompanhado os progressos efetuados em nosso conhecimento mediante interpolaes e alteraes 
no texto. Assim procedendo, pode amide ter sucedido o que era velho e o que era mais recente antes no admitirem ser fundidos em um todo inteiramente no contraditrio. 
Originalmente, como sabemos, a nfase incidia sobre uma descrio da diferena fundamental existente entre a vida sexual das crianas e a dos adultos; posteriormente, 
as organizaes pr-genitais da libido abriram caminho para o primeiro plano, e tambm o notvel e momentoso fato do incio bifsico do desenvolvimento sexual. Finalmente, 
nosso interesse foi tomado pelas pesquisas sexuais das crianas, e partindo da pudemos reconhecer a ampla aproximao do desfecho final da sexualidade na infncia 
(por volta do quinto ano de idade) para a forma definitiva por ela assumida no adulto. Esse foi o ponto em que deixei as coisas na ltima (1922) edio de meus Trs 
Ensaios.
         Na pg. 60 desse volume, escrevi que 'a escolha de um objeto, tal como mostramos ser caracterstica da fase puberal do desenvolvimento, j foi freqente 
ou habitualmente feita durante os anos de infncia: isto , a totalidade das correntes sexuais passou a ser dirigida para uma nica pessoa em relao  qual elas 
buscam alcanar seus objetivos. Isto , ento, a maior aproximao possvel, na infncia, da forma final assumida pela vida sexual aps a puberdade. A nica diferena 
est no fato de que na infncia a combinao dos instintos parciais e sua subordinao sob a primazia dosgenitais s foram efetuadas muito incompletamente ou no 
o foram de forma alguma. Assim, o estabelecimento desta primazia a servio da reproduo  a ltima fase atravs da qual passa a organizao da sexualidade'.
         Hoje no mais me satisfaria com a afirmao de que, no primeiro perodo da infncia, a primazia dos rgos genitais s foi efetuada muito incompletamente 
ou no o foi de modo algum. A aproximao da vida sexual da criana  do adulto vai muito alm e no se limita unicamente ao surgimento da escolha de um objeto. 
Mesmo no se realizando uma combinao adequada dos instintos parciais sob a primazia dos rgos genitais, no auge do curso do desenvolvimento da sexualidade infantil, 
o interesse nos genitais e em sua atividade adquire uma significao dominante, que est pouco aqum da alcanada na maturidade. Ao mesmo tempo, a caracterstica 
principal dessa 'organizao genital infantil'  sua diferena da organizao genital final do adulto. Ela consiste no fato de, para ambos os sexos, entrar em considerao 
apenas um rgo genital, ou seja, o masculino. O que est presente, portanto, no  uma primazia dos rgos genitais, mas uma primazia do falo.
         Infelizmente, podemos descrever esse estado de coisas apenas no ponto em que afeta a criana do sexo masculino; os processos correspondentes na menina no 
conhecemos. O menino, sem dvida, percebe a distino entre homens e mulheres, porm, de incio, no tem ocasio de vincul-la a uma diferena nos rgos genitais 
dele. Para ele  natural presumir que todos os outros seres vivos, humanos e animais, possuem um rgo genital como o seu prprio; sabemos,  verdade, que ele procura 
um rgo anlogo ao seu tambm nas coisas inanimadas. Essa parte do corpo, facilmente excitvel, inclinada a mudanas e to rica em sensaes, ocupa o interesse 
do menino em alto grau e constantemente estabelece novas tarefas ao seu instinto de pesquisa. Ele quer v-la tambm em outras pessoas, de modo a compar-la com a 
sua, e comporta-se como se tivesse uma vaga idia de que esse rgo poderia e deveria ser maior. A fora impulsiva que essa poro masculina do corpo desenvolver 
posteriormente na puberdade, expressa-se nesse perodo da vida sobretudo como premncia a investigar, como curiosidade sexual. Muitos dos atos de exibicionismo e 
agresso cometidos pelas crianas, e que, em anos posteriores, seriam julgados sem hesitao como expresses deluxria, na anlise demonstram ser experimentos empreendidos 
a servio da pesquisa sexual.
         No decurso dessas pesquisas a criana chega  descoberta de que o pnis no  uma possesso, comum a todas a criaturas que a ela se assemelham. Uma viso 
acidental dos rgos genitais de uma irmzinha ou companheira de brinquedo proporciona a ocasio para essa descoberta. Em crianas inusitadamente inteligentes, a 
observao de meninas urinando ter despertado, mais cedo ainda, a suspeita de que existe aqui algo diferente, e tero efetuado tentativas de repetir suas observaes, 
de modo a conseguir esclarecimentos. Sabemos como as crianas reagem s suas primeiras impresses da ausncia de um pnis. Rejeitam o fato e acreditam que elas realmente, 
ainda assim, vem um pnis. Encobrem a contradio entre a observao e a preconcepo dizendo-se que o pnis ainda  pequeno e ficar maior dentro em pouco, e depois 
lentamente chegam  concluso emocionalmente significativa de que, afinal de contas, o pnis pelo menos estivera l, antes, e fora retirado depois. A falta de um 
pnis  vista como resultado da castrao e, agora, a criana se defronta com a tarefa de chegar a um acordo com a castrao em relao a si prpria. Os desenvolvimentos 
ulteriores so geralmente conhecidos demais para que se torne necessrio recapitul-los aqui. Parece-me, porm, que o significado do complexo de castrao s pode 
ser corretamente apreciado se sua origem na fase da primazia flica for tambm levada em considerao.
         Sabemos tambm em que grau a depreciao das mulheres, o horror a elas e a disposio ao homossexualismo derivam da convico final de que as mulheres no 
possuem pnis. Ferenczi (1923), com toda a justia, recentemente remontou o smbolo mitolgico do horror - a cabea da Medusa -  impresso dos rgos genitais femininos 
desprovidos de pnis.
         No se deve supor, contudo, que a criana efetua rpida e prontamente uma generalizao de sua observao de que algumas mulheres no tm pnis. De qualquer 
modo, ela  impedida de faz-lo porque supe ser a falta de um pnis resultado de ter sido castrada como punio. Ao contrrio, a criana acredita que so apenas 
pessoas desprezveis do sexo feminino que perderam seus rgos genitais - mulheres que, com toda probabilidade, foram culpadas de impulsos inadmissveis semelhantes 
ao seu prprio. Mulheres a quem ela respeita, como sua me, retm o pnis por longo tempo. Para ela, ser mulher ainda no  sinnimo de no ter pnis. Mais tarde, 
quando a criana retoma os problemas da origem e nascimento dos bebs, e adivinha que apenas as mulheres podem dar-lhes nascimento, somente ento tambm a me perde 
seu pnis. E, juntamente, so construdas teorias bastante complicadas para explicar a troca do pnis por um beb. Em tudo isso, os rgos genitais femininos jamais 
parecem ser descobertos. Como sabemos, imagina-se que o beb viva dentro do corpo da me (em seus intestinos) e nasa atravs da sada intestinal. Essas ltimas 
teorias nos levam alm da extenso de tempo abrangida pelo perodo sexual infantil.No  irrelevante manter em mente quais as transformaes sofridas, durante o 
desenvolvimento sexual da infncia, pela polaridade de sexo com que estamos familiarizados. Uma primeira anttese  introduzida com a escolha de objeto, a qual, 
naturalmente, pressupe um sujeito e um objeto. No estgio da organizao pr-genital sdico-anal no existe ainda questo de masculino e feminino; a anttese entre 
ativo e passivo  a dominante. No estdio seguinte da organizao genital infantil, sobre o qual agora temos conhecimento, existe masculinidade, mas no feminilidade. 
A anttese aqui  entre possuir um rgo genital masculino e ser castrado. Somente aps o desenvolvimento haver atingido seu completamento, na puberdade, que a polaridade 
sexual coincide com masculino e feminino. A masculinidade combina [os fatores de] sujeito, atividade e posse do pnis; a feminilidade encampa [os de] objeto e passividade. 
A vagina  agora valorizada como lugar de abrigo para o pnis; ingressa na herana do tero.
         
         
         
























NEUROSE E PSICOSE (1924 [1923])
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         NEUROSE UND PSYCHOSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1924 Int. Z. Psychoanal., 10 (1), 1-5.
         1924 G.S., 5, 418-22.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 163-8.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 186-91.
         1940 G.W., 13, 387-91.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Neurosis and Psychosis'
         1924.P., 2, 250-4. (Trad. de Joan Riviere.)
         
         A presente traduo inglesa baseia-se na de 1924.
         
         Este trabalho foi escrito durante o final do outono de 1923. Constitui uma aplicao de nova hiptese apresentada em O Ego e o Id  questo especfica da 
diferena gentica entre neuroses e psicoses. Esse mesmo debate foi levado adiante em outro artigo, escrito alguns meses aps o atual, 'A Perda da Realidade na Neurose 
e na Psicose' (1924e), pg. 205, adiante. As razes do assunto j haviam sido postas em debate por Freud na Seo III de seu primeiro artigo sobre 'The Neuro-Psychoses 
of Defence' (1894a).
         No segundo pargrafo deste artigo, Freud fala de ele haver sido estimulado por 'uma seqncia de pensamento levantada em outros campos'. Parece provvel 
que estivesse referindo-se a um trabalho sobre a psicanlise da paralisia geral, da autoria de Holls e Ferenczi (1922), que acabara de aparecer, e ao qual Ferenczi 
contribura com uma seo tcnica.
         
         NEUROSE E PSICOSE
         
         Em meu trabalho recentemente publicado, O Ego e o Id (1923b), propus uma diferenciao do aparelho psquico, com base na qual determinado nmero de relacionamentos 
pode ser representado de maneira simples e perspcua. Com referncia a outros pontos - no que concerne  origem e papel do superego, por exemplo - bastante coisa 
permanece obscura e no elucidada. Ora, pode-se razoavelmente esperar que uma hiptese desse tipo se mostre til e prestadia tambm em outras direes, quanto mais 
no seja capacitando-nos a ver o que j conhecemos desde outro ngulo, a agrup-lo de modo diferente e descrev-lo mais convincentemente. Tal aplicao da hiptese 
tambm poderia trazer consigo um retorno proveitoso da cinzenta teoria para o verde perptuo da experincia.
         No trabalho que mencionei, descrevi os numerosos relacionamentos dependentes do ego, sua posio intermediria entre o mundo externo e o id e seus esforos 
para comprazer todos os seus senhores ao mesmo tempo. Em vinculao com uma seqncia de pensamento levantada em outros campos, relativa  origem e preveno das 
psicoses, ocorreu-me agora uma frmula simples que trata com aquilo que talvez seja a mais importante diferena gentica entre uma neurose e uma psicose: a neurose 
 o resultado de um conflito entre o ego e o id, ao passo que a psicose  o desfecho anlogo de um distrbio semelhante nas relaes entre o ego e o mundo externo.
         H certamente bons fundamentos para desconfiar-se de tais solues simples de um problema. Ademais, o mximo que podemos esperar  que essa frmula se mostre 
correta nas linhas gerais e mais grosseiras. Isso, porm, j seria algo. Lembramo-nos tambm, de imediato, de todo um nmero de descobertas e achados que parecem 
apoiar nossa tese. Nossas anlises demonstram todas que as neuroses transferenciais se originam de recuar-se o ego a aceitar um poderoso impulso instintual do id 
ou a ajud-lo a encontrar um escoador ou motor, ou de o ego proibir quele impulso o objeto a que visa. Em tal caso, o ego se defende contra o impulso instintualmediante 
o mecanismo da represso. O material reprimido luta contra esse destino. Cria para si prprio, ao longo de caminhos sobre os quais o ego no tem poder, uma representao 
substitutiva (que se impe ao ego mediante uma conciliao) - o sintoma. O ego descobre a sua unidade ameaada e prejudicada por esse intruso e continua a lutar 
contra o sintoma, tal como desviou o impulso instintual original. Tudo isso produz o quadro de uma neurose. No  contradio que, empreendendo a represso, no fundo 
o ego esteja seguindo as ordens do superego, ordens que, por sua vez, se originam de influncias do mundo externo que encontraram representao no superego. Mantm-se 
o fato de que o ego tomou o partido dessas foras, de que nele as exigncias delas tm mais fora que as exigncias instintuais do id, e que o ego  a fora que 
pe a represso em movimento contra a parte do id interessada e fortifica a represso por meio da anticatexia da resistncia. O ego entrou em conflito com o id, 
a servio do superego e da realidade, e esse  o estado de coisas em toda neurose de transferncia.
         Por outro lado,  igualmente fcil, a partir do conhecimento que at agora obtivemos do mecanismo das psicoses, aduzir exemplos que apontam para um distrbio 
no relacionamento entre o ego e o mundo externo. Na amncia de Meynert - uma confuso alucinatria aguda que constitui talvez a forma mais extrema e notvel de psicose 
- o mundo exterior no  percebido de modo algum ou a percepo dele no possui qualquer efeito. Normalmente, o mundo externo governa o ego por duas maneiras: em 
primeiro lugar, atravs de percepes atuais e presentes, sempre renovveis; e, em segundo, mediante o armazenamento de lembranas de percepes anteriores, as quais, 
sob a forma de um 'mundo interno', so uma possesso do ego e parte constituinte dele. Na amncia no apenas  recusada a aceitao de novas percepes; tambm o 
mundo interno, que, como cpia do mundo externo, at agora o representou, perde sua significao (sua catexia). O ego cria, autocraticamente, um novo mundo externo 
e interno, e no pode haver dvida quanto a dois fatos: que esse novo mundo  construdo de acordo com os impulsos desejosos do id e que o motivo dessa dissociao 
do mundo externo  alguma frustrao muito sria de um desejo, por parte da realidade - frustrao que parece intolervel. A estreita afinidade dessa psicose com 
os sonhos normais  inequvoca.Uma precondio do sonhar, alm do mais,  o estado de sono, e uma das caractersticas do sono  o completo afastamento da percepo 
e do mundo externo.
         Sabemos que outras formas de psicose, as esquizofrenias, inclinam-se a acabar em uma hebetude afetiva - isto , em uma perda de toda participao no mundo 
externo. Com referncia  gnese dos delrios, inmeras anlises nos ensinaram que o delrio se encontra aplicado como um remendo no lugar em que originalmente uma 
fenda apareceu na relao do ego com o mundo externo. Se essa precondio de um conflito com o mundo externo no nos  muito mais observvel do que atualmente acontece, 
isso se deve ao fato de que, no quadro clnico da psicose, as manifestaes do processo patognico so amide recobertas por manifestaes de uma tentativa de cura 
ou uma reconstruo.
         A etiologia comum ao incio de uma psiconeurose e de uma psicose sempre permanece a mesma. Ela consiste em uma frustrao, em uma no-realizao, de um 
daqueles desejos de infncia que nunca so vencidos e que esto to profundamente enraizados em nossa organizao filogeneticamente determinada. Essa frustrao 
, em ltima anlise, sempre uma frustrao externa, mas, no caso individual, ela pode proceder do agente interno (no superego) que assumiu a representao das exigncias 
da realidade. O efeito patognico depende de o ego, numa tenso conflitual desse tipo, permanecer fiel  sua dependncia do mundo externo e tentar silenciar o id, 
ou ele se deixar derrotar pelo id e, portanto, ser arrancado da realidade. Uma complicao  introduzida nessa situao aparentemente simples, contudo, pela existncia 
do superego, o qual, atravs de um vnculo ainda no claro para ns, une em si influncias originrias tanto do id quanto do mundo externo, e constitui, at certo 
ponto, um modelo ideal daquilo a que visa o esforo total do ego: uma reconciliao entre os seus diversos relacionamentos dependentes. A atitude do superego deveria 
ser tomada em considerao - o que at aqui no foi feito - em toda forma de enfermidade psquica. Podemos provisoriamente presumir que tem de haver tambm doenas 
que se baseiam em um conflito entre o ego e o superego. A anlise nos d o direito desupor que a melancolia  um exemplo tpico desse grupo, e reservaramos o nome 
de 'psiconeuroses narcsicas' para distrbios desse tipo. Tampouco colidir com nossas impresses se encontrarmos razes para separar estados como a melancolia das 
outras psicoses. Percebemos agora que pudemos tornar nossa frmula gentica simples mais completa, sem abandon-la. As neuroses de transferncia correspondem a um 
conflito entre o ego e o id; as neuroses narcsicas, a um conflito entre o ego e o superego, e as psicoses, a um conflito entre o ego e o mundo externo.  verdade 
que no podemos dizer imediatamente se de fato com isso lucramos algum conhecimento novo, ou apenas enriquecemos nosso estoque de frmulas; penso, porm, que essa 
possvel aplicao da diferenciao proposta do aparelho psquico em um ego, um superego e um id no pode deixar de dar-nos coragem para manter constantemente em 
vista essa hiptese.
         A tese de que as neuroses e as psicoses se originam nos conflitos do ego com as suas diversas instncias governantes - isto , portanto, de que elas refletem 
um fracasso ao funcionamento do ego, que se v em dificuldades para reconciliar todas as vrias exigncias feitas a ele -, essa tese precisa ser suplementada em 
mais um ponto. Seria desejvel saber em que circunstncias e por que meios o ego pode ter xito em emergir de tais conflitos, que certamente esto sempre presentes, 
sem cair enfermo. Trata-se de um novo campo de pesquisa, onde sem dvida os mais variados fatores surgiro para exame. Dois deles, porm, podem ser acentuados em 
seguida. Em primeiro lugar, o desfecho de todas as situaes desse tipo indubitavelmente depender de consideraes econmicas - das magnitudes relativas das tendncias 
que esto lutando entre si. Em segundo lugar, ser possvel ao ego evitar uma ruptura em qualquer direo deformando-se, submetendo-se a usurpaes em sua prpria 
unidade e at mesmo, talvez, efetuando uma clivagem ou diviso de si prprio. Desse modo as incoerncias, excentricidades e loucuras dos homens apareceriam sob uma 
luz semelhante s suas perverses sexuais, atravs de cuja aceitao poupam a si prprios represses.Em concluso, resta a considerar a questo de saber qual pode 
ser o mecanismo, anlogo  represso, por cujo intermdio o ego se desliga do mundo externo. Isso, penso eu, no pode ser respondido com novas investigaes; porm, 
segundo pareceria, tal mecanismo deve, tal como a represso, abranger uma retirada da catexia enviada pelo ego.
         
         
         
























O PROBLEMA ECONMICO DO MASOQUISMO (1924)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DAS KONOMISCHE PROBLEM DES MASOCHISMUS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1924 Int. Z. Psychoanal., 10 (2), 121-33.
         1924 G.S., 5, 374-86.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 147-62.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 193-207.
         1940 G.W., 13, 371-83.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Economic Problem in Masochism'
         1924 C.P., 2, 255-68. (Trad. de Joan Riviere.)
         
         A presente traduo inglesa, com o ttulo ligeiramente alterado, baseia-se na de 1924.
         
         Este artigo foi terminado antes do final de janeiro de 1924 (Jones, 1957, 114).
         
         Neste importante trabalho, Freud fornece sua descrio mais completa do enigmtico fenmeno do masoquismo. Previamente lidara com ele, mas sempre um tanto 
como tentativa, em seus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905d), Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pgs. 159-62, IMAGO Editora, 1972, no artigo metapsicolgico 
'Os Instintos e suas Vicissitudes' (1915c), Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, pgs. 147-51, IMAGO Editora, 1974, e, em bem maior extenso, em '"A Child is Being 
Beaten"', que ele prprio descreveu, em uma carta a Ferenczi, como 'um artigo sobre o masoquismo'. Em todos esses escritos, o masoquismo deriva de um sadismo anterior; 
no se reconhece uma coisa chamada masoquismo primrio. (Ver, por exemplo, Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, pg. 149, IMAGO Editora, 1974, e Standard Ed., 17, 
193-4.) Em  Alm do Princpio de Prazer (1920g), contudo, aps a introduo do 'instinto de morte', encontramos uma afirmao de que 'pode haver um masoquismo primrio'(Edio 
Standard Brasileira, Vol. XVIII, pg. 75, IMAGO Editora, 1976), e, no presente artigo, a existncia de um masoquismo primrio  tomada como certa.
         A existncia desse masoquismo primrio aqui  explicada principalmente com base na 'fuso' e 'desfuso' das duas classes de instintos - conceito que fora 
examinado extensamente em O Ego e o Id (1923b), publicado menos de um ano antes -, ao passo que a natureza aparentemente autocontraditria de um instinto que visa 
ao desprazer  tratada no interessante debate introdutrio, que, pela primeira vez, faz claramente distino entre o 'princpio de constncia' e o 'princpio de 
prazer'.
         A anlise de Freud demonstra que esse masoquismo primrio ou 'ergeno' conduz a duas formas derivadas. Uma delas, que denomina de 'feminina',  a forma 
que Freud j debatera em seu artigo sobre 'fantasias de espancamento' (1919e). A terceira forma, porm, o 'masoquismo moral', d-lhe oportunidade de ampliar em muitos 
pontos o que fora apenas ligeiramente aflorado em O Ego e o Id, e de descerrar novos problemas em vinculao com sentimentos de culpa e o funcionamento da conscincia.
         
         O PROBLEMA ECONMICO DO MASOQUISMO (1924)
         
         A existncia de uma tendncia masoquista na vida instintual dos seres humanos pode corretamente ser descrita como misteriosa desde o ponto de vista econmico. 
Pois se os processos mentais so governados pelo princpio de prazer de modo tal que o seu primeiro objetivo  a evitao do desprazer e a obteno do prazer, o 
masoquismo  incompreensvel. Se o sofrimento e o desprazer podem no ser simplesmente advertncias, mas, em realidade, objetivos, o princpio de prazer  paralisado 
-  como se o vigia de nossa vida mental fosse colocado fora de ao por uma droga.
         Assim, o masoquismo aparece-nos  luz de um grande perigo, o que de modo algum procede para seu correspondente, o sadismo. Ficamos tentados a chamar o princpio 
de prazer de vigia de nossa vida, antes que simplesmente de nossa vida mental. Nesse caso, porm, somos defrontados pela tarefa de investigar o relacionamento do 
princpio de prazer com as duas classes de instintos que distinguimos, os instintos de morte e os instintos de vida erticos (libidinais), e no podemos avanar 
alm em nossa considerao do problema, at que tenhamos realizado essa tarefa.
         Ser lembrado que assumimos a opinio de que o princpio governante de todos os processos mentais constitui um caso especial da 'tendncia no sentido da 
estabilidade', de Fechner, e, por conseguinte, atribumos ao aparelho psquico o propsito de reduzir a nada ou, pelo menos, de manter to baixas quanto possvel 
as somas de excitao que fluem sobre ele. Barbara Low [1920, 73] sugeriu o nome de 'princpio de Nirvana' para essa suposta tendncia, e ns aceitamos o termo. 
Sem hesitao, porm, temos identificado o princpio de prazer-desprazer com esse princpio de Nirvana. Todo desprazer deve assim coincidir com uma elevao e todo 
prazer com um rebaixamento da tenso mental devida ao estmulo; o princpio de Nirvana (e o princpio de prazer, que lhe  supostamente idntico) estaria inteiramente 
a servio dos instintos de morte, cujo objetivo  conduzir a inquietao da vida para a estabilidade do estadoinorgnico, e teria a funo de fornecer advertncias 
contra as exigncias dos instintos de vida - a libido - que tentam perturbar o curso pretendido da vida. Tal viso, porm, no pode ser correta. Parece que na srie 
de sensaes de tenso temos um sentido imediato do aumento e diminuio das quantidades de estmulo, e no se pode duvidar que h tenses prazerosas e relaxamentos 
desprazerosos de tenso. O estado de excitao sexual constitui o exemplo mais notvel de um aumento prazeroso de estmulo desse tipo, mas certamente no o nico.
         O prazer e o desprazer, portanto, no podem ser referidos a um aumento ou diminuio de uma quantidade (que descrevemos como 'tenso devida a estmulo'), 
embora obviamente muito tenham a ver com esse fator. Parece que eles dependem, no desse fator quantitativo, mas de alguma caracterstica dele que s podemos descrever 
como qualitativa. Se pudssemos dizer o que  essa caracterstica qualitativa, estaramos muito mais avanados em psicologia. Talvez seja o ritmo, a seqncia temporal 
de mudanas, elevaes e quedas na quantidade de estmulo. No sabemos.
         Seja como for, temos de perceber que o princpio de Nirvana, pertencendo, como pertence, ao instinto de morte, experimentou nos organismos vivos uma modificao 
atravs da qual se tornou o princpio de prazer, e doravante evitaremos encarar os dois princpios como um s. Se nos preocupamos em acompanhar essa linha de pensamento, 
no  difcil imaginar a fora que foi a fonte da modificao. Ela s pode ser o instinto de vida, a libido, que assim, lado a lado com o instinto de morte, apoderou-se 
de uma cota na regulao dos processos da vida. Assim, obtemos um conjunto de vinculaes pequeno mas interessante. O princpio de Nirvana expressa a tendncia do 
instinto de morte; o princpio de prazer representa as exigncias da libido, e a modificao do ltimo princpio, o princpio de realidade, representa a influncia 
do mundo externo.
         Nenhum desses trs princpios  realmente colocado fora de ao por outro. Via de regra eles podem tolerar-se mutuamente, embora conflitos estejam fadados 
a surgir ocasionalmente do fato dos objetivos diferentes que so estabelecidos para cada um - num dos casos, uma reduo quantitativa da carga do estmulo; noutro, 
uma caracterstica qualitativa do estmulo, e,por ltimo [no terceiro caso], um adiamento da descarga do estmulo e uma aquiescncia temporria ao desprazer devido 
 tenso.
         A concluso a ser extrada dessas consideraes  que a descrio do princpio de prazer como vigia de nossa vida no pode ser rejeitada.
         Retornemos ao masoquismo. O masoquismo apresenta-se  nossa observao sob trs formas: como condio imposta  excitao sexual, como expresso da natureza 
feminina e como norma de comportamento (behaviour). Podemos, por conseguinte, distinguir um masoquismo ergeno, um masoquismo feminino e um masoquismo moral. O primeiro 
masoquismo, o ergeno - prazer no sofrimento - jaz ao fundo tambm das outras duas formas. Sua base deve ser buscada ao longo de linhas biolgicas e constitucionais 
e ele permanece incompreensvel a menos que se decida efetuar certas suposies sobre assuntos que so extremamente obscuros. A terceira, e sob certos aspectos a 
forma mais importante assumida pelo masoquismo, apenas recentemente foi identificada pela psicanlise como um sentimento de culpa que, na maior parte,  inconsciente; 
ela, porm, j pode ser completamente explicada e ajustada ao restante de nosso conhecimento. O masoquismo feminino, por outro lado,  o mais acessvel s nossas 
observaes e o menos problemtico, e pode ser examinado em todas as suas relaes. Comearemos nosso exame por ele. 
         Possumos suficiente familiaridade com esse tipo de masoquismo nos homens (a quem, devido ao material  minha disposio, restringirei minhas observaes), 
derivado de indivduos masoquistas - e, portanto, amide impotentes -, cujas fantasias se concluem por um ato de masturbao ou representam uma satisfao sexual 
em si prprias. Os desempenhos da vida real de pervertidos masoquistas harmonizam-se completamente com essas fantasias, quer sejam os desempenhos levados a cabo 
como um fim em si prprio, quer sirvam para induzir potncia e conduzir ao ato sexual. Em ambos os casos - pois os desempenhos so, no fim das contas, apenas uma 
execuo das fantasias em jogo - o contedo manifesto  de ser amordaado, amarrado, dolorosamente espancado, aoitado, de alguma maneira maltratado, forado  obedincia 
incondicional, sujado e aviltado.  muito mais raro que mutilaes sejam includas nocontedo, e, ento sujeitas a estritas limitaes A interpretao bvia,  qual 
facilmente se chega,  que o masoquista deseja ser tratado como uma criana pequena e desamparada, mas, particularmente, como uma criana travessa.  desnecessrio 
citar casos para ilustrar isso, pois o material  muito uniforme e acessvel a qualquer observador, mesmo a no analistas. Havendo, porm, uma oportunidade de estudar 
casos em que as fantasias masoquistas foram, de modo especial, ricamente elaboradas, de imediato se descobre que elas colocam o indivduo numa situao caracteristicamente 
feminina; elas significam, assim, ser castrado, ou ser copulado, ou dar  luz um beb. Por essa razo chamei essa forma de masoquismo, a potiori por assim dizer 
[isto , com base em seus exemplos extremos], de forma feminina, embora tantas de suas caractersticas apontem para a vida infantil. Essa estratificao superposta 
do infantil e do feminino encontrar posteriormente uma explicao simples. Ser castrado - ou ser cegado, que o representa - com freqncia deixa um trao negativo 
de si prprio nas fantasias, na condio de que nenhum dano deve ocorrer precisamente aos rgos genitais ou aos olhos. (As torturas masoquistas, incidentalmente, 
com raridade, causam uma impresso to sria quanto as crueldades do sadismo, quer imaginado ou realizado.) Tambm um sentimento de culpa encontra expresso no contedo 
manifesto das fantasias masoquistas; o indivduo presume que cometeu algum crime (cuja natureza  deixada indefinida), a ser expiado por todos aqueles procedimentos 
penosos e atormentadores. Isso se parece com uma racionalizao superficial do tema geral masoquista, mas jaz por trs dela uma vinculao  masturbao infantil. 
Por outro lado, esse fator de culpa fornece uma transio para a terceira forma de masoquismo, a moral.
         O masoquismo feminino que estivemos descrevendo baseia-se inteiramente no masoquismo primrio, ergeno, no prazer no sofrimento. Isso no pode ser explicado 
sem remetermos nosso exame para muito atrs.
         Em meus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, na seo sobre as fontes da sexualidade infantil, apresentei a proposio de que, 'no caso de um grande 
nmero de processos internos a excitao sexual surge como um efeito concomitante, to logo a intensidade desses processos passe alm de certos limites quantitativos'. 
De fato, 'bem pode acontecer que nada de considervel importncia ocorra no organismo sem contribuir com algum componente para a excitao do instinto sexual'.De 
acordo com isso, a excitao do sofrimento e desprazer estaria fadada a ter tambm o mesmo resultado. A ocorrncia de tal excitao libidinal simptica quando h 
tenso devida ao sofrimento e ao desprazer seria um mecanismo fisiolgico infantil que deixa de operar mais tarde. Ela atingiria um grau varivel de desenvolvimento 
em constituies sexuais diferentes, mas, em todo caso, forneceria a fundao psicolgica sobre a qual a estrutura psquica do masoquismo ergeno seria posteriormente 
erigida.
         A inadequao dessa explicao  vista, contudo, no fato de no lanar luz sobre as vinculaes regulares e estreitas do masoquismo com seu correspondente 
na vida instintual, o sadismo. Se remontarmos um pouco atrs, para nossa hiptese das duas classes de instintos que consideramos como operantes no organismo vivo, 
chegamos a outra derivao do masoquismo, a qual, porm, no est em contradio com a anterior. Nos organismos (multicelulares), a libido enfrenta o instinto de 
morte ou destruio neles dominante e procura desintegrar o organismo celular e conduzir cada organismo unicelular separado [que o compe] para um estado de estabilidade 
inorgnica (por mais relativa que essa possa ser). A libido tem a misso de tornar incuo o instinto destruidor e a realiza desviando esse instinto, em grande parte, 
para fora - e em breve com o auxlio de um sistema orgnico especial, o aparelho muscular - no sentido de objetos do mundo externo. O instinto  ento chamado de 
instinto destrutivo, instinto de domnio ou vontade de poder. Uma parte do instinto  colocada diretamente a servio da funo sexual, onde tem um papel importante 
a desempenhar. Esse  o sadismo propriamente dito. Outra poro no compartilha dessa transposio para fora; permanece dentro do organismo e, com o auxlio da excitao 
sexual acompanhante acima descrita, l fica libidinalmente presa.  nessa poro que temos de identificar o masoquismo original, ergeno.
         No dispomos de qualquer compreenso fisiolgica das maneiras e meios pelos quais esse amansamento  do instinto de morte pela libido pode ser efetuado. 
No que concerne ao campo psicanaltico de idias, s podemos presumir que se realiza uma fuso e amalgamao muito ampla, em propores variveis, das duas classes 
de instintos, de modo que jamais temos de lidar com instintos de vida puros ou instintos de morte puros, mas apenas com misturas deles, em quantidades diferentes. 
Correspondendo a uma fuso de instintos desse tipo, pode existir, por efeito de determinadas influncias, uma desfuso deles. No podemos presentemente imaginar 
a extenso das partes dos instintos de morte que se recusam a serem amansadas assim, por estarem vinculadas a misturas de libido.
         Estando-se preparado para desprezar uma pequena falta de exatido, pode-se dizer que o instinto de morte operante no organismo - sadismo primrio -  idntico 
ao masoquismo. Aps sua parte principal ter sido transposta para fora, para os objetos, dentro resta como um resduo seu masoquismo ergeno propriamente dito que, 
por um lado, se tornou componente da libido e, por outro, ainda tem o eu (self) como seu objeto. Esse masoquismo seria assim prova e remanescente da fase de desenvolvimento 
em que a coalescncia (to importante para a vida) entre o instinto de morte e Eros se efetuou. No ficaremos surpresos em escutar que, em certas circunstncias, 
o sadismo, ou instinto de destruio, antes dirigido para fora, projetado, pode ser mais uma vez introjetado, voltado para dentro, regredindo assim  sua situao 
anterior. Se tal acontece, produz-se um masoquismo secundrio, que  acrescentado ao masoquismo original.
         O masoquismo ergeno acompanha a libido por todas as suas fases de desenvolvimento e delas deriva seus revestimentos psquicos cambiantes. O medo de ser 
devorado pelo animal totmico (o pai) origina-se da organizao oral primitiva; o desejo de ser espancado pelo pai provm da fase anal-sdica que a segue; a castrao, 
embora seja posteriormente rejeitada, ingressa no contedo das fantasias masoquistas como um precipitado do estdio ou organizao flica, e da organizao genital 
final surgem, naturalmente, as situaes de ser copulado e de dar nascimento, que so caractersticas da feminilidade. O papel tambm desempenhado no masoquismo 
pelas ndegas  facilmente compreensvel, independentemente de sua base evidente narealidade. As ndegas so a parte do corpo que recebe preferncia ergena na fase 
anal-sdica, tal como o seio na fase oral e o pnis na genital.
         A terceira forma de masoquismo, o masoquismo moral,  principalmente notvel por haver afrouxado sua vinculao com aquilo que identificamos como sexualidade. 
Todos os outros sofrimentos masoquistas levam consigo a condio de que emanem da pessoa amada e sejam tolerados  ordem da pessoa. No masoquismo moral essa restrio 
foi abandonada. O prprio sofrimento  o que importa; ser ele decretado por algum que  amado ou por algum que  indiferente no tem importncia. Pode mesmo ser 
causado por poderes impessoais ou pelas circunstncias; o verdadeiro masoquista sempre oferece a face onde quer que tenha oportunidade de receber um golpe.  muito 
tentador, ao explicar essa atitude, deixar a libido fora de considerao e confinar-se a presumir que, nesse caso, o instinto destrutivo se voltou novamente para 
dentro e agora se enfurece contra o eu (self); contudo, deve haver algum significado no fato de o uso lingstico no ter abandonado a vinculao entre essa forma 
de conduta e o erotismo, e chamar tambm de masoquistas esses ofensores de si prprios.
         Atenhamo-nos a um hbito de nossa tcnica e consideremos primeiramente a forma patolgica extrema e inequvoca desse masoquismo. Descrevi noutro lugar  
como, no tratamento analtico, deparamos com pacientes a quem, devido ao seu comportamento perante a influncia teraputica do tratamento, somos obrigados a atribuir 
um sentimento de culpa 'inconsciente'. Apontei o sinal pelo qual tais pessoas podem ser reconhecidas (uma 'reao teraputica negativa') e no ocultei o fato de 
que a fora de tal impulso constitui uma das mais srias resistncias e o maior perigo ao sucesso de nossos objetivos mdicos ou educativos. A satisfao desse sentimento 
inconsciente de culpa  talvez o mais poderoso bastio do indivduo no lucro (geralmente composto) que aufere da doena - na soma de foras que lutam contra o restabelecimento 
e se recusam a ceder seu estado de enfermidade. O sofrimento acarretado pelas neuroses  exatamente o fator que as torna valiosas para a tendncia masoquista.  
tambm instrutivo descobrir, contrariamente a toda teoria e expectativa, que uma neurose que desafiou todoesforo teraputico pode desvanecer-se se o indivduo se 
envolve na desgraa de um casamento infeliz, perde todo o seu dinheiro ou desenvolve uma doena orgnica perigosa. Em tais casos, uma forma de sofrimento foi substituda 
por outra e vemos que tudo quanto importava era a possibilidade de manter um determinado grau de sofrimento.
         Os pacientes no acreditam facilmente em ns quando lhes falamos sobre o sentimento inconsciente de culpa. J sabem demais por que tormentos - as dores 
da conscincia - se expressa um sentimento consciente de culpa, uma conscincia de culpa e, portanto, no podem admitir que possam abrigar em si mesmos impulsos 
exatamente anlogos, sem estarem no mnimo conscientes deles. At certo ponto, penso eu, podemos enfrentar sua objeo se abandonarmos o termo 'sentimento inconsciente 
de culpa', que, de qualquer modo,  psicologicamente incorreto, e falarmos, em vez disso, de uma 'necessidade de punio', que abrange o estado de coisas observado 
de modo igualmente apropriado. No podemos, porm, impedir-nos de julgar e localizar esse sentimento inconsciente de culpa do mesmo modo como fazemos com o tipo 
consciente.
         Atribumos a funo da conscincia ao superego e reconhecemos a conscincia de culpa como expresso de uma tenso entre o ego e o superego. O ego reage 
com sentimentos de ansiedade (ansiedade de conscincia)   percepo de que no esteve  altura das exigncias feitas por seu ideal, ou superego. O que desejamos 
saber  como o superego veio a desempenhar esse papel exigente e por que o ego, no caso de uma diferena com o seu ideal, deve ter medo.
         Dissemos que a funo do ego  unir e reconciliar as reivindicaes das trs instncias a que serve, e podemos acrescentar que, assim procedendo, ele tambm 
tem no superego um modelo que pode esforar-se por seguir, pois esse superego  tanto um representante do id quanto do mundo externo. Surgiu atravs da introjeo 
no ego dos primeiros objetos dos impulsos libidinais do id - ou seja, os dois genitores. Nesse processo, a relao com esses objetos foi dessexualizada; foi desviada 
de seus objetivos sexuais diretos. Apenas assim foi possvel superar-se o complexo de dipo. O superego reteve caractersticas essenciais das pessoas introjetadas 
- a sua fora, sua severidade, a sua inclinao a supervisar e punir. Como j disse noutro lugar,  facilmente concebvel que, graas  desfuso de instinto que 
ocorre juntamente com essa introduo no ego, a severidade fosse aumentada. O superego - a conscincia em ao no ego - pode ento tornar-se dura, cruel e inexorvel 
contra o ego que est a seu cargo. O Imperativo Categrico de Kant , assim, o herdeiro direto do complexo de dipo.
         No entanto, as mesmas figuras que continuam a operar no superego como a instncia que conhecemos por conscincia, aps terem deixado de ser objetos dos 
impulsos libidinais do id - essas mesmas figuras tambm pertencem ao mundo externo real.  da que elas foram tiradas; seu poder, por trs do qual jazem escondidas 
todas as influncias do passado e da tradio, foi uma da manifestaes de realidade mais intensamente sentidas. Em virtude dessa concorrncia, o superego, o substituto 
do complexo de dipo, tambm se torna um representante do mundo externo real e, assim, torna-se igualmente um modelo para os esforos do ego.
         O complexo de dipo mostra assim ser - como j foi conjecturado num sentido histrico  - a fonte de nosso senso tico individual, de nossa moralidade. O 
curso do desenvolvimento da infncia conduz a um desligamento sempre crescente dos pais e a significao pessoal desses para o superego retrocede para o segundo 
plano. s imagos  que deixam l atrs esto, pois, vinculadas as influncias de professores e autoridades, modelos auto-escolhidos e heris publicamente reconhecidos, 
cujas figuras no mais precisam ser introjetadas por um ego que se tornou resistente. A ltima figura na srie iniciada com os pais  o poder sombrio do Destino, 
que apenas poucos dentre ns so capazes de encarar como impessoal. Pouco h que dizer contra o escritor holandsMultatuli, quando substitui o ????? [Destino] dos 
gregos pelo par divino ???s????????? [Razo e Necessidade], mas todos os que transferem a orientao do mundo para a Providncia, Deus, ou Deus e a Natureza, despertam 
a suspeita de que ainda consideram esses poderes supremos e remotos como uma dupla parental, num sentido mitolgico, e se acreditam vinculados a eles por laos libidinais. 
Em O Ego e o Id [[1]] fiz uma tentativa de derivar o temor realista que a humanidade tem da morte, tambm da mesma viso parental da sorte. Parece muito difcil 
libertar-se dela.
         Aps essas preliminares, podemos retornar  nossa considerao do masoquismo moral. Dissemos que, por seu comportamento durante o tratamento e na vida, 
os indivduos em causa do a impresso de serem moralmente inibidos em grau excessivo, de estarem sob o domnio de uma conscincia especialmente sensvel, embora 
no sejam conscientes em nada dessa ultramoralidade. A uma inspeo mais chegada, podemos perceber a diferena existente entre uma extenso inconsciente da moralidade, 
desse tipo, e o masoquismo moral. Na primeira, o acento recai sobre o sadismo intensificado do superego a que o ego se submete; na ltima, incide no prprio masoquismo 
do ego, que busca punio, quer do superego quer dos poderes parentais externos. Podem perdoar-nos por termos confundido os dois inicialmente, pois em ambos os casos 
se trata de um relacionamento entre o ego e o superego (ou poderes que lhe so equivalentes), e em ambos os casos o que est envolvido  uma necessidade que  satisfeita 
pela punio e pelo sofrimento. Dificilmente, ento, pode ser um pormenor insignificante que o sadismo do superego se torne, na maior parte, ofuscantemente consciente, 
ao passo que a tendncia masoquista do ego permanea, via de regra, oculta ao indivduo e tenha de ser inferida de seu comportamento.
         O fato de o masoquismo moral ser inconsciente nos leva a uma pista bvia. Podemos traduzir a expresso 'sentimento inconsciente de culpa' como significando 
uma necessidade de punio s mos de um poder paterno. Sabemos agora que o desejo, to freqente em fantasias, de ser espancadopelo pai se situa muito prximo do 
outro desejo, o de ter uma relao sexual passiva (feminina) com ele, e constitui apenas uma deformao regressiva deste ltimo. Se inserirmos essa explicao no 
contedo do masoquismo moral, seu contedo oculto se torna claro para ns. A conscincia e a moralidade surgiram mediante a superao, a dessexualizao do complexo 
de dipo; atravs do masoquismo moral, porm, a moralidade mais uma vez se torna sexualizada, o complexo de dipo  revivido e abre-se o caminho para uma regresso, 
da moralidade para o complexo de dipo. Isso no  vantajoso nem para a moralidade nem para a pessoa interessada. Um indivduo pode,  verdade, ter preservado a 
totalidade ou determinada medida de senso tico ao lado de seu masoquismo, mas, alternativamente, grande parte de sua conscincia pode haver-se desvanecido em seu 
masoquismo. Novamente, o masoquismo cria uma tentao a efetuar aes 'pecaminosas', que devem ento ser expiadas pelas censuras da conscincia sdica (como  exemplificado 
em tantos tipos caracterolgicos russos) ou pelo castigo do grande poder parental do Destino. A fim de provocar a punio desse ltimo representante dos pais, o 
masoquista deve fazer o que  desaconselhvel, agir contra seus prprios interesses, arruinar as perspectivas que se abrem para ele no mundo real e, talvez, destruir 
sua prpria existncia real.
         A volta do sadismo contra o eu (self) ocorre regularmente onde uma supresso cultural dos instintos impede que grande parte dos componentes instintuais 
destrutivos do indivduo seja exercida na vida. Podemos supor que essa parte do instinto destrutivo que se retirou aparece no ego como uma intensificao do masoquismo. 
Os fenmenos da conscincia, contudo, levam-nos a inferir que a destrutividade que retorna do mundo externo  tambm assumida pelo superego, sem qualquer transformao 
desse tipo, e aumenta seu sadismo contra o ego. O sadismo do superego e o masoquismo do ego suplementam-se mutuamente e se unem para produzir os mesmos efeitos. 
S assim, penso eu, podemos compreender como a supresso de um instinto pode, com freqncia ou muito geralmente, resultar em um sentimento de culpa, e como a conscincia 
de uma pessoa se torna mais severa e mais sensvel, quanto mais se abstm da agresso contra os outros. Poder-se-ia esperar que um homem, se sabe que tem o hbito 
de evitar o cometimento de atos de agressividade, indesejveis de um ponto de vista cultural, ter por isso uma boa conscincia e vigiar seu ego com menos suspeita. 
A situao geralmente se apresenta como se os requisitos ticos fossem a coisa primriae a renncia ao instinto deles decorresse. Isso deixa inexplicada a origem 
do senso tico. Na realidade, parece acontecer o inverso. A primeira renncia instintual  forada por poderes externos, e somente isso cria o senso tico, que se 
expressa na conscincia e exige uma ulterior renncia ao instinto.
         O masoquismo moral, assim, se torna uma prova clssica da existncia da fuso do instinto. Seu perigo reside no fato de ele originar-se do instinto de morte 
e corresponder  parte desse instinto que escapou de ser voltado para fora, como instinto de destruio. No entanto, de vez que, por outro lado, ele tem a significao 
de um componente ertico, a prpria destruio de si mesmo pelo indivduo no pode se realizar sem uma satisfao libidinal.
         
         
         
         





A DISSOLUO DO COMPLEXO DE DIPO (1924)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         
         DER UNTERGANG DES DIPUSKOMPLEXES
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1924 Int. Z. Psychoanal., 10, (3), 245-52.
         1924 G.S., 5, 423-30.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 169-77.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 191-9.
         1940 G. W., 13, 395-402.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Passing of the Oedipus Complex'
         1924 Int. J. Psycho-Anals., 5 (4), 419-24. (Trad. de Joan Riviere.)
         1924 C.P., 2, 269-76. (Reimpresso da traduo acima.)
         
         A presente traduo inglesa, com o ttulo modificado, baseia-se na de 1924.
         
         Este artigo, escrito nos primeiros meses de 1924, foi, em sua essncia, elaborao de uma passagem de O Ego e o Id ([1]). Reivindica ainda nosso interesse 
especial por dar nfase, pela primeira vez, ao curso diferente tomado pelo desenvolvimento da sexualidade em meninos e meninas. Essa nova linha de pensamento foi 
levada adiante, cerca de dezoito meses mais tarde, no trabalho de Freud sobre 'Algumas Conseqncias Psquicas da Distino Anatmica entre os Sexos' (1925j). A 
histria das opinies cambiantes de Freud sobre esse assunto  debatida na Nota do Editor Ingls ao ltimo artigo ([1]).
         
         A DISSOLUO  DO COMPLEXO DE DIPO
         
         Em extenso sempre crescente, o complexo de dipo revela sua importncia como o fenmeno central do perodo sexual da primeira infncia. Aps isso, se efetua 
sua dissoluo, ele sucumbe  regresso, como dizemos, e  seguido pelo perodo de latncia. Ainda no se tornou claro, contudo, o que  que ocasiona sua destruio. 
As anlises parecem demonstrar que  a experincia de desapontamentos penosos. A menina gosta de considerar-se como aquilo que seu pai ama acima de tudo o mais, 
porm chega a ocasio em que tem de sofrer parte dele uma dura punio e  atirada para fora de seu paraso ingnuo. O menino encara a me como sua propriedade, 
mas um dia descobre que ela transferiu seu amor e sua solicitude para um recm-chegado. A reflexo deve aprofundar nosso senso da importncia dessas influncias, 
porque ela enfatizar o fato de serem inevitveis experincias aflitivas desse tipo, que agem em oposio ao contedo do complexo. Mesmo no ocorrendo nenhum acontecimento 
especial tal como os que mencionamos como exemplos, a ausncia da satisfao esperada, a negao continuada do beb desejado, devem, ao final, levar o pequeno amante 
a voltar as costas ao seu anseio sem esperana. Assim, o complexo de dipo se encaminharia para a destruio por sua falta de sucesso, pelos efeitos de sua impossibilidade 
interna.
         Outra viso  a de que o complexo de dipo deve ruir porque chegou a hora para sua desintegrao, tal como os dentes de leite caem quando os permanentes 
comeam a crescer. Embora a maioria dos seres humanos passe pelo complexo de dipo como uma experincia individual, ele constitui um fenmeno que  determinado e 
estabelecido pela hereditariedade e que est fadado a findar de acordo com o programa, o instalar-se a fase seguinte preordenada de desenvolvimento. Assim sendo, 
no  de grande importnciaquais as ocasies que permitem tal ocorrncia ou, na verdade, que ocasies desse tipo possam ser de algum modo descobertas.
         A justia dessas opinies no pode ser discutida. Ademais, elas so compatveis. H lugar para a viso ontogentica, lado a lado com a filogentica, de 
conseqncias bem maiores. Tambm procede que, mesmo no nascimento, o indivduo est inteiramente destinado a morrer, e talvez sua disposio orgnica j possa conter 
a indicao daquilo que deve morrer. No obstante, continua a ser de interesse acompanhar como esse programa inato  executado e de que maneira nocividades acidentais 
exploram sua disposio.
         Ultimamente nos tornamos mais claramente cnscios que antes, de que o desenvolvimento sexual de uma criana avana at determinada fase, na qual o rgo 
genital j assumiu o papel principal. Esse rgo genital  apenas o masculino, ou, mais corretamente, o pnis; o genital feminino permaneceu irrevelado. Essa fase 
flica, que  contempornea do complexo de dipo, no se desenvolve alm, at a organizao genital definitiva, mas  submersa, e sucedida pelo perodo de latncia. 
Seu trmino, contudo, se realiza de maneira tpica e em conjuno com acontecimentos de recorrncia regular.
         Quando o interesse da criana (do sexo masculino) se volta para os seus rgos genitais, ela revela o fato manipulando-os freqentemente, e ento descobre 
que os adultos no aprovam esse comportamento. Mais ou menos diretamente, mais ou menos brutalmente, pronunciam uma ameaa de que essa parte dele, que to altamente 
valoriza, lhe ser tirada. Geralmente,  de mulheres que emana a ameaa; com muita freqncia, elas buscam reforar sua autoridade por uma referncia ao pai ou ao 
mdico, os quais, como dizem, levaro a cabo a punio. Em certo nmero de casos, as mulheres, elas prprias, mitigam a ameaa de maneira simblica, dizendo  criana 
que no  o seu rgo genital, que na realidade desempenha um papel passivo, que deve ser removido, mas sim sua mo, que  o culpado ativo. Acontece com especial 
freqncia que o menininho seja ameaado com a castrao, no porque brinca com o pnis com a mo, mas porque molha o leito todas as noites e no pode ser levado 
a ser limpo. Os encarregados dele se comportam como se essa incontinncia noturna fosse resultado e prova de ele estar indevidamente interessado em seu pnis, e 
provavelmente tm razo. De qualquer modo, a enurese na cama, de longa durao, deve ser igualada  poluo dos adultos, e  uma expresso da mesma excitao dos 
rgos genitais que impeliu a criana a masturbar-se nesse perodo.
         Bem,  minha opinio ser essa ameaa de castrao o que ocasiona a destruio da organizao genital flica da criana. No de imediato,  verdade, e no 
sem que outras influncias sejam tambm aplicadas; pois, para comear, o menino no acredita na ameaa ou no a obedece absolutamente. A psicanlise recentemente 
ligou importncia a duas experincias por que todas as crianas passam e que, segundo se presume, as preparam para a perda de partes altamente valorizadas do corpo. 
Essas experincias so a retirada do seio materno - a princpio de modo intermitente, e mais tarde, definitivamente - e a exigncia cotidiana que lhes  feita para 
soltarem os contedos do intestino. No existe, porm, prova que demonstre que, ao efetuar-se a ameaa de castrao, essas experincias tenham qualquer efeito. Somente 
quando uma nova experincia lhe surge no caminho, que a criana comea a avaliar a possibilidade de ser castrada, fazendo-o apenas de modo hesitante e de m vontade, 
no sem fazer esforos para depreciar a significao de algo que ela prpria observou.
         A observao que finalmente rompe sua descrena  a viso dos rgos genitais femininos. Mais cedo ou mais tarde a criana, que tanto orgulho tem da posse 
de um pnis, tem uma viso da regio genital de uma menina e no pode deixar de convencer-se da ausncia de um pnis numa criatura assim semelhante a ela prpria. 
Com isso, a perda de seu prprio pnis fica imaginvel e a ameaa de castrao ganha seu efeito adiado.
         No devemos ser to mopes quanto a pessoa encarregada da criana, que a ameaa com a castrao, e no devemos desprezar o fato de que, nessa poca, a masturbao 
de modo algum representa a totalidade de sua vida sexual. Como pode ser claramente demonstrado, ela est na atitude edipianapara com os pais; sua masturbao constitui 
apenas uma descarga genital da excitao sexual pertinente ao complexo, e, durante todos os seus anos posteriores, dever sua importncia a esse relacionamento. 
O complexo de dipo ofereceu  criana duas possibilidades de satisfao, uma ativa e outra passiva. Ela poderia colocar-se no lugar de seu pai,  maneira masculina, 
e ter relaes com a me, como tinha o pai, caso em que cedo teria sentido o ltimo como um estorvo, ou poderia querer assumir o lugar da me e ser amada pelo pai, 
caso em que a me se tornaria suprflua. A criana pode ter tido apenas noes muito vagas quanto ao que constitui uma relao ertica satisfatria, mas certamente 
o pnis devia desempenhar uma parte nela, pois as sensaes em seu prprio rgo eram prova disso. At ento, no tivera ocasio de duvidar que as mulheres possussem 
pnis. Agora, porm, sua aceitao da possibilidade de castrao, seu reconhecimento de que as mulheres eram castradas, punha fim s duas maneiras possveis de obter 
satisfao do complexo de dipo, de vez que ambas acarretavam a perda de seu pnis - a masculina como uma punio resultante e a feminina como precondio. Se a 
satisfao do amor no campo do complexo de dipo deve custar  criana o pnis, est fadado a surgir um conflito entre seu interesse narcsico nessa parte de seu 
corpo e a catexia libidinal de seus objetos parentais. Nesse conflito, triunfa normalmente a primeira dessas foras: o ego da criana volta as costas ao complexo 
de dipo.
         Descrevi noutra parte como esse afastamento se realiza. As catexias de objeto so abandonadas e substitudas por identificaes. A autoridade do pai ou 
dos pais  introjetada no ego e a forma o ncleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibio deste contra o incesto, defendendo assim o ego 
do retorno da catexia libidinal. As tendncias libidinais pertencentes ao complexo de dipo so em parte dessexualizadas e sublimadas (coisa que provavelmente acontece 
com toda transformao em uma identificao) e em parte so inibidas em seu objetivo e transformadas em impulsos de afeio. Todo o processo, por um lado, preservou 
o rgo genital - afastou o perigo de sua perda - e, por outro, paralisou-o - removeu sua funo. Esse processo introduz o perodo de latncia, que agora interrompe 
o desenvolvimento sexual da criana.
         No vejo razo para negar o nome de 'represso' ao afastamento do ego diante do complexo de dipo, embora represses posteriores ocorram pela maior parte 
com a participao do superego que, nesse caso, est apenassendo formado. O processo que descrevemos , porm, mais que uma represso. Equivale, se for idealmente 
levado a cabo, a uma destruio e abolio do complexo. Plausivelmente podemos supor que chegamos aqui  linha fronteiria - nunca bem nitidamente traada - entre 
o normal e o patolgico. Se o ego, na realidade, no conseguiu muito mais que uma represso do complexo, este persiste em estado inconsciente no id e manifestar 
mais tarde seu efeito patognico.
         A observao analtica capacita-nos a identificar ou adivinhar essas vinculaes entre a organizao flica, o complexo de dipo, a ameaa de castrao, 
a formao do superego e o perodo de latncia. Essas vinculaes justificam a afirmao de que a destruio do complexo de dipo  ocasionada pela ameaa de castrao. 
Mas isso no nos livra do problema; h lugar para uma especulao terica que pode perturbar os resultados a que chegamos ou coloc-los sob nova luz. Antes de nos 
fazermos a esse caminho novo, contudo, devemos voltar-nos para uma questo que surgiu no decorrer desse debate e que at agora foi deixada de lado. O processo descrito 
refere-se, como foi expressamente dito, somente a crianas do sexo masculino. Como se realiza o desenvolvimento correspondente nas meninas?
         Nesse ponto nosso material, por alguma razo incompreensvel, torna-se muito mais obscuro e cheio de lacunas. Tambm o sexo feminino desenvolve um complexo 
de dipo, um superego e um perodo de latncia. Ser que tambm podemos atribuir-lhe uma organizao flica e um complexo de castrao? A resposta  afirmativa, 
mas essas coisas no podem ser as mesmas como so nos meninos. Aqui a exigncia feminista de direitos iguais para os sexos no nos leva muito longe, pois a distino 
morfolgica est fadada a encontrar expresso em diferenas de desenvolvimento psquico. A anatomia  o destino', para variar um dito de Napoleo. O clitris na 
menina inicialmente comporta-se exatamente como um pnis, porm quando ela efetua uma comparao com um companheiro de brinquedos do outro sexo, percebe que 'se 
saiu mal'  e sente isso como uma injustia feita a ela e comofundamento para inferioridade. Por algum tempo ainda, consola-se com a expectativa de que mais tarde, 
quando ficar mais velha, adquirir um apndice to grande quanto o do menino. Aqui, o complexo de masculinidade [[1]] das mulheres se ramifica. Uma criana do sexo 
feminino, contudo, no entende sua falta de pnis como sendo um carter sexual; explica-a presumindo que, em alguma poca anterior, possura um rgo igualmente 
grande e depois perdera-o por castrao. Ela parece no estender essa inferncia de si prpria para outras mulheres adultas, e sim, inteiramente segundo as linhas 
da fase flica, encar-las como possuindo grandes e completos rgos genitais - isto , masculinos. D-se assim a diferena essencial de que a menina aceita a castrao 
como um fato consumado, ao passo que o menino teme a possibilidade de sua ocorrncia.
         Estando assim excludo, na menina, o temor da castrao, cai tambm um motivo poderoso para o estabelecimento de um superego e para a interrupo da organizao 
genital infantil. Nela, muito mais que no menino, essas mudanas parecem ser resultado da criao e de intimidao oriunda do exterior, as quais a ameaam com uma 
perda de amor. O complexo de dipo da menina  muito mais simples que o do pequeno portador do pnis; em minha experincia, raramente ele vai alm de assumir o lugar 
da me e adotar uma atitude feminina para com o pai. A renncia ao pnis no  tolerada pela menina sem alguma tentativa de compensao. Ela desliza - ao longo da 
linha de uma equao simblica, poder-se-ia dizer - do pnis para um beb. Seu complexo de dipo culmina em um desejo, mantido por muito tempo, de receber do pai 
um beb como presente - dar-lhe um filho. Tem-se a impresso de que o complexo de dipo  ento gradativamente abandonado de vez que esse desejo jamais se realiza. 
Os dois desejos - possuir um pnis e um filho - permanecem fortemente catexizados no inconsciente e ajudam a preparar a criatura do sexo feminino para seu papel 
posterior. A intensidade comparativamente menor da contribuio sdica ao seu instinto sexual, que fora de dvida podemos vincular ao crescimento retardado de seu 
pnis, torna mais fcil, no caso dela, transformarem-se as tendncias sexuais diretas em tendncias inibidas quanto ao objetivo, de tipo afetuoso. Deve-se admitir, 
contudo, que nossa compreenso interna (insight)desses processos de desenvolvimento em meninas em geral  insatisfatrio, incompleto e vago.
         No tenho dvida de que as relaes cronolgicas e causais, aqui descritas, entre o complexo de dipo, a intimidao sexual (a ameaa de castrao), a formao 
do superego e o comeo do perodo de latncia so de um gnero tpico, porm no desejo asseverar que esse tipo seja o nico possvel. Variaes na ordem cronolgica 
e na vinculao desses eventos esto fadadas a ter um sentido muito importante no desenvolvimento do indivduo.
         Desde a publicao do interessante estudo de Otto Rank, The Trauma of Birth [1924], a prpria concluso obtida atravs dessa modesta investigao, no sentido 
de o complexo de dipo do menino ser destrudo pelo temor da castrao, no pode ser aceita sem maior discusso. No obstante, parece-me prematuro entrar atualmente 
em um debate tal e talvez desaconselhvel iniciar uma crtica ou uma apreciao da opinio de Rank nessa conjuntura.
         
         
         











A PERDA DA REALIDADE NA NEUROSE E NA PSICOSE (1924)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DER REALITTSVERLUST BEI NEUROSE AND PSYCHOSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1924 Int. Z. Psychoanal., 10 (4), 374-9.
         1925 G.S. 6, 409-14.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 178-84.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 199-204.
         1940 G.W., 13, 363-8.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Loss of Reality in Neurosis and Psychosis'
         1924 C.P., 2, 277-82. (Trad. de Joan Riviere.)
         
         Segundo uma declarao em nota de rodap  traduo inglesa (C.P., 2, 277), ela foi, na realidade, publicada antes do original alemo. A presente traduo 
inglesa baseia-se na de 1924.
         Este artigo foi escrito em fins de maio de 1924, pois foi lido por Abraham durante esse ms. Ele prossegue o debate iniciado no trabalho anterior 'Neurose 
e Psicose' (1924b), pg. 215, adiante, o qual amplia e corrige. Algumas dvidas a respeito da validade da distino traada nestes dois trabalhos foram posteriormente 
debatidas por Freud, em seu artigo sobre 'Fetichismo' (1927e).
         
         A PERDA DA REALIDADE NA NEUROSE E NA PSICOSE
         
         Recentemente indiquei como uma das caractersticas que diferenciam uma neurose de uma psicose o fato de em uma neurose o ego, em sua dependncia da realidade, 
suprimir um fragmento do id (da vida instintual), ao passo que, em uma psicose esse mesmo ego, a servio do id, se afasta de um fragmento da realidade. Assim, para 
uma neurose o fator decisivo seria a predominncia da influncia da realidade, enquanto para uma psicose esse fator seria a predominncia do id. Na psicose a perda 
de realidade estaria necessariamente presente, ao passo que na neurose, segundo pareceria, essa perda seria evitada.
         Isso, porm, no concorda em absoluto com a observao que todos ns podemos fazer, de que toda neurose perturba de algum modo a relao do paciente com 
a realidade servindo-lhe de um meio de se afastar da realidade, e que, em suas formas graves, significa concretamente uma fuga da vida real. Essa contradio parece 
sria, porm  facilmente resolvida, e a explicao a seu respeito na verdade nos auxiliar a compreender as neuroses.
         A contradio, pois, existe apenas enquanto mantemos os olhos fixados na situao no comeo da neurose, quando o ego, a servio da realidade, se dispe 
 represso de um impulso instintual. Porm isso no  ainda a prpria neurose. Ela consiste antes nos processos que fornecem uma compensao  parte do id danificada 
- isto , na reao contra a represso e no fracasso da represso. O afrouxamento da relao com a realidade  uma conseqncia desse segundo passo na formao de 
uma neurose, e no deveria surpreender-nos que um exame pormenorizado demonstre que a perda da realidade afeta exatamente aquele fragmento de realidade, cujas exigncias 
resultaram na represso instintual ocorrida.
         Nada de novo existe em nossa caracterizao da neurose como o resultado de uma represso fracassada. Vimos dizendo isso por todo o tempo, e apenas devido 
ao novo contexto onde estamos considerando o assunto foi necessrio repeti-lo.Incidentalmente, a mesma objeo surge de maneira sobremodo acentuada quando estamos 
lidando com uma neurose na qual a causa excitante (a 'cena traumtica')  conhecida e onde se pode ver como a pessoa interessada volta as costas  experincia, e 
a transfere  amnsia. Permitam-me retornar, a ttulo de exemplo, a um caso analisado h muitos anos atrs, em que a paciente, uma jovem, estava enamorada do cunhado. 
De p ao lado do leito de morte da irm, ela ficou horrorizada de ter o pensamento: 'Agora ele est livre e pode casar comigo.' Essa cena foi instantaneamente esquecida 
e assim o processo de regresso, que conduziu a seus sofrimentos histricos, foi acionado. Exatamente nesse caso , ademais, instrutivo aprender ao longo de que 
via a neurose tentou solucionar o conflito. Ela se afastou do valor da mudana que ocorrera na realidade, reprimindo a exigncia instintual que havia surgido - isto 
, seu amor pelo cunhado. A reao psictica teria sido uma rejeio  do fato da morte da irm.
         Poderamos esperar que, ao surgir uma psicose, ocorre algo anlogo ao processo de uma neurose, embora,  claro, entre distintas instncias na mente. Assim, 
poderamos esperar que tambm na psicose duas etapas pudessem ser discernidas, das quais a primeira arrastaria o ego para longe, dessa vez para longe da realidade, 
enquanto a segunda tentaria reparar o dano causado e restabelecer as relaes do indivduo com a realidade s expensas do id. E, de fato, determinada analogia desse 
tipo pode ser observada em uma psicose. Aqui h igualmente duas etapas, possuindo a segunda o carter de uma reparao. Acima disso, porm, a analogia cede a uma 
semelhana muito mais ampla entre os dois processos. O segundo passo da psicose,  verdade, destina-se a reparar a perda da realidade, contudo, no s expensas de 
uma restrio com a realidade - seno de outra maneira, mais autocrtica, pela criao de uma nova realidade que no levanta mais as mesmas objees que a antiga, 
que foi abandonada. O segundo passo, portanto, na neurose como na psicose,  apoiado pelas mesmas tendncias. Em ambos os casos serve ao desejo de poder do id, que 
no se deixar ditar pela realidade. Tanto a neurose quanto a psicose so, pois, expresso de uma rebelio por parte do id contra o mundo externo, de sua indisposio 
- ou, caso preferirem, de sua incapacidade - a adaptar-se s exigncias da realidade,  '?????' [Necessidade]'. A neurose e a psicose diferem uma da outra muito 
mais em sua primeira reao introdutria do que na tentativa de reparao que a segue.
         Por conseguinte, a diferena inicial assim se expressa no desfecho final: na neurose, um fragmento da realidade  evitado por uma espcie de fuga, ao passo 
que na psicose, a fuga inicial  sucedida por uma fase ativa de remodelamento; na neurose, a obedincia inicial  sucedida por uma tentativa adiada de fuga. Ou ainda, 
expresso de outro modo: a neurose no repudia a realidade, apenas a ignora; a psicose a repudia e tenta substitu-la. Chamamos um comportamento de 'normal' ou 'sadio' 
se ele combina certas caractersticas de ambas as reaes - se repudia a realidade to pouco quanto uma neurose, mas se depois se esfora, como faz uma psicose, 
por efetuar uma alterao dessa realidade. Naturalmente, esse comportamento conveniente e normal conduz  realidade do trabalho no mundo externo; ele no se detm, 
como na psicose, em efetuar mudanas internas. Ele no  mais autoplstico, mas aloplstico.
         Em uma psicose, a transformao da realidade  executada sobre os precipitados psquicos de antigas relaes com ela - isto , sobre os traos de memria, 
as idias e os julgamentos anteriormente derivados da realidade e atravs dos quais a realidade foi representada na mente. Essa relao, porm, jamais foi uma relao 
fechada; era continuamente enriquecida e alterada por novas percepes. Assim, a psicose tambm depara com a tarefa de conseguir para si prpria percepes de um 
tipo que corresponda  nova realidade, e isso muito radicalmente se efetua mediante a alucinao. O fato de em tantas formas e casos de psicose as paramnsias, os 
delrios e as alucinaes que ocorrem, serem de carter muito aflitivo e estarem ligados a uma gerao de ansiedade,  sem dvida sinal de que todo o processo de 
remodelamento  levado a cabo contra foras que se lhe opem violentamente. Podemos construir o processo segundo o modelo de uma neurose com o qual estamos familiarizados. 
Nela vemos que uma reao de ansiedade estabelece sempre que o instinto reprimido faz uma arremetida para a frente, e que o desfecho do conflito constitui apenas 
uma conciliao e no proporciona satisfao completa. Provavelmente na psicose o fragmento de realidade rejeitado constantemente se impe  mente, tal como o instinto 
reprimido faz na neurose, e  por isso que, em ambos os casos, os mecanismos tambm so os mesmos. A elucidao dos diversos mecanismos que, nas psicoses, so projetados 
para afastar o indivduo da realidade e para reconstruir essa ltima, constitui uma tarefa para o estudo psiquitrico especializado, ainda no empreendida.
         Existe, portanto, outra analogia entre uma neurose e uma psicose no fato de em ambas a tarefa empreendida na segunda etapa ser parcialmente mal-sucedida, 
de vez que o instinto reprimido  incapaz de conseguir um substituto completo (na neurose) e a representao da realidade no pode ser remodelada em formas satisfatrias 
(no, pelo menos, em todo tipo de doena mental). A nfase, porm,  diferente nos dois casos. Na psicose, ela incide inteiramente sobre a primeira etapa, que  
patolgica em si prpria e s pode conduzir  enfermidade. Na neurose, por outro lado, ela recai sobre a segunda etapa, sobre o fracasso da represso, ao passo que 
a primeira etapa pode alcanar xito, e realmente o alcana em inmeros casos, sem transpor os limites da sade - embora o faa a um certo preo e no sem deixar 
atrs de si traos do dispndio psquico que exigiu. Essas distines, e talvez muitas outras tambm, so resultado da diferena topogrfica na situao inicial 
do conflito patognico - ou seja, se nele o ego rendeu-se  sua lealdade perante o mundo real ou  sua dependncia do id.
         Uma neurose geralmente se contenta em evitar o fragmento da realidade em apreo e proteger-se contra entrar em contato com ele. A distino ntida entre 
neurose e psicose, contudo,  enfraquecida pela circunstncia de que tambm na neurose no faltam tentativas de substituir uma realidade desagradvel por outra que 
esteja mais de acordo com os desejos do indivduo. Isso  possibilitado pela existncia de um mundo de fantasia, de um domnio que ficou separado do mundo externo 
real na poca da introduo do princpio de realidade. Esse domnio, desde ento, foi mantido livre das pretenses das exigncias da vida, como uma espcie de 'reserva'; 
ele no  inacessvel ao ego, mas s frouxamente ligado a ele.  deste mundo de fantasia que a neurose haure o material para suas novas construes de desejoe geralmente 
encontra esse material pelo caminho da regresso a um passado real satisfatrio.
         Dificilmente se pode duvidar que o mundo da fantasia desempenhe o mesmo papel na psicose, e de que a tambm ele seja o depsito do qual derivam os materiais 
ou o padro para construir a nova realidade. Ao passo que o novo e imaginrio mundo externo de uma psicose tenta colocar-se no lugar da realidade - um fragmento 
diferente daquele contra o qual tem de defender-se -, e emprestar a esse fragmento uma importncia especial e um significado secreto que ns (nem sempre de modo 
inteiramente apropriado) chamamos de simblico. Vemos, assim, que tanto na neurose quanto na psicose interessa a questo no apenas relativa a uma perda da realidade, 
mas tambm a um substituto para a realidade.
         

























UMA BREVE DESCRIO DA PSICANLISE (1924 [1923])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         KURZER ABRISS DER PSYCHOANALYSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         (1923 Data da composio)
         1928 G.S., 11, 183-200.
         1940 G.W., 13, 403-27.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Psychoanalysis: Exploring the HiddenRecesses of the Mind'
         1924 Em These Eventful Years: The Twentieth Century in the Making, as Told by Many of its Makers, Vol. II, Cap. LXXIII, 511-23, Londres e Nova Iorque: Encyclopaedia 
Britannica Publishing Co. (Trad. de A. A. Brill.)
         
         A presente traduo inglesa, com o ttulo modificado,  nova, da autoria de James Strachey.
         
         Informa-nos Ernest Jones (1957, 114) que esta matria foi escrita por Freud, a pedido dos editores americanos, em outubro e novembro de 1923. Este trabalho 
deve ser distinguido do artigo escrito cerca de dois anos mais tarde para a prpria Encyclopaedia Britannica (1926f). O texto original alemo, com o ttulo menos 
emocionante que o americano, foi publicado pela primeira vez em 1928.
         
         UMA BREVE DESCRIO DA PSICANLISE (1924 [1923])
         
         I
         
         Pode-se dizer que a psicanlise nasceu com o sculo XX, pois a publicao em que ela emergiu perante o mundo como algo novo - A Interpretao de Sonhos 
- traz a data '1900'. Porm, como bem se pode supor, ela no caiu pronta dos cus. Teve seu ponto de partida em idias mais antigas, que ulteriormente desenvolveu; 
originou-se de sugestes anteriores, as quais elaborou. Qualquer histria a seu respeito deve, portanto, comear por uma descrio das influncias que determinaram 
sua origem, e no desprezar a poca e as circunstncias que precederam sua criao.
         A psicanlise cresceu num campo muitssimo restrito. No incio, tinha apenas um nico objetivo - o de compreender algo da natureza daquilo que era conhecido 
como doenas nervosas 'funcionais', com vistas a superar a impotncia que at ento caracterizara seu tratamento mdico. Os neurologistas daquele perodo haviam 
sido instrudos a terem um elevado respeito por fatos qumico-fsicos e patolgico-anatmicos e estavam ultimamente sob a influncia dos achados de Hitzig e Fritsch, 
de Ferrier, Goltz e outros, que pareciam ter estabelecido uma vinculao ntima e possivelmente exclusiva entre certas funes e partes especficas do crebro. Eles 
no sabiam o que fazer do fator psquico e no podiam entend-lo. Deixavam-no aos filsofos, aos msticos e - aos charlates; e consideravam no cientfico ter qualquer 
coisa a ver com ele. Por conseguinte, no podiam encontrar qualquer abordagem aos segredos das neuroses, e, em particular, da enigmtica 'histeria', que, na verdade, 
era o prottipo de toda a espcie. J em 1885, quando eu estava estudando na Salptrire, descobri que as pessoas se contentavam em explicar as paralisias histricas 
atravs de uma frmula que asseverava serem elas fundadas em ligeiros distrbios funcionais das mesmas partes do crebro que, quando gravemente danificadas, levavam 
s paralisias orgnicas correspondentes.
         Naturalmente, essa falta de compreenso afetava tambm bastante o tratamento desses estados patolgicos. Em geral, ele consistia em medidas destinadas a 
'endurecer' o paciente - na prescrio de remdios e emtentativas, na maioria muito mal imaginadas e executadas de maneira inamistosa, de aplicar-lhe influncias 
mentais por meio de ameaas, zombarias e advertncias, e exortando-o a decidir-se a 'conter-se'. O tratamento eltrico era fornecido como sendo uma cura especfica 
para estados nervosos; porm, todo aquele que se tenha esforado por cumprir as instrues pormenorizadas de Erb [1882], tem de maravilhar-se com o espao que a 
fantasia pode ocupar mesmo naquilo que professa ser uma cincia exata. A guinada decisiva foi dada na dcada de 1880, quando os fenmenos do hipnotismo fizeram mais 
uma tentativa de buscar admisso  cincia mdica - dessa vez com mais sucesso do que tantas vezes antes, graas ao trabalho de Libeault, Bernheim, Heidenhain e 
Forel. O essencial foi ter sido reconhecida a genuinidade desses fenmenos. Uma vez isso admitido, duas lies fundamentais e inesquecveis no podiam deixar de 
ser extradas do hipnotismo. Em primeiro lugar, recebia-se prova convincente de que notveis mudanas somticas afinal de contas podiam ser ocasionadas unicamente 
por influncias mentais, as quais, nesse caso, ns prprios tnhamos colocado em movimento. Em segundo, recebia-se a impresso mais clara - especialmente do comportamento 
dos indivduos aps a hipnose - da existncia de processos mentais que s se poderia descrever como 'inconscientes'. O 'inconsciente',  verdade, h muito tempo 
estivera sob discusso entre os filsofos como conceito terico, mas agora, pela primeira vez, nos fenmenos do hipnotismo ele se tornava algo concreto, tangvel 
e sujeito a experimentao. Independentemente de tudo isso, os fenmenos hipnticos mostravam uma semelhana inequvoca com as manifestaes de algumas neuroses.
         No  fcil superestimar a importncia do papel desempenhado pelo hipnotismo na histria da origem da psicanlise. Tanto de um ponto de vista terico quanto 
teraputico a psicanlise teve s suas ordens um legado que herdou do hipnotismo.
         A hipnose tambm provou ser um auxlio valioso no estudo das neuroses - mais uma vez, primeiro e acima de tudo, da histeria. Os experimentos de Charcot 
criaram grande impresso. Suspeitou ele que certas paralisias ocorridas aps um trauma (um acidente) eram de natureza histrica, e demonstrou que, pela sugesto 
de um trauma sob hipnose, podia provocar artificialmente paralisias do mesmo tipo. Surgiu assim a expectativa de que as influncias traumticas poderiam, em todos 
os casos, ter um desempenho na produo dos sintomas histricos. O prprio Charcot no fez outros esforos no sentido de uma compreenso psicolgica da histeria, 
mas seu aluno, Pierre Janet, retomou a questo e pde demonstrar, com o auxlio da hipnose, que os sintomas da histeria eram firmemente dependentes de certos pensamentosinconscient
es (ides fixes). Janet atribuiu  histeria uma suposta incapacidade constitucional de manter reunidos processos mentais - incapacidade que levava a uma desintegrao 
(dissociao) da vida mental.
         A psicanlise, contudo, de maneira alguma se baseou nessas pesquisas de Janet. O fator decisivo, em seu caso, foi a experincia de um mdico vienense, o 
Dr. Josef Breuer. Em 1881, independentemente de qualquer influncia externa, ele pde, com o auxlio da hipnose, estudar e restituir  sade uma jovem muito bem 
dotada que sofria de histeria. Os achados de Breuer no foram comunicados ao pblico seno quinze anos mais tarde, aps ele haver tomado por colaborador o presente 
autor (Freud). Esse caso de Breuer retm sua significao nica para nossa compreenso das neuroses at o dia de hoje, de modo que no podemos evitar demorar-nos 
nele um pouco mais.  essencial compreender claramente em que consistia sua peculiaridade. A jovem cara enferma enquanto servia de enfermeira para o pai, a quem 
estava ternamente ligada. Breuer pde estabelecer que todos os seus sintomas estavam relacionados a esse perodo de enfermagem e podiam ser por ele explicados. Assim, 
pela primeira vez, tornou-se possvel ganhar uma viso completa de um caso dessa enigmtica neurose, e todos os seus sintomas demonstraram ter significado. Ademais, 
constituiu caracterstica universal dos sintomas terem eles surgido em situaes que envolviam um impulso a uma ao que, contudo, no fora levada a cabo, mas sim, 
por outras razes, fora suprimida. Os sintomas, de fato, haviam aparecido em lugar das aes no efetuadas. Assim, para explicar a etiologia dos sintomas histricos, 
fomos levados  vida emocional do indivduo ( afetividade) e  ao recproca de foras mentais ( dinmica), e, desde ento, essas duas linhas de abordagem nunca 
mais foram abandonadas.
         As causas precipitantes dos sintomas foram comparadas por Breuer aos traumas de Charcot. Ora, constitua fato notvel que todas essas causas precipitantes 
traumticas e todos os impulsos mentais que delas se originavam estavam perdidos para a memria da paciente, como se jamais houvessem acontecido, ao passo que seus 
produtos - os sintomas - persistiam inalterados, como se, no que lhes concernia, no existisse aquilo denominado de efeito obliterador do tempo. Aqui, portanto, 
tnhamos uma nova prova da existncia de processos mentais que eram inconscientes, mas, por essa razo, especialmente poderosos - processos que primeiro vnhamos 
conhecendo na sugesto ps-histrica. O procedimento teraputico adotado por Breuerfoi induzir a paciente sob hipnose a relembrar os traumas esquecidos e reagir 
a eles com poderosas expresses de afeto. Quando isso era feito, o sintoma, que at ento tomara o lugar dessas expresses de emoo, desaparecia. Dessa maneira, 
um s e mesmo procedimento servia simultaneamente aos propsitos de investigar o mal e livrar-se dele, e essa conjuno fora do comum foi posteriormente conservada 
pela psicanlise.
         Aps o presente autor, durante o comeo da dcada de 1890, ter confirmado os resultados de Breuer em considervel nmero de pacientes, ambos, Breuer e Freud, 
decidiram conjuntamente uma publicao, Estudos sobre Histeria (1895d), que continha suas descobertas e a tentativa de uma teoria nelas baseada. Asseverava esta 
que os sintomas histricos surgiam quando o afeto de um processo mental catexizado por um forte afeto era impedido pela fora de ser conscientemente elaborado da 
maneira normal, e era assim desviado para um caminho errado. Nos casos de histeria, segundo essa teoria, o afeto passava para uma inervao somtica fora do comum 
('converso'), mas se lhe podia dar uma outra direo e ver-se livre dele ('ab-reagido') se a experincia fosse revivida sob hipnose. Os autores davam a esse procedimento 
o nome de 'catarse' (purgar, liberar um afeto estrangulado).
         O mtodo catrtico foi o precursor imediato da psicanlise, e, apesar de toda a ampliao da experincia e toda modificao da teoria, ainda est nela contido 
como seu ncleo. Ele, porm, no era mais que um novo procedimento mdico para influenciar certas doenas nervosas e nada sugeria que se pudesse tornar tema para 
o interesse mais geral e para a contradio mais violenta. 
         
         II
         
         Logo aps a publicao de Estudos sobre a Histeria, a associao entre Breuer e Freud terminou. Breuer, que na realidade era consultor em medicina interna, 
abandonou o tratamento de pacientes nervosos e Freud dedicou-se ao aperfeioamento ulterior do instrumento que lhe deixara seu colaborador mais idoso. As novidades 
tcnicas que introduziu e as descobertas que efetuou transformaram o mtodo catrtico em psicanlise. O passo mais momentoso foi sem dvida sua determinao de passar 
sem a assistncia da hipnose em seu procedimento tcnico. Procedeu assim por duas razes: em primeiro lugar porque, apesar de um curso de instruo com Bernheim 
em Nancy, ele no conseguia induzir a hipnose em um nmero suficiente de casos, e, em segundo, porque estava insatisfeito com os resultados teraputicos da catarse 
baseada na hipnose.  verdade que esses resultados eram notveis e apareciam aps um tratamento de curta durao, porm demonstravam no serem permanentes e dependerem 
demais das relaes pessoais do paciente com o mdico. O abandono da hipnose causou uma brecha no curso do desenvolvimento do procedimento at ento e significou 
um novo comeo.
         A hipnose, contudo, desempenhara o servio de restituir  lembrana do paciente aquilo que ele havia esquecido. Era necessrio encontrar alguma outra tcnica 
para substitu-la e a Freud ocorreu a idia de colocar em seu lugar o mtodo da 'associao livre'. Isso equivale a dizer que ele fazia seus pacientes assumirem 
o compromisso de se absterem de qualquer reflexo consciente e se abandonarem em um estado de tranqila concentrao, para seguir as idias que espontaneamente (involuntariamente) 
lhe ocorressem - 'a escumarem a superfcie de suas conscincias'. Deveriam comunicar essas idias ao mdico, mesmo que sentissem objees em faz-lo; por exemplo, 
se os pensamentos parecessem desagradveis, insensatos, muito sem importncia ou irrelevantes demais. A escolha da associao livre como meio de investigar o material 
inconsciente esquecido parece to estranha que uma palavra em justificao dela no estar fora de lugar. Freud foi levado a ela pela expectativa de que a chamada 
associao 'livre' mostrasse de fato no ser livre, porquanto aps suprimidos todos os propsitos intelectuais conscientes, as idias que emergissem pareceriam ser 
determinadas pelo material inconsciente. Essa expectativa foi justificada pela experincia. Quando a 'regra fundamental da psicanlise', que acaba de ser enunciada, 
era obedecida, o curso da associao livre produzia um estoque abundante de idias que podiam nos colocar na pista daquilo que o paciente havia esquecido. Com efeito, 
esse material no trazia  tona o que realmente fora esquecido, mas trazia to claras e numerosas aluses a ele que, com o auxlio de certa suplementao e interpretao, 
o mdico podia adivinhar (ou reconstruir) o material esquecido a partir dele. Assim, a associao livre, juntamente com a arte da interpretao, desempenhava a mesma 
funo que anteriormente fora realizada pelo hipnotismo.
         Parecia como se nosso trabalho houvesse ficado mais difcil e complicado; no entanto, o lucro inestimvel estava em que se obtinha agora uma compreenso 
interna (insight) de uma ao recproca de foras que haviam estado ocultas do observador pelo estado hipntico. Tornou-se evidente que o trabalho de revelar o que 
havia sido patogenicamente esquecido tinha de lutar contra uma resistncia constante e muito intensa. As prprias objees crticas que o paciente levantava a fim 
de evitar comunicar as idias que lhe ocorriam, e contra as quais a regra fundamental da psicanlise era dirigida, j eram manifestaes dessa resistncia. Uma considerao 
dos fenmenos da resistncia conduziu-nos a uma das pedras angulares da teoria psicanaltica das neuroses - a teoria da represso. Era plausvel supor que as mesmas 
foras, agora ento em luta contra o material patognico a ser tornado consciente, haviam realizado em poca anterior, com sucesso, os mesmos esforos. Preenchia-se, 
assim, uma lacuna na etiologia dos sintomas neurticos. As impresses e impulsos mentais, para os quais os sintomas estavam agora servindo de substitutos, no tinham 
sido esquecidos sem razo ou por causa de uma incapacidade constitucional para a sntese (como Janet supunha); atravs da influncia de outras foras mentais tinham-se 
defrontado com uma represso cujo sucesso e prova eram precisamente estarem eles barrados  conscincia e excludos da memria. Apenas em conseqncia dessa represso 
 que eles se haviam tornado patognicos, isto , haviam tido xito em manifestar-se ao longo de caminhos fora do comum, tais como os sintomas.
         Um conflito entre dois grupos de tendncias mentais deve ser encarado como o fundamento para a represso, e, por conseguinte, como a causa de toda enfermidade 
neurtica. E aqui a experincia nos ensinou um fato novo e surpreendente sobre a natureza das foras que estiveram lutando uma contra a outra. A represso invariavelmente 
procedia da personalidade consciente da pessoa enferma (seu ego) e baseava-se em motivos estticos e ticos; osimpulsos sujeitos  represso eram os do egosmo e 
da crueldade, que em geral podem ser resumidos como o mal, porm, acima de tudo, impulsos desejosos sexuais, freqentemente da espcie mais grosseira e proibida. 
Assim, os sintomas constituam um substituto para satisfaes proibidas e a molstia parecia corresponder a uma subjugao incompleta do lado imoral dos seres humanos.
         O progresso em conhecimento tornou ainda mais claro o enorme papel desempenhado na vida mental pelos impulsos desejosos sexuais, e levou a um estudo pormenorizado 
da natureza e desenvolvimento do instinto sexual. Tambm deparamos, porm, com outro achado puramente emprico, na descoberta de que as experincias e conflitos 
dos primeiros anos da infncia representam uma parte insuspeitadamente importante no desenvolvimento do indivduo e deixam atrs de si disposies indelveis que 
se abatem sobre o perodo da maturidade. Isso nos trouxe  revelao de algo que at ento fora fundamentalmente negligenciado pela cincia - a sexualidade infantil, 
que, da mais tenra idade em diante, se manifesta tanto em reaes fsicas quanto em atitudes mentais. A fim de reunir essa sexualidade das crianas com o que  descrito 
como sendo a sexualidade normal dos adultos e a vida sexual anormal dos pervertidos, o conceito do que era sexual devia, ele prprio, ser corrigido e ampliado de 
uma forma que pudesse ser justificada pela evoluo do instinto sexual.
         Aps a hipnose ter sido substituda pela tcnica da associao livre, o procedimento catrtico de Breuer transformou-se em psicanlise, que por mais de 
uma dcada foi desenvolvida pelo autor (Freud), sozinho. Durante esse tempo ela gradativamente adquiriu uma teoria que parecia fornecer uma descrio satisfatria 
da origem, significado e propsito dos sintomas neurticos, e proporcionava uma base racional para tentativas mdicas de curar a queixa. Mais uma vez enumerei os 
fatores que contribuem para a constituio dessa teoria. So eles: nfase na vida instintual (afetividade), na dinmica mental, no fato de que mesmo os fenmenos 
mentais aparentemente mais obscuros e arbitrrios possuem invariavelmente um significado e uma causao, a teoria do conflito psquico e da natureza patognica da 
represso, a viso de que os sintomas constituem satisfaes substitutas, o reconhecimento da importncia etiolgica da vida sexual, e especificamente, dos primrdios 
da sexualidade infantil. De um ponto de vista filosfico, essa teoria estava fadada a adotar a opinio de que o mental no coincide com oconsciente, que os processos 
mentais so, em si prprios, inconscientes e s se tornam conscientes pelo funcionamento de rgos especiais (instncias ou sintomas). Para completar essa lista 
acrescentarei que entre as atitudes afetivas da infncia a complicada relao emocional das crianas com os pais - o que  conhecido por complexo de dipo - surgiu 
em proeminncia. Ficou cada vez mais claro que ele era o ncleo de todo caso de neurose, e no comportamento do paciente para com seu analista surgiram certos fenmenos 
de sua transferncia emocional que vieram a ser de grande importncia para a teoria e a tcnica, do mesmo modo.
         Na forma que ela assim assumiu, a teoria psicanaltica das neuroses j encerrava determinado nmero de coisas que iam de encontro a opinies e inclinaes 
aceitas e estavam talhadas a provocar espanto, repugnncia e ceticismo em estranhos; por exemplo, a atitude da psicanlise para com o problema do inconsciente, seu 
reconhecimento de uma sexualidade infantil e a nfase que concedia ao fator sexual na vida mental em geral. Mais coisas, porm, deveriam seguir-se. 
         
         III
         
         Mesmo para chegar a meio-caminho da compreenso de como, em uma jovem histrica, um desejo sexual proibido pode transformar-se em um sintoma penoso, foi 
necessrio efetuar hipteses complicadas e de grandes conseqncias sobre a estrutura e o funcionamento do aparelho psquico. Havia aqui uma contradio evidente 
entre o dispndio de esforo e o resultado. Se as condies postuladas pela psicanlise realmente existissem, seriam de natureza fundamental e deveriam ser capazes 
de encontrar expresso noutros fenmenos, alm dos histricos. No entanto, se essa inferncia fosse correta, a psicanlise teria cessado de ter interesse apenas 
para os neurologistas; poderia reivindicar a ateno de todos para quem a pesquisa psicolgica tivesse alguma importncia. Seus achados no s teriam de ser levados 
em considerao no campo da vida mental patolgica, como tampouco poderiam ser negligenciados no atingir uma compreenso do funcionamento normal.
         Provas de ela ser til para lanar luz sobre outras atividades que no a atividade mental patolgica, logo se apresentaram, em vinculao com dois tipos 
de fenmenos: as parapraxias muito freqentes que ocorrem na vida cotidiana - tais como esquecer coisas, lapsos de lngua e colocao errada de objetos - e os sonhos 
tidos por essas pessoas sadias e psiquicamente normais. Pequenas falhas de funcionamento, tais como o esquecimento temporrio de nomes prprios normalmente familiares, 
lapsos de lngua e de escrita, e assim por diante, at ento no tinham sido considerados dignos de qualquer explicao, ou se imaginava que fossem explicveis por 
estados de fadiga, pela distrao da ateno etc. O presente autor demonstrou ento, a partir de muitos exemplos, em seu livro The Psychopathology of Everyday Life 
(1901b), que acontecimentos desse tipo tm um significado ou surgem devido a uma inteno consciente com a qual interfere uma outra, suprimida ou realmente inconsciente. 
Via de regra, uma rpida reflexo ou breve anlise  suficiente para revelar a influncia interferente. Devido  freqncia de parapraxias tais como os lapsos de 
lngua, tornou-se fcil a qualquer pessoa convencer-se, por sua prpria experincia, sendo, no obstante, operantes, e que, pelo menos, encontram expresso como 
inibies e modificaes de outros atos pretendidos.
         A anlise dos sonhos levou mais longe: ela foi trazida a pblico pelo presente autor j em 1900, em A Interpretao de Sonhos, que demonstrava serem os 
sonhos construdos exatamente da mesma maneira que os sintomas neurticos. Como esses ltimos, eles podem parecer estranhos e sem sentido;porm, se os examinarmos 
atravs de uma tcnica que pouco difere da associao livre utilizada na psicanlise, somos levados de seu contedo manifesto a um significado secreto, aos pensamentos 
onricos latentes. Esse significado latente  sempre um impulso desejoso, o qual se representa como realizado no momento do sonho. Entretanto, exceto em crianas 
pequenas e sob a presso de necessidades fsicas imperativas, esse desejo secreto jamais pode ser expresso de modo identificvel. Ele primeiro tem de se submeter 
a uma deformao, que  o trabalho de foras censurantes, restritivas, tal como  relembrado na vida desperta. Ele  deformado, a ponto de ser irreconhecvel, por 
concesses feitas  censura do sonho, porm pode ser, atravs da anlise, mais uma vez revelado como expresso de uma situao de satisfao ou como a realizao 
de um desejo.  uma conciliao entre grupos conflitantes de tendncias mentais, tal como descobrimos ser o caso com os sintomas histricos. A frmula que, no fundo, 
melhor atende  essncia do sonho  esta: o sonho  uma realizao (disfarada) de um desejo (reprimido). O estudo do processo que transforma o desejo latente realizado 
no sonho no contedo manifesto do sonho - processo conhecido como 'trabalho do sonho' - ensinou-nos a maior parte do que sabemos sobre a vida mental inconsciente.
         Ora, o sonho no constitui um sintoma mrbido, mas  o produto de uma mente normal. Os desejos que ele representa como realizados so os mesmos que aqueles 
reprimidos nas neuroses. Os sonhos devem a possibilidade de sua gnese simplesmente  circunstncia favorvel de a represso, durante o estado de sono que paralisa 
o poder de movimento do homem, ser mitigada na censura do sonho. Assim, prova-se que as mesmas foras e os mesmos processos que se realizam entre elas operam tanto 
na vida mental moral quanto na patolgica. A partir da data de A Interpretao de Sonhos, a psicanlise teve uma dupla significao. Constitui no apenas um novo 
mtodo de tratar as neuroses, mas tambm uma nova psicologia; reivindicou a ateno no s dos especialistas em nervos como tambm a de todos que eram estudiosos 
de uma cincia mental.
         A recepo que lhe foi dada no mundo cientfico, porm, no foi amistosa. Por cerca de 10 anos ningum prestou ateno aos trabalhos de Freud. Por volta 
do ano de 1907, um grupo de psiquiatras suos (Bleuler e Jung, em Zurique) atraiu a ateno para a psicanlise, e uma tormenta de indignao, no precisamente fastidiosa 
em seus mtodos e argumentos, irrompeu logo aps, principalmente na Alemanha. Nesse aspecto, a psicanlise partilhava da sorte de muitas novidades que, aps certo 
lapso de tempo, encontraram reconhecimento geral. Entretanto, era de sua natureza queinevitavelmente despertasse uma oposio especificamente violenta. Ela feria 
os preconceitos da humanidade civilizada em alguns pontos especialmente sensveis. Submetia todo indivduo, por assim dizer,  reao analtica, por revelar aquilo 
que por acordo universal fora reprimido para o inconsciente, e, desse modo, forava seus contemporneos a comportar-se como pacientes que, sob tratamento analtico, 
acima de tudo trazem suas resistncias para o primeiro plano. Deve-se tambm admitir que no era fcil convencer-se da correo das teorias psicanalticas, ou conseguir 
instruo na prtica da anlise.
         A hostilidade geral, porm, no conseguiu impedir a psicanlise de uma expanso contnua durante a dcada seguinte, em duas direes: sobre o mapa, pois 
o interesse nela constantemente aflorava em novos pases, e no campo das cincias mentais, pois estava constantemente encontrando aplicaes em novos ramos do conhecimento. 
Em 1909, o Presidente G. Stanley Hall convidou Freud e Jung para dar uma srie de conferncias na Universidade Clark, em Worcester, Mass., da qual era o diretor 
e onde lhes foi oferecida uma amistosa recepo. Desde ento a psicanlise permaneceu sendo popular nos Estados Unidos, embora exatamente nesse pas tenha sido unida 
a muita superficialidade e alguns abusos. J em 1911, Havelock Ellis podia relatar que a anlise era estudada e praticada no somente na ustria e na Sua, mas 
tambm nos Estados Unidos, na Inglaterra, na ndia, no Canad, e, fora de dvida, na Austrlia tambm.
         Ademais, foi nesse perodo de luta e primeiro florescimento que os peridicos dedicados exclusivamente  psicanlise foram fundados. Foram eles o Jahrbuch 
fr psychoanalytische und psychopathologische Forschungen [Anurio para Pesquisas Psicanalticas e Psicopatolgicas] (1909-1914), dirigido por Bleuler e Freud, e 
editado por Jung, cuja publicao cessou ao irromper a guerra mundial; a Zentralblatt fr Psychoanalyse [Peridico Central para a Psicanlise] (1911), com Adler 
e Stekel como editores, o qual foi logo substitudo pela Internationale Zeitschrift fr Psychoanalyse [Revista Internacional para a Psicanlise] (1913, hoje em seu 
dcimo volume); e mais, desde 1912, Imago, fundada por Rank e Sachs, uma revista para a aplicao da psicanlise s cincias mentais. O grande interesse assumido 
no assunto por mdicos anglo-americanos foi demonstrado em 1913, com a fundao da ainda ativa Psycho-Analytic Review, por parte de White e Jelliffe. Mais tarde, 
em 1920, The International Journal of Psycho-Analysis, destinado especialmente aos leitores da Inglaterra, fez seu aparecimento sob a editoria de Ernest Jones. A 
Internationaler Psychoanalytischer Verlag e a correspondente inglesa The International Psycho-Analytical Press trouxeram  luz uma srie contnua de publicaes 
analticas sob o nome da Internationale Psychoanalytische Bibliothek (Biblioteca Psicanaltica Internacional). A literatura da psicanlise, naturalmente, no  encontrada 
apenas nesses peridicos, que so na maioria sustentados por sociedades psicanalticas; ela aparece por toda parte, em numerosos lugares, em publicaes cientficas 
e em publicaes literrias. Entre os peridicos do mundo latino que concedem ateno especial  psicanlise, a Revista de Psiquiatria, coordenada por H. Delgado, 
em Lima, no Peru, pode ser mencionada em especial.
         Uma diferena essencial entre essa segunda dcada da psicanlise e a primeira reside no fato de que o presente autor no constitua mais seu nico representante. 
Um crculo sempre crescente de alunos e adeptos se havia reunido em torno dele, dedicando-se, em primeiro lugar,  difuso das teorias da psicanlise; depois, ampliaram, 
suplementaram e conduziram essas teorias a maior profundidade. Com o decorrer dos anos diversos desses defensores, como era inevitvel, separaram-se, tomaram seus 
prprios rumos, ou se transformaram em uma oposio que pareceu ameaar a continuidade do desenvolvimento da psicanlise. Entre 1911 e 1913, C. G. Jung, em Zurique, 
e Alfred Adler, em Viena, produziram determinada agitao por suas tentativas de dar novas interpretaes aos fatos da anlise e por seus esforos para um desvio 
do ponto de vista analtico. Entretanto, viu-se logo que essas secesses no haviam causado danos permanentes. O sucesso temporrio que tenham atingido foi facilmente 
explicvel pela presteza da massa das pessoas em livrar-se da presso das exigncias da psicanlise por qualquer caminho que se lhes pudesse abrir. A grande maioria 
dos colaboradores permaneceu firme e continuou seu trabalho orientada pelas linhas a eles indicadas. Depararemos repetidamente com seus nomes na breve descrio, 
adiante, das descobertas da psicanlise nos muitos e variados campos de sua aplicao. 
         
         IV
         
         A ruidosa rejeio da psicanlise pelo mundo mdico no podia impedir seus defensores de desenvolv-la, inicialmente por suas linhas originais, em patologia 
e tratamento especializado nas neuroses - tarefa ainda no completamente realizada, mesmo atualmente. Seu inegvel sucesso teraputico, que excedia em muito qualquer 
outro que houvesse sido anteriormente conseguido, incentivou-os constantemente a novos esforos, ao passo que as dificuldades reveladas  medida que o material era 
examinado mais profundamente redundaram em alteraes profundas na tcnica da anlise e correes importantes em suas hipteses e postulados tericos.
         No decurso desse desenvolvimento a tcnica da psicanlise se tornou to definida e delicada quanto a de qualquer outro ramo especializado da medicina. Uma 
falha na compreenso desse fato levou a muitos abusos (particularmente na Inglaterra e nos Estados Unidos), porquanto pessoas que adquiriram apenas um conhecimento 
literrio da psicanlise a partir de leituras se consideram capazes de empreender tratamentos analticos sem ter recebido qualquer formao especial. As conseqncias 
de tal comportamento so prejudiciais tanto para a cincia quanto para os pacientes e acarretaram muito descrdito para a anlise. A fundao de uma primeira clnica 
psicanaltica para pacientes externos (por Max Eitingon, em Berlim, em 1920) tornou-se, portanto, um passo de grande importncia prtica. Esse instituto busca, por 
um lado, tornar o tratamento analtico acessvel a amplos crculos da populao e, por outro, empreende a instruo de mdicos para serem analistas clnicos atravs 
de um curso de formao incluindo como condio que aquele que aprende concorde em ser ele prprio analisado.
         Entre os conceitos hipotticos que capacitem o mdico a lidar com o material analtico, o primeiro a ser mencionado  o da 'libido'. Libido, em psicanlise, 
significa em primeira instncia a fora (imaginada como quantitativamente varivel e mensurvel) dos instintos sexuais dirigidos para um objeto - 'sexuais' no sentido 
ampliado exigido pela teoria analtica. Um estudo mais completo demonstrou que era necessrio colocar ao lado dessa 'libido objetal' uma 'libido narcsica' ou 'do 
ego', dirigida para o prprio ego do indivduo, e a interao dessas duas foras nos capacitou a explicar grande nmero de processos normais e anormais na vida mental. 
Uma distino grosseira logo se fez entre o que  conhecido por 'neuroses de transferncia' e os distrbios narcsicos. As primeiras (histeria e neurose obsessiva) 
constituem os objetos propriamente ditos do tratamento psicanaltico, ao passo que as outras, as neuroses narcsicas, embora possam deveras ser examinadascom o auxlio 
da anlise, oferecem dificuldades fundamentais  influncia teraputica.  verdade que a teoria da libido da psicanlise no est absolutamente completa e sua relao 
com uma teoria geral dos instintos no  clara, pois a psicanlise  uma cincia jovem, ainda inacabada, e em estgio de rpido desenvolvimento. Porm aqui se deve 
enfaticamente apontar quo errnea  a acusao de pansexualismo que com tanta freqncia  dirigida contra a psicanlise. Ela busca demonstrar que a teoria psicanaltica 
no conhece outras foras motivadoras mentais seno as puramente sexuais e, assim procedendo, explora preconceitos populares pelo emprego da palavra 'sexual' no 
em seu sentido analtico, mas no vulgar.
         A viso psicanaltica tambm teria de incluir nos distrbios narcsicos todas as molstias descritas em psiquiatria como 'psicoses funcionais'. No se poderia 
duvidar de que as neuroses e psicoses no esto separadas por uma linha rgida, mais do que o esto a sade e a neurose, e era plausvel explicar os misteriosos 
fenmenos psicticos pelas descobertas a que se chegou nas neuroses, que at ento haviam sido igualmente incompreensveis. O presente autor, durante o perodo de 
seu isolamento, tornou um caso de doena paranide parcialmente inteligvel atravs de uma investigao analtica e indicou nessa psicose indiscutvel os mesmos 
contedos (complexos) e uma semelhante ao recproca de foras, nas neuroses simples. Bleuler [1906] acompanhou as indicaes do que chamou de 'mecanismos freudianos' 
em grande nmero de psicoses, e Jung conquistou, de um s golpe, elevado conceito como analista quando, em 1907, explicou os sintomas mais excntricos dos estdios 
finais da dementia praecox a partir das histrias individuais da vida dos pacientes. O abrangente estudo da esquizofrenia efetuado por Bleuler (1911) provavelmente 
demonstrou de uma vez por todas a justificao de um ngulo psicanaltico de abordagem para a compreenso dessas psicoses.
         A psiquiatria tornou-se assim o primeiro campo a que a psicanlise foi aplicada e desse modo permaneceu desde ento. Os mesmos pesquisadores que mais fizeram 
para aprofundar o conhecimento analtico das neuroses, tais como Karl Abraham, em Berlim, e Sndor Ferenczi, em Budapest (para nomear apenas os mais proeminentes), 
tambm desempenharam papel de realce em lanar luz analtica sobre as psicoses. A convico da unidade e vinculao ntima de todos os distrbios que se apresentam 
como fenmenosneurticos e psicticos est tornando-se cada vez mais firmemente estabelecida, apesar de todos os esforos dos psiquiatras. As pessoas esto comeando 
a entender - e melhor que todas, talvez na Amrica - que o estudo psicanaltico das neuroses constitui a nica preparao para uma compreenso das psicoses, e que 
a psicanlise est destinada a tornar possvel uma psiquiatria cientfica do futuro, que no precisar contentar-se com a descrio de quadros clnicos curiosos 
e seqncias ininteligveis de eventos, e com o traar a influncia de grosseiros traumas anatmicos e txicos sobre um aparelho psquico inacessvel ao nosso conhecimento.
         
         V
         
         A importncia da psicanlise para a psiquiatria, entretanto, nunca teria chamado a ateno do mundo intelectual para ela ou lhe conquistaria um lugar em 
The History of our Times. Esse resultado foi ocasionado pela relao da psicanlise com a vida mental normal, no com a patolgica. Originalmente, a pesquisa analtica 
de fato no tinha outro objetivo seno estabelecer os determinantes do desencadeamento (a gnese) de alguns estados mentais mrbidos. No curso de seus esforos, 
contudo, ela teve xito em trazer  luz fatos de importncia fundamental, criando realmente uma nova psicologia, de modo que se tornou bvio que a validade de tais 
achados no poderia se restringir  esfera da patologia. J vimos quando se produziu a prova decisiva da exatido dessa concluso. Foi quando os sonhos foram interpretados 
com sucesso pela tcnica analtica - os sonhos, que so parte da vida mental de pessoas normais e que, no entanto, podem com efeito ser encarados como produtos patolgicos 
capazes de ocorrer regularmente em estados sadios.
         Se as descobertas psicolgicas obtidas dos sonhos fossem firmemente lembradas, s outro passo era necessrio antes que a psicanlise pudesse ser proclamada 
como a teoria dos processos mentais mais profundos no diretamente acessveis  conscincia - como uma 'psicologia profunda' -, e antes que pudesse ser aplicada 
a quase todas as cincias mentais. Esse passo residia na transio da atividade mental de homens individuais para as funes psquicas de comunidades humanas e povos, 
isto , da psicologia individual para a de grupo, e muitas analogias surpreendentes nos impuseram essa transio. Fora descoberto, por exemplo, que nos estratos 
profundos da atividade mental inconsciente os contrrios no se distinguem um do outro, mas so expressos pelo mesmo elemento. J em 1884, porm, Karl Abel, o fillogo, 
havia apresentado a opinio (em seu 'ber dem Gegensinn der Urworte')  de que as lnguas mais antigas que nos so conhecidas tratam os contrrios da mesma maneira. 
Assim, o antigo egpcio, por exemplo, tinha em primeira instncia apenas uma palavra para designar 'forte' e 'fraco', e somente mais tarde os dois lados da anttese 
foram distinguidos por ligeiras modificaes. Mesmo nas lnguas mais modernas claras relquias de tais significados antitticos podem ser encontradas. Assim, em 
alemo, 'Boden' ['sto' ou 'cho'] significa tanto a coisa mais alta quantoa mais baixa da casa; semelhantemente, em latim, 'altus' significa 'alto' e 'profundo'. 
Portanto, a equivalncia dos contrrios nos sonhos constitui um trao arcaico universal no pensamento humano.
         Tomando um exemplo de outro campo,  impossvel fugir  impresso da correspondncia perfeita que pode ser descoberta entre as aes obsessivas de certos 
pacientes obsessivos e as observncias religiosas dos crentes em todo o mundo. Certos casos de neurose obsessiva na realidade se comportam como uma caricatura de 
uma religio particular, de modo que  tentador assemelhar as religies oficiais a uma neurose obsessiva, que foi mitigada por se tornar universalizada. Essa comparao, 
que sem dvida  altamente objetvel a todos os crentes, no obstante se mostrou psicologicamente muito frutfera, pois a psicanlise logo descobriu no caso da neurose 
obsessiva, quais so as foras que nela combatem entre si at seus conflitos encontrarem expresso notvel no cerimonial das aes obsessivas. Nada de semelhante 
era suspeitado no caso do cerimonial religioso at que, remontando o sentimento religioso  relao com o pai como sua raiz mais profunda, tornou-se possvel apontar 
para uma situao dinmica anloga tambm nesse caso. Esse exemplo, ademais, pode advertir ao leitor que mesmo em sua aplicao a campos no mdicos a psicanlise 
no pode evitar ferir preconceitos acalentados, aflorar sensibilidades profundamente enraizadas e provocar assim inimizades de base essencialmente emocional.
         Caso possamos presumir que os aspectos mais gerais da vida mental inconsciente (conflitos entre impulsos instintuais, represses e satisfaes substitutivas) 
estejam presentes em toda parte, e se h uma psicologia profunda que conduz a um conhecimento desses aspectos, podemos ento razoavelmente esperar que a aplicao 
da psicanlise s mais variadas esferas da atividade mental humana em toda parte trar  luz resultados importantes e at ento inatingveis. Em um estudo excepcionalmente 
valioso, Otto Rank e Hanns Sachs (1913) tentaram reunir o que o trabalho da psicanlise pde conseguir at agora no sentido do preenchimento dessas expectativas. 
A falta de espao me impede de tentar completar aqui sua enumerao. Posso apenas selecionar, como meno, os achados mais importantes, acrescentando alguns pormenores.
         Se deixarmos fora de cogitao impulsos internos pouco conhecidos, podemos dizer que a principal fora motivadora no sentido do desenvolvimento cultural 
do homem foi a exigncia externa real, que retirou dele a satisfao fcil de suas necessidades naturais e o exps a perigos imensos. Essa frustrao externa o impeliu 
a uma luta com a realidade, a qual findou parcialmente em uma adaptao a ela e, em parte, no controle sobre ela; contudo tambm o impeliu a trabalhar e viver em 
comum com os de sua espcie, e isso j envolvia uma renncia de certo nmero de impulsos instintuais impossveis de ser socialmente satisfeitos. Com os avanos ulteriores 
da civilizao cresceram tambm as exigncias da represso. A civilizao, afinal de contas, est construda inteiramente sobre a renncia ao instinto, e todo indivduo, 
em sua jornada da infncia  maturidade, precisa, em sua prpria pessoa, recapitular esse desenvolvimento da humanidade a um estado de criteriosa resignao. A psicanlise 
demonstrou que foram predominantemente, embora no exclusivamente, os impulsos instintuais que sucumbiram a essa supresso cultural. Parte deles, contudo, apresenta 
a caracterstica valiosa de se permitirem ser desviados de seus objetivos imediatos e colocar assim sua energia  disposio do desenvolvimento cultural, sob a forma 
de tendncias 'sublimadas'. Outra parte, porm, persiste no inconsciente como desejos insatisfeitos e pressiona por alguma satisfao, ainda que deformada.
         Vimos que uma das partes da atividade mental humana  orientada no sentido de obter controle sobre o mundo externo real. A psicanlise nos diz agora, ademais, 
que uma outra parte, particular e altamente prezada, do trabalho mental criativo serve para a realizao de desejos - para a satisfao substitutiva dos desejos 
reprimidos que, desde os dias da infncia, vivem insatisfeitos no esprito de cada um de ns. Entre essas criaes, cuja vinculao com um inconsciente incompreensvel 
sempre foi suspeitada, esto os mitos e as obras da literatura imaginativa e da arte, e as pesquisas da psicanlise realmente arrojaram luz em abundncia sobre os 
campos da mitologia, da cincia da literatura e da psicologia dos artistas. Basta mencionar a obra de Otto Rank como exemplo. Demonstramos que os mitos e os contos 
de fadas podem ser interpretados como sonhos, traamos os caminhos sinuosos que levam da premncia do desejo inconsciente  sua realizao em uma obra de arte sobre 
o observador e no caso do prprio artista tornamos claro seu parentesco emocional com o neurtico bem como sua distino deste, e apontamos a vinculao existente 
entre sua disposio inata, suas experincias fortuitas e suas realizaes. A apreciao esttica de obras de arte e a elucidao do dote artstico no esto,  
verdade, entre as tarefas atribudas  psicanlise. Mas parece que a psicanlise est em posio deenunciar a palavra decisiva em todas as questes que afloram a 
vida imaginativa do homem.
         E ento, como terceiro argumento, a psicanlise nos demonstrou, para nosso crescente assombro, o papel enormemente importante desempenhado pelo que  conhecido 
por 'complexo de dipo' - isto , a relao emocional de uma criana humana com seus dois pais - na vida mental dos seres humanos. Nosso assombro se reduz quando 
compreendemos ser o complexo de dipo o correlativo psquico de dois fatos biolgicos fundamentais: o longo perodo de dependncia da criana humana e a maneira 
notvel pela qual sua vida sexual atinge um primeiro clmax do terceiro ao quinto ano de vida,e depois, passado um perodode inibio, reinicia-se na puberdade. 
E aqui se fez a descoberta de que uma terceira parte extremamente sria da atividade intelectual humana, a parte criadora das grandes instituies da religio, do 
direito, da tica e de todas as formas de vida cvica, tem como seu objetivo fundamental capacitar o indivduo a dominar seu complexo de dipo e desviar-lhe a libido 
de suas ligaes infantis para as ligaes sociais que so enfim desejadas. As aplicaes da psicanlise  cincia da religio e  sociologia (pelo presente autor, 
por Theodor Reik e Oskar Pfister, por exemplo), que conduziram a esses achados, ainda so novas e insuficientemente apreciadas, mas no se pode duvidar que estudos 
posteriores s iro confirmar a certeza dessas importantes concluses.
          guisa de ps-escrito, por assim dizer, devo mencionar que tambm os educadores no podem deixar de utilizar as sugestes que receberam da explorao analtica 
da vida mental das crianas e, ademais, que vozes se levantaram entre terapeutas (Groddeck e Jelliffe, por exemplo), sustentando que o tratamento psicanaltico de 
queixas orgnicas graves apresenta resultados promissores, de vez que em muitas dessas afeces determinado papel  desempenhado por um fator psquico sobre o qual 
 possvel lograr influncia.
         Podemos, assim, expressar nossa expectativa de que a psicanlise, cujo desenvolvimento e realizaes at o presente foram sucinta e inadequadamente relatados 
nestas pginas, ingressar no desenvolvimento cultural das prximas dcadas como um fermento significativo e auxiliar a aprofundar nosso conhecimento do mundo e 
a lutar contra algumas coisas da vida, reconhecidas como prejudiciais. No se deve esquecer, contudo, que a psicanlise sozinha no pode oferecer um quadro completo 
do mundo. Se aceitarmos a distino que recentemente propus, de dividir o aparelho psquico em um ego, voltado para o mundo externo e aparelhado com a conscincia, 
e em um id inconsciente, dominado por suas necessidades instintuais, ento a psicanlise deve ser descrita como uma psicologia do id(e de seus efeitos sobre o ego). 
Em cada campo do conhecimento, portanto, ela s pode fazer contribuies, que requerem ser completadas a partir da psicologia do ego. Se essas contribuies amide 
contm a essncia dos fatos, isso apenas corresponde ao importante papel que, pode-se reivindicar,  desempenhado em nossas vidas pelo inconsciente mental que por 
tanto tempo permaneceu desconhecido.
         
         
         
         














AS RESISTNCIAS  PSICANLISE (1925 [1924])
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DIE WIDERSTNDE GEGEN DIE PSYCHOANALYSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         (1925 La Revue Juive (Genebra), maro. Em traduo francesa.)
         1925 Imago 11, (3), 222-33.
         1925 Almanach 1926, 9-21.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 185-98.
         1928 G.S., 11, 224-35.
         1948 G.W., 14, 99-110.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Resistances to Psycho-Analysis'
         1950 C.P., 5, 163-74. (Trad. de James Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa  verso ligeiramente corrigida da publicada em 1950.
         
         O nome de Freud estava na 'Comisso Editorial' do peridico em que este ensaio pela primeira vez apareceu em francs. Foi escrito a pedido de seu editor 
real, Albert Cohen, provavelmente em setembro de 1924. O original alemo apareceu quase simultaneamente em Imago e no Almanach 1926, publicado em setembro de 1925 
- aproximadamente seis meses aps a publicao em francs.
         
         AS RESISTNCIAS  PSICANLISE
         
         Uma criana nos braos de sua bab voltar o rosto, gritando,  vista de um rosto estranho; um homem piedoso comear a nova estao com uma prece e tambm 
saudar os primeiros frutos do ano com a bno; um campons se recusar a comprar uma foice a menos que ela porte a marca registrada que foi familiar a seus pais. 
A distino entre essas situaes  bvia e pareceria justificar buscarmos um motivo diferente para cada uma delas.
         No obstante, seria equvoco deixar de enxergar o que elas tm em comum. Em cada um dos casos estamos lidando com um desprazer da mesma espcie. A criana 
o expressa de maneira elementar, o homem piedoso o aplaca mediante um artifcio, ao passo que o campons o utiliza como motivo para uma deciso. A fonte desse desprazer 
 a exigncia feita  mente por algo que  novo, o dispndio psquico que ela exige, a incerteza alada at  ansiosa expectativa que ela traz consigo. Seria interessante 
dedicar um estudo completo s reaes mentais  novidade, uma vez que sob certas condies, no mais primrias, podemos observar um comportamento do tipo contrrio 
- uma sede de estimulao que se arremete sobre tudo aquilo que  novo, simplesmente porque  novo.
         Em assuntos cientficos no deveria haver lugar para recuar-se ante a novidade. A cincia, em sua perptua falta de compleio e insuficincia,  impelida 
a esperar sua salvao em novas descobertas e novas maneiras de olhar para as coisas. A fim de no ser enganada, ela procede bem em armar-se de ceticismo e no aceitar 
nada novo, a menos que tenha sofrido o mais estrito exame. s vezes, porm, esse ceticismo apresenta dois aspectos inesperados; ele pode dirigir-se nitidamente contra 
o que  novo, enquanto poupa o que  familiar e aceito, e pode contentar-se com rejeitar as coisas antes de t-las examinado. Comportando-se assim, ele, contudo, 
se revela como um prolongamento da reao primitiva contra o que  novo e como um disfarce para a reteno dessa reao.  do conhecimento comum com quanta freqncia 
na histria da pesquisa cientfica aconteceu que inovaes tenham defrontado com resistncia intensa e obstinada, ao passo que eventos subseqentes demonstraram 
que a resistncia era injustificada, e a novidade, valiosa e importante. O que provocou a resistncia foram, via de regra, certos fatores no assunto geral da novidade, 
ao mesmo tempo que, por outro lado, diversos fatores devem ter-se combinado para tornar possvel a irrupo da reao primitiva.Uma recepo particularmente desfavorvel 
foi concedida  psicanlise, que o presente autor comeou a desenvolver aproximadamente h trinta anos atrs a partir das descobertas de Josef Breuer (de Viena) 
sobre a origem dos sintomas neurticos. No se pode discutir que ela possua a qualidade de novidade, embora fizesse uso de muito material bem conhecido de outras 
fontes (inteiramente  parte das descobertas de Breuer), tais como as lies oriundas dos ensinamentos de Charcot, o grande neuropatologista, e impresses derivadas 
da esfera dos fenmenos hipnticos. Sua significao original foi puramente teraputica: visava a criar um mtodo novo e eficiente para tratar doenas neurticas. 
Vinculaes que no podiam ser previstas no comeo fizeram, porm, com que a psicanlise se ampliasse para muito alm de seu objetivo original. Ela terminou por 
reivindicar ter estabelecido nossa completa viso da vida mental sobre nova base e, portanto, ser de importncia para todo o campo do conhecimento que se funde na 
psicologia. Aps uma dcada de completa negligncia, ela de repente se tornou tema de interesse geral - e desencadeou uma tempestade de oposio indignada.
         As formas pelas quais a resistncia  psicanlise encontrou expresso no necessitam ser consideradas agora. Basta dizer que a luta sobre essa inovao 
de modo algum est no fim, embora j seja possvel perceber a direo que assumir. Seus oponentes no conseguiram suprimir o movimento. A psicanlise, da qual h 
vinte anos atrs eu era o nico porta-voz, atraiu desde ento o apoio de numerosos assistentes valiosos e ativos, tanto mdicos como no mdicos, que a utilizam 
como um procedimento para o tratamento das doenas nervosas, como um mtodo de pesquisa psicolgica e como um instrumento auxiliar para o trabalho cientfico nos 
mais variados setores da vida intelectual. Nas pginas seguintes, nosso interesse ser orientado apenas para os motivos da resistncia  psicanlise, dando nfase 
especfica ao carter composto dessa resistncia e na variada soma de valor aportada por seus componentes.
         Do ponto de vista clnico as neuroses devem necessariamente ser situadas ao lado das intoxicaes e de distrbios tais como a doena de Graves. Trata-se 
de estados oriundos de uma excesso ou falta relativa de certas substncias altamente ativas, quer produzidas no interior do corpo quer nele introduzidas de fora; 
em suma, so distrbios da qumica do corpo, estados txicos. Se algum conseguisse isolar e demonstrar a substncia ou as substncias hipotticas relacionadas s 
neuroses, no teria necessidade de se preocupar com oposio por parte da profisso mdica. Presentemente, porm, no est aberta uma semelhante via de abordagem 
ao problema. No momento s podemos partir dos sintomas apresentados por uma neurose, sintomas que no caso da histeria, por exemplo, consistem em uma combinao de 
distrbios somticos e mentais. Ora, tanto os experimentos de Charcot quanto as observaes clnicas de Breuer nos ensinaram que os sintomas somticos da histeria 
tambm so psicognicos - isto , que so precipitados de processos mentais que percorreram seu curso. Colocando-se um indivduo em estado de hipnose, foi possvel 
produzir artificialmente,  vontade, os sintomas somticos da histeria.
         A psicanlise apoderou-se dessa nova compreenso e comeou a considerar o problema da natureza dos processos psquicos que conduziam a essas conseqncias 
inusitadas. A direo assumida por essa investigao no encontrou, porm, a simpatia da gerao contempornea de mdicos. Eles haviam sido ensinados a respeitar 
apenas fatores anatmicos, fsicos e qumicos. No estavam preparados para levar fatores psquicos em considerao e, portanto, enfrentaram-nos com indiferena ou 
antipatia. Obviamente tinham dvidas de que eventos psquicos permitissem algum tratamento cientfico exato, qualquer que fosse esse tratamento. Como uma reao 
excessiva contra uma fase anterior durante a qual a medicina fora dominada pelo que foi conhecido por 'filosofia da Natureza', encaravam abstraes como aquelas 
com que a psicologia est obrigada a trabalhar, como nebulosas, fantsticas e msticas, ao passo que simplesmente se recusavam a acreditar em fenmenos notveis 
que poderiam ter sido o ponto de partida de pesquisas. Os sintomas das neuroses histricas eram encarados como imposturas e os fenmenos do hipnotismo como embuste. 
Os prprios psiquiatras, cuja ateno estava sendo constantemente compelida para os mais inusitados e espantosos fenmenos mentais, no mostravam inclinao para 
examinar seus pormenores ou investigar suas vinculaes. Contentavam-se com classificar o variegado conjunto de sintomas e remet-los, at onde podiam, a distrbios 
etiolgicos somticos, anatmicos ou qumicos. Durante esse perodo materialista, ou melhor, mecanicista, a medicina realizou avanos formidveis, embora tambm 
mostrasse uma compreenso mope dos mais importantes e difceis problemas da vida.
          fcil compreender por que os mdicos, com uma atitude desse tipo para com a mente, no teriam simpatia pela psicanlise e levantariam dvidas quanto a 
sua exigncia de aprender muitas coisas novamente e v-las a uma luz diferente. Em compensao, poder-se-ia supor que a nova teoria teria muito mais probabilidade 
de encontrar a boa acolhida dos filsofos, de vezque estes estavam habituados a situar conceitos abstratos (ou, como diriam as lnguas malvolas, palavras nebulosas) 
no primeiro plano de suas explicaes do universo, e seria impossvel que objetassem  extenso da esfera da psicologia, para a qual a psicanlise havia preparado 
o caminho. No entanto aqui se ergueu um novo obstculo. A idia de filsofos sobre aquilo que  mental no era a da psicanlise. A maioria esmagadora deles v como 
mental apenas os fenmenos da conscincia. Para eles, o mundo da conscincia coincide com a esfera do que  mental. Tudo o mais que possa se realizar na 'mente' 
- entidade to difcil de apreender -,  por eles relegado aos determinantes orgnicos de processos mentais ou a processos paralelos aos mentais. Ou, falando com 
mais rigor, a mente no possui outros contedos seno os fenmenos da conscincia, e conseqentemente a psicologia, a cincia da mente, no tem outro tema geral. 
Ademais, a esse respeito a opinio do leigo  a mesma.
         O que, ento, um filsofo pode dizer perante uma teoria que, como a psicanlise, assevera que, contrariamente, aquilo que  mental  em si prprio inconsciente, 
e que ser consciente constitui apenas uma qualidade, capaz ou no de advir a um ato mental especfico e cuja retirada talvez possa no alterar esse ato sob nenhum 
outro aspecto? Ele naturalmente dir que algo tanto inconsciente como mental seria uma impossibilidade, um contradictio in adjecto, e deixar de observar que, efetuando 
esse julgamento, est meramente repetindo sua prpria definio do que  mental, definio que talvez possa ser restrita demais. Para os filsofos  fcil sentir 
essa certeza, visto no possurem familiaridade com o material cuja investigao induziu os analistas a acreditar em atos mentais inconscientes. Os filsofos jamais 
levaram em considerao a hipnose, nem se preocuparam com a interpretao de sonhos; ao contrrio, como o fazem os mdicos, encaram os sonhos como produtos inexpressivos 
da atividade mental reduzida durante o sono. Mal se apercebem de que existem coisas como obsesses e delrios, e eles se veriam em situao muito embaraosa caso 
lhes pedissem para explic-las com base em suas prprias premissas filosficas. Tambm os analistas se recusam a dizer o que  o inconsciente, contudo podem indicar 
o domnio de fenmenos cuja observao os obrigou a presumir sua existncia. Os filsofos, que ignoram outro tipo de observao que no seja a auto-observao, no 
podem acompanh-los nesse domnio.Sucede, ento, que a psicanlise nada deriva, seno desvantagens, de sua posio intermediria entre a medicina e a filosofia. 
Os mdicos a vem como um sistema especulativo e recusam-se a acreditar que, como toda outra existncia natural, ela se fundamenta numa paciente e incansvel elaborao 
de fatos oriundos do mundo da percepo; os filsofos, medindo-a pelo padro de seus prprios sistemas artificialmente construdos, julgam que ela provm de premissas 
impossveis e censuram-na porque seus conceitos mais gerais (que s agora esto em processo de evoluo) carecem de clareza e preciso.
         Esse estado de coisas  suficiente para explicar a recepo relutante e hesitante da anlise nos campos cientficos. Ele contudo no explica as exploses 
de indignao, derriso e escrnio que, com desprezo de todo padro de lgica e bom gosto, caracterizaram os mtodos controversos de seus oponentes. Uma reao desse 
tipo sugere que outras resistncias alm das puramente intelectuais foram excitadas, e despertadas poderosas foras emocionais. E deveras muitas coisas podem ser 
encontradas na teoria da psicanlise, calculadas para produzir um efeito desse tipo sobre as paixes dos homens de toda espcie e no somente dos cientistas. Sobretudo 
existe aquele lugar muito importante na vida mental dos seres humanos que a psicanlise atribui ao que  conhecido por instintos sexuais. A teoria psicanaltica 
sustentou que os sintomas das neuroses constituem satisfaes substitutivas deformadas de foras instintuais sexuais, das quais a satisfao direta foi frustrada 
por resistncias internas. Posteriormente a anlise, ao se estender alm de seu campo original de trabalho e ao comear a aplicar-se  vida mental normal, procurou 
demonstrar que esses mesmos componentes sexuais, possveis de ser desviados de seus objetos imediatos e de ser dirigidos para outras coisas, efetuavam as contribuies 
mais importantes s realizaes culturais do indivduo e da sociedade. Esses pontos de vista no eram inteiramente novos. A significao incomparvel da vida sexual 
havia sido proclamada pelo filsofo Schopenhauer em uma passagem intensamente marcante. Ademais, aquilo que a psicanlise chamou de sexualidade no era em absoluto 
idntico  impulso no sentido de uma unio dos dois sexos ou no sentido de produzir uma sensao prazerosa dos rgos genitais; tinha muito mais semelhana com 
o Eros, que tudo inclui e tudo preserva, do Banquete de Plato.Os opositores da psicanlise esqueceram, contudo, seus ilustres precursores; caram sobre ela como 
se houvesse cometido uma agresso  dignidade da raa humana. Acusaram-na de 'pansexualismo', embora a teoria psicanaltica dos instintos tivesse sido sempre estritamente 
dualista e em tempo algum deixasse de reconhecer, juntamente com os instintos sexuais, outros a que realmente atribui fora suficiente para suprimir os instintos 
sexuais. (Essas foras mutuamente opostas foram inicialmente descritas como os instintos sexuais e os instintos do ego. Um desenvolvimento terico posterior transformou-as 
em Eros e o instinto de morte ou destruio.) A sugesto de que a arte, a religio e a ordem social em parte se originavam de uma contribuio dos instintos sexuais 
foi representada pelos oponentes da anlise como uma degradao dos mais elevados valores culturais. Enfaticamente declararam que o homem possui outros interesses 
ao lado desse eterno interesse do sexo, desprezando em seu zelo o fato de que tambm os animais tm outros interesses - na verdade, esto sujeitos  sexualidade 
no de modo permanente, como os homens, mas apenas mediante turnos que ocorrem em perodos especficos -, desprezando tambm o fato de que a existncia desses outros 
interesses no homem jamais foi discutida e que nada pode ser alterado no valor de uma realizao cultural por demonstrar-se que ela derivou de fontes instintuais 
elementares e animais.
         Uma semelhante mostra de injustia e falta de lgica clama por explicao. Sua origem no  difcil de encontrar. A civilizao humana repousa em dois pilares, 
dos quais um  o controle das foras naturais e o outro, a restrio de nossos instintos. O trono do governante repousa sobre escravos agrilhoados. Entre os componentes 
instintuais que so assim colocados a seu servio, os instintos sexuais, no sentido mais estrito da palavra, so conspcuos por sua fora e selvageria. Que desgraa, 
se eles se libertassem! O trono seria derrubado e o governante, calcado sob ps. A sociedade est ciente disso - e no permitir que o assunto seja mencionado.
         Mas por que no? Que prejuzo a discusso pode causar? A psicanlise jamais disse palavra em favor dos instintos desagrilhoantes que danificariam nossa 
comunidade; pelo contrrio, emitiu uma advertncia e uma exortao para que corrigssemos nossos modos. A sociedade, porm, se recusa a consentir em ventilar a questo, 
porque tem uma m conscincia sob mais deum aspecto. Em primeiro lugar, ela estabeleceu um elevado ideal de moralidade - sendo essa restrio dos instintos - e insiste 
em que todos os seus membros preencham esse ideal, sem preocupar-se com a possibilidade de que a obedincia possa pesar onerosamente sobre o indivduo. Ela sequer 
 suficientemente opulenta ou bem organizada para poder compensar o indivduo pela quantidade de sua renncia instintual. Conseqentemente, resta ao indivduo decidir 
como pode obter, pelo sacrifcio que fez, uma compensao, suficiente para capacit-lo a preservar seu equilbrio mental. Em geral, ele no entanto  obrigado a viver 
psicologicamente alm de seus recursos, ao passo que as reivindicaes insatisfeitas de seus instintos o fazem sentir as exigncias da civilizao como uma presso 
constante sobre ele. Assim, a sociedade sustenta uma condio de hipocrisia cultural, fadada a ser acompanhada de um sentimento de insegurana e de uma necessidade 
de preservar aquilo que  uma situao inegavelmente precria com proibir a crtica e a discusso. Essa linha de pensamento aplica-se a todos os impulsos instintuais, 
incluindo portanto os egostas. A questo sobre ela aplicar-se ou no a todas as formas possveis de civilizao, e no meramente quelas que evolveram at agora, 
no pode ser debatida aqui. Com referncia aos instintos sexuais no sentido mais estrito, h ainda o ponto de que, na maioria das pessoas, eles so insuficientemente 
domados, e isso de uma forma psicologicamente errada; esto portanto mais aptos a desencadear-se do que os demais.
         A psicanlise revelou as fragilidades desse sistema e recomendou que ele fosse alterado. Props uma reduo no rigor com que os instintos so reprimidos, 
e que correspondentemente se desse mais desempenho  veracidade. Uma quantidade maior de satisfao deveria ser facultada a certos impulsos instintuais em cuja supresso 
a sociedade excedeu um tanto; no caso de alguns outros, o mtodo ineficiente de suprimi-los mediante a represso deveria ser substitudo por algum procedimento melhor 
e mais seguro. Em resultado dessas crticas a psicanlise  encarada como 'inamistosa  cultura' e foi colocada sob um antema como 'perigo social'. Essa resistncia 
no pode durar para sempre. Nenhuma instituio humana pode, a longo prazo, escapar  influncia da crtica legtima, contudo a atitude dos homens para com a psicanlise 
ainda  dominada por esse temor, que d livre curso s suas paixes e diminui seu poder de argumento lgico.
         Com sua teoria dos instintos a psicanlise ofendeu os sentimentos dos indivduos, na medida em que se consideravam como membros da comunidade social; outro 
ramo de sua teoria estava destinado a ferir toda pessoa individualmente no ponto mais sensvel de seu prprio desenvolvimento psquico. A psicanlise livrou-se de 
uma vez por todas do conto de fadas deuma infncia assexual. Demonstrou o fato de que interesses e atividades sexuais ocorrem em crianas pequenas desde o incio 
de suas vidas. Mostrou por que transformaes essas atividades passam, como, pela idade de cinco anos, eles sucumbem  inibio e como, da puberdade em diante, entram 
a servio da funo reprodutiva. Reconheceu que a primeira vida sexual infantil atinge seu pice naquilo que se conhece como complexo de dipo (uma ligao emocional 
da criana ao genitor do sexo oposto, acompanhada por uma atitude de rivalidade para com o do mesmo sexo) e que, nesse perodo da vida, tal impulso se amplia, desinibido, 
para um desejo sexual direto. A confirmao disso  to facilmente possvel, que somente esforos supremos poderiam conseguir desprez-lo. Com efeito, todo indivduo 
passou por essa fase; posteriormente, porm, reprimiu energicamente seu teor e conseguiu esquec-la. Dessa poca pr-histrica da existncia do indivduo restou 
um horror ao incesto e um sentimento enorme de culpa.  possvel que algo muito semelhante ocorresse na poca pr-histrica da espcie humana como um todo e que 
os primrdios da moralidade, da religio e da ordem social estejam intimamente vinculados  superao dessa era primeva. Para os adultos, sua pr-histria parece 
to ingloriosa que recusam permitir-se que os faam lembrar-se dela: ficaram furiosos quando a psicanlise tentou levantar o vu de amnsia de seus anos de infncia. 
Havia apenas uma sada: o que a psicanlise asseverava tinha de ser falso e aquilo com pretenses de nova cincia havia que ser um tecido de fantasias e deformaes.
         Assim, as resistncias mais fortes  psicanlise no foram de tipo intelectual, mas surgiram de fontes emocionais. Isso explicava tanto seu carter apaixonado 
quanto sua escassez de lgica. A situao obedecia a uma frmula simples: os homens na massa se comportavam para com a psicanlise exatamente do mesmo modo que os 
neurticos em particular, em tratamento perante seus distrbios. No entanto, atravs do trabalho paciente  possvel convencer esses ltimos indivduos de que tudo 
aconteceu como sustentamos: ns prprios no o inventamos, chegamos a isso a partir de um estudo de outros neurticos abrangendo um perodo de vinte ou trinta anos. 
A posio era ao mesmo tempo alarmante e consoladora; alarmante porque no era pouca coisa ter por paciente toda a raa humana, e consoladora porque, no fim das 
contas, tudo estava se realizando como hipteses da psicanlise declaravam estar fadado a acontecer.
         Se novamente voltamos os olhos para as diversas resistncias  psicanlise antes enumeradas, evidencia-se que apenas uma sua minoria pertence ao tipo que 
habitualmente surge contra a maior parte de inovaes cientficas de qualquer importncia considervel. A maioria delas sedeve ao fato de que poderosos sentimentos 
humanos so feridos pelo tema geral da teoria. A teoria darwiniana de descendncia defrontou-se com a mesma sorte, de vez que ps abaixo a barreira arrogantemente 
erguida entre os homens e os animais. Chamei a ateno para essa analogia em um trabalho anterior, no qual demonstrava como a viso psicanaltica da relao do ego 
consciente com um inconsciente irresistvel constitua um golpe severo para o amor-prprio humano. Descrevi-o como sendo o golpe psicolgico ao narcisismo dos homens, 
e o comparei com o golpe biolgico desfechado pela teoria da descendncia e o golpe cosmolgico, mais antigo, a ele dirigido pela descoberta de Coprnico.
         Dificuldades puramente externas tambm contriburam para fortalecer a resistncia  psicanlise. No  fcil obter um juzo independente sobre questes 
envolvidas com a anlise sem a termos experimentado ou praticado em outrem. Tambm pouco se pode realizar esse ltimo sem ter adquirido uma tcnica especfica e 
decididamente delicada, de vez que at recentemente no havia meios facilmente acessveis de aprender a psicanlise e sua tcnica. Essa situao foi agora melhorada 
com a fundao (em 1920) da Clnica e Instituto de Formao Psicanaltica de Berlim, e, pouco depois, em 1922, de um instituto exatamente similar em Viena.
         Finalmente, com toda reserva, pode-se levantar a questo de no ter sido possvel que a personalidade do presente autor como um judeu, que jamais procurou 
disfarar o fato de ser judeu, concorresse em provocar a antipatia de seu meio ambiente para com a psicanlise. Um argumento dessa espcie amide no se enuncia 
em voz alta; infelizmente, tornamo-nos to desconfiados que no podemos deixar de pensar que esse fator pode no ter estado inteiramente sem defeito. Talvez sequer 
seja inteiramente um item do acaso que o primeiro advogado da psicanlise fosse um judeu. Professar crena nessa nova teoria exigia determinado grau de aptido a 
aceitar uma situao de oposio solitria - situao com a qual ningum est mais familiarizado do que um judeu.
         
         APNDICE: EXTRATO DE O MUNDO COMO VONTADE E IDIA, DE SCHOPENHAUER
         
         Em suas ltimas obras Freud fez diversas referncias  nfase que Schopenhauer dava  importncia da sexualidade. Alm de mencionar o assunto na pg 270, 
acima, tambm se referiu a ele no pargrafo de encerramento de 'A Dificulty in the Path of Psycho-Analysis' (1917a), Standard Ed., 17, 143-4, e no Prefcio (escrito 
em 1920)  quarta edio dos Trs Ensaios (1905d), Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pg. 134, IMAGO Editora, 1972. Ele aparece novamente no Captulo de Alm 
do Princpio de Prazer (1920g), Edio Standard Brasileira, Vol. XVIII, pg. 69, IMAGO Editora, 1976 - trabalho que Freud revisava aproximadamente  mesma poca 
em que escreveu o Prefcio que acabamos de mencionar - e, mais uma vez, junto ao final do Captulo V do Autobriographical Study (1925d), Standard Ed., 20, 59.
         Freud algumas vezes aludia especificamente a 'uma passagem intensivamente comovente' ou a 'palavras de inesquecvel impressividade', embora em parte alguma 
citasse a passagem ou indicasse sua fonte nos escritos de Schopenhauer. Parece muitssimo provvel, no entanto, que o extrato aqui impresso seja da passagem que 
Freud tinha em mente, e, portanto, talvez seja de interesse reproduzi-lo. O pargrafo ocorre nos Suplementos ao Quarto Livro de O Mundo Como Vontade e Idia, Captulo 
XLII, 'A Vida da Espcie' ['Leben der Gattung']. Imediatamente antes desse ponto, Schopenhauer estivera debatendo o carter do desejo sexual, o qual declara ser 
diferente de qualquer outro desejo: '...ele no  apenas o mais forte, , porm, mesmo especificamente, de um tipo mais poderoso que qualquer outro.' Fornece exemplos 
do reconhecimento concedido na Antigidade a essa fora e continua do seguinte modo:
         'A tudo isto corresponde o importante rle que a relao dos sexos desempenha no mundo dos homens, onde ela  realmente o invisvel ponto central de toda 
ao e conduta, e se deixa entrever em toda parte, apesar detodos os vus que lhe so lanados por cima. Ela  a causa da guerra e o fim da paz, a base do que  
srio e o alvo da zombaria, a inexaurvel fonte do esprito, a chave para todas as aluses e o significado de todas as insinuaes misteriosas, de todas as ofertas 
no enunciadas e de todos os olhares furtivos, a meditao diria do jovem e, amide, tambm a do velho, o pensamento de todas as horas do libertino e, mesmo contra 
sua vontade, a imaginao constantemente recorrente do casto, o material sempre pronto para um chiste, devido exatamente  profunda seriedade que jaz em seus fundamentos. 
 contudo, o elemento picante e o chiste da vida que a preocupao principal de todos os homens seja secretamente perseguida e ostensivamente ignorada, tanto quanto 
possvel. Em realidade, porm, ns a vemos a todo momento sentar-se como verdadeira senhora hereditria do mundo, na plenitude de sua prpria fora, em seu trono 
ancestral, e desde l, olhando para baixo com miradas desdenhosas, a rir dos preparativos que foram efetuados para amarr-la, aprision-la ou, pelo menos, limit-la, 
e, onde quer que possvel, mant-la oculta ou mesmo domin-la de tal forma que aparea apenas como um interesse secundrio, subordinado, da vida. Tudo isso, porm, 
concorda com o fato de a paixo sexual ser o ponto central da vontade de viver, e, conseqentemente, a concentrao de todo desejo; portanto, no texto chamei os 
rgos genitais de foco da vontade. Em verdade, pode-se dizer que o homem  desejo sexual  concreto, pois sua origem  um ato de cpula e somente essa tendncia 
perpetua e mantm unida toda a sua existncia fenomnica. A vontade de viver manifesta-se primariamente, com efeito, como um esforo de sustentar o indivduo; contudo, 
isso constitui apenas um passo para o esforo de sustentar a espcie, e o ltimo esforo tem de ser mais poderoso em proporo, na medida em que a vida da espcie 
ultrapassa a do indivduo em durao, extenso e valor. A paixo sexual, portanto,  a mais perfeita manifestao da vontade de viver, seu tipo mais distintamente 
expresso; e a origem do indivduo nela e sua primazia sobre todos os outros desejos do homem natural esto em completo acordo com isso.'
         
         








UMA NOTA SOBRE O BLOCO MGICO (1925 [1924])
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         NOTIZ BER DEN 'WUNDERBLOCK'
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1925 Int. Z. Psychoanal., 11, (1), 1-5.
         1925 G.S., 6, 415-20.
         1931 Theoretische Schriften, 392-8.
         1948 G.W., 14, 3-8.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'A Note upon the "Mystic Writing-Pad"'
         1940 Int. J. Psycho-Anal., 21 (4), 469-74. (Trad. de James Strachey.)
         1950 C.P., 5, 175-80.
         
         A presente traduo inglesa  uma reimpresso ligeiramente corrigida da publicada em 1950, com algumas notas adicionais.
         
         Este artigo foi provavelmente escrito no outono de 1924, pois Freud comunicou em outra carta a Abraham que o estava revisando em novembro daquele ano (Jones, 
1957, 124-5). O curioso pequeno aparelho que consistiu a base desta engenhosa e esclarecedora discusso dos sistemas consciente, pr-consciente e perceptual, ainda 
(1961) se pode obter muito facilmente, pelo menos na Gr-Bretanha, sob o nome comercial de 'Printator'. O tema geral do artigo tornar-se- muito mais claro se um 
modelo real dele puder ser examinado e desmontado.
         
         UMA NOTA SOBRE O BLOCO MGICO
         
         Quando no confio em minha memria - os neurticos, como sabemos, assim o fazem em grau notvel, no entanto tambm as pessoas normais tm toda razo para 
faz-lo - posso suplementar e garantir seu funcionamento tomando nota por escrito. Nesse caso, a superfcie sobre a qual essa nota  preservada, a caderneta ou folha 
de papel,  como se fosse uma parte materializada de meu aparelho mnmico que, sob outros aspectos, levo invisvel dentro de mim. Tenho apenas de guardar em mente 
o local pode essa 'memria' foi depositada e ento posso 'reproduzir' a qualquer hora que quiser, com a certeza de que ter permanecido inalterada e assim escapado 
s possveis deformaes a que poderia estar sujeita em minha memria.
         Se desejo fazer uso pleno dessa tcnica para melhorar minha funo mnmica, descubro que se me oferecem dois procedimentos diferentes. Por um lado, posso 
escolher uma superfcie para escrever, que preservar intacta qualquer nota efetuada sobre ela por uma durao indefinida de tempo - por exemplo, uma folha de papel 
sobre a qual posso escrever a tinta. Estou, assim, de posse de um 'trao de memria permanente'. A desvantagem desse procedimento  que a capacidade receptiva da 
superfcie de escrita logo se exaure. A folha se preenche com escrita, nela no h lugar para quaisquer outras notas e me vejo obrigado a pr em uso outra folha 
na qual no se tenha escrito. Ademais, a vantagem do mesmo procedimento, o fato de fornecer um 'trao permanente', pode perder seu valor para mim se, aps certo 
tempo, a nota deixa de me interessar e no mais desejo 'ret-la em minha memria'. O procedimento alternativo evita essas duas desvantagens. Se, por exemplo, escrevo 
com um pedao de giz sobre uma lousa, tenho uma superfcie receptiva que conserva sua capacidade receptiva por um tempo ilimitado e as notas sobre ela podem ser 
destrudas assim que deixam de me interessar sem qualquer necessidade de jogar fora a prpria superfcie de escrita. Aqui, a desvantagem  que no posso preservar 
um trao permanente. Desejando apor algumas notas novas  lousa, tenho de antes apagar as que a recobrem. Assim, uma capacidade receptiva tem de ser renovada ou 
a nota tem de ser destruda.
         Todas as formas de aparelhos auxiliares que inventamos para a melhoria ou intensificao de nossas funes sensoriais so construdas segundo o mesmo modelo 
que os prprios rgos dos sentidos ou parte deles: culos, cmeras fotogrficas, cornetas acsticas, por exemplo. Medidos por esse padro, osdispositivos para auxiliar 
nossa memria parecem particularmente imperfeitos, de vez que nosso aparelho mental realiza exatamente aquilo que eles no podem fazer: possui uma capacidade receptiva 
ilimitada para novas percepes e, no obstante, registra delas traos mnmicos permanentes, embora no inalterveis. J em 1900, em A Interpretao de Sonhos , 
dei expresso a uma suspeita de que essa capacidade fora do comum deveria ser dividida entre dois sistemas (ou rgos do aparelho psquico) diferentes. Segundo esse 
ponto de vista, temos um sistema Pcpt.-Cs., que recebe percepes mas no retm trao permanente delas, podendo assim reagir como uma folha em branco a toda nova 
percepo, ao passo que os traos permanentes das excitaes recebidas so preservados em 'sistemas mnmicos' que jazem por trs do sistema perceptual. Posteriormente, 
em Alm do Princpio de Prazer (1920g), acrescentei uma observao no sentido de que o inexplicvel fenmeno da conscincia surge no sistema perceptual em lugar 
dos traos permanentes.
         Ora, h algum tempo atrs surgiu no mercado, sob o nome de 'Bloco Mgico', um pequeno invento que promete realizar mais do que a folha de papel ou a lousa. 
Ele alega no ser nada mais que uma prancha de escrever, da qual as notas podem ser apagadas mediante um fcil movimento de mo. Contudo, se  examinada mais de 
perto, descobre-se que sua construo apresenta uma concordncia notvel com a minha estrutura hipottica de nosso aparelho perceptual e que, de fato, pode fornecer 
tanto uma superfcie receptiva sempre pronta, como traos permanentes das notas feitas sobre ela.
         O Bloco Mgico  uma prancha de resina ou cera castanha-escura, com uma borda de papel; sobre a prancha est colocada uma folha fina e transparente, da 
qual a extremidade superior se encontra firmemente presa  prancha e a inferior repousa sobre ela sem estar nela fixada. Essa folha transparente constitui a parte 
mais interessante do pequeno dispositivo. Ela prpria consiste em duas camadas, capazes de ser desligadas uma da outra salvo em suas duas extremidades. A camada 
superior  um pedao transparente de celulide; a inferior  feita de papel encerado fino e transparente. Quando o aparelho no est em uso, a superfcie inferior 
do papel encerrado adere ligeiramente  superfcie superior da prancha de cera.Para utilizar o Bloco Mgico, escreve-se sobre a parte de celulide da folha de cobertura 
que repousa sobre a prancha de cera. Para esse fim no  necessrio lpis ou giz, visto a escrita no depender de material que seja depositado sobre a superfcie 
receptiva. Constitui um retorno ao antigo mtodo de escrever sobre pranchas de gesso ou cera: um estilete pontiagudo calca a superfcie, cujas depresses nela feitas 
constituem a 'escrita'. No caso do Bloco Mgico esse calcar no  efetuado diretamente, mas mediante o veculo da folha de cobertura. Nos pontos em que o estilete 
toca, ele pressiona a superfcie inferior do papel encerado sobre a prancha de cera, e os sulcos so visveis como escrita preta sobre a superfcie cinzento-esbranquiada 
do celulide, antes lisa. Querendo-se destruir o que foi escrito, necessrio  s levantar a folha de cobertura dupla da prancha de cera com um puxo leve pela parte 
inferior livre. O estreito contato entre o papel encerado e a prancha de cera nos lugares que foram calcados (do qual dependeu a visibilidade da escrita) assim acaba, 
e no torna a suceder ao se reunirem novamente as duas superfcies. O Bloco Mgico est agora limpo de escrita e pronto para receber novas notas.
         As pequenas imperfeies do engenho naturalmente no tm importncia para ns, visto estarmos apenas interessados em sua aproximao com a estrutura do 
aparelho perceptual da mente.
         Estando algo escrito sobre o Bloco Mgico, se levantarmos cuidadosamente o celulide do papel encerado podemos ver a escrita de modo tambm claro sobre 
a superfcie do ltimo, e a questo de saber por que haveria necessidade da parte de celulide da cobertura poder surgir. O experimento mostrar ento que o fino 
papel se amassaria ou rasgaria com muita facilidade se se escrevesse diretamente sobre ele com o estilete. A camada de celulide atua, pois, como um escudo protetor 
para o papel encerado, a fim de manter afastados efeitos prejudiciais oriundos de fora. O celulide constitui um 'escudo protetor contra estmulos'; a camada que 
realmente recebe os estmulos  o papel. Posso nesse ponto relembrar que em Alm do Princpio do Prazer [Edio Standard Brasileira, Vol. XVIII, pg. 42 e segs., 
IMAGO Editora, 1976] demonstrei que o aparelho perceptual de nossa mente consiste em duas camadas, de um escudo protetor externo contra estmulos, cuja misso  
diminuir a intensidade das excitaes que esto ingressando, e de uma superfcie por trs dele receptora dos estmulos, ou seja, o sistema Pcpt.-Cs.A analogia no 
seria de muito valor se no pudesse ser exercida em extenso maior que at a presente. Levantando-se toda a folha de cobertura - tanto o celulide quanto o papel 
encerado - da prancha de cera, a escrita se desvanece e, como j observei, no mais reaparece. A superfcie do Bloco Mgico est limpa de escrita e mais uma vez 
capaz de receber impresses. No entanto,  fcil descobrir que o trao permanente do que foi escrito est retido sobre a prpria prancha de cera e, sob luz apropriada, 
 legvel. Assim, o Bloco fornece no apenas uma superfcie receptiva, utilizvel repetidas vezes como uma lousa, mas tambm traos permanentes do que foi escrito 
como um bloco comum de papel: ele soluciona o problema de combinar as duas funes dividindo-as entre duas partes ou sistemas componentes separados mas inter-relacionados. 
Essa  exatamente a maneira pela qual, segundo a hiptese que acabo de mencionar, nosso aparelho mental desempenha sua funo perceptual. A camada que recebe os 
estmulos - o sistema Pcpt.-Cs. - no forma traos permanentes; os fundamentos da maioria ocorrem em outros sistemas contguos.
         No precisamos nos perturbar pelo fato de no se utilizar, no Bloco Mgico, dos traos permanentes das notas recebidas; basta que elas estejam presentes. 
Deve chegar um ponto em que a analogia entre um aparelho auxiliar desse tipo e o rgo que  seu prottipo deixar de aplicar-se. Tambm procede o fato de que, uma 
vez apagada a escrita, o Bloco Mgico no a pode 'reproduzir' desde dentro; ele seria com efeito um bloco mgico se, tal qual nossa memria, pudesse realizar aquilo. 
No penso, porm, que seja demasiado exagerado comparar a cobertura de celulide e papel encerado ao sistema Pcpt.-Cs. e seu escudo protetor, a prancha de cera com 
o inconsciente por trs daqueles, e o aparecimento e desaparecimento da escrita com o bruxuleio e a extino da conscincia no processo da percepo.
         Devo admitir, contudo, que estou inclinado a pressionar mais ainda essa comparao. Sobre o Bloco Mgico a escrita se desvanece sempre que se rompe o ntimo 
contato entre o papel que recebe o estmulo e a prancha de cera que preserva a impresso. Isso concorda com uma noo que por muito tempo mantive acerca do mtodo 
pelo qual o aparelho perceptual de nossa mente funciona, a qual, porm, at agora conservei para mim. Minha teoria expunha que inervaes da catexia so enviadas 
e retiradas em rpidosimpulsos peridicos, de dentro, para o sistema Pcpt.-Cs. completamente permevel. Enquanto catexizado dessa maneira esse sistema recebe percepes 
(que so acompanhadas por conscincia) e transmite a excitao para os sistemas mnmicos inconscientes; entretanto, assim que a catexia  retirada, a conscincia 
se extingue e o funcionamento do sistema se detm.  como se o inconsciente estendesse sensores, mediante o veculo do sistema Pcpt.-Cs., orientados ao mundo externo, 
e rapidamente os retirasse assim que tivessem classificado as excitaes dele provenientes. Desse modo as interrupes, que no caso do Bloco Mgico tm origem externa, 
foram atribudas por minha hiptese  descontinuidade na corrente de inervao, e a ruptura concreta de contato que ocorre no Bloco Mgico foi substituda, em minha 
teoria, pela no-excitabilidade peridica do sistema perceptual. Tive ainda a suspeita de que esse mtodo descontnuo de funcionamento do sistema Pcpt.-Cs. jaz no 
fundo da origem do conceito de tempo.
         Se imaginarmos uma das mos escrevendo sobre a superfcie do Bloco Mgico, enquanto a outra eleva periodicamente sua folha de cobertura da prancha de cera, 
teremos uma representao concreta do modo pelo qual tentei representar o funcionamento do aparelho peceptual da mente.
         
         














A NEGATIVA (1925)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         DIE VERNEINUNG
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1925 Imago 11 (3), 217-21.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 199-204.
         1928 G.S. 11, 3-7.
         1931 Theorestische Schriften, 399-404.
         1948 G.W., 14, 11-15.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Negation'
         1925 Int. J. Psycho-Anal., 6 (4), 367-71. (Trad. de Joan Riviere.)
         1950 C.P., 5, 181-5. (Reviso da traduo acima.)
         
         A presente traduo inglesa  verso modificada da publicada em 1950. A traduo de 1950 est reimpressa em D. Rapaport, Organization and Pathology of Thought, 
Nova Iorque, 1951.
         
         Diz-nos Ernest Jones (1957, 125) que este texto foi escrito em julho de 1925. O assunto, contudo, estivera evidentemente nos pensamentos de Freud por algum 
tempo, como  demonstrado pela nota de rodap por ele acrescentada ao caso clnico de 'Dora' em 1923. ([1].)  um de seus mais sucintos artigos. Embora fundamentalmente 
trate de um ponto especial de metapsicologia, em suas passagens de abertura e encerramento, porm, aborda a tcnica. Das referncias nas notas de rodap, veremos 
que ambos esses aspectos do trabalho tinham uma longa histria preliminar.
         Extratos da traduo anterior (1925) deste artigo foram includos na General Selection from the Works of Sigmund Freud, de Rickman (1937, 63-7).
         
         A NEGATIVA
         
         A maneira pela qual nossos pacientes apresentam suas associaes durante o trabalho de anlise fornece-nos oportunidade para realizar algumas observaes 
interessantes. 'Agora o senhor vai pensar que quero dizer algo insultante, mas realmente no tenho essa inteno.' Compreendemos que isso  um repdio, por projeo, 
de uma idia que acaba de ocorrer. Ou: 'O senhor pergunta quem pode ser essa pessoa no sonho. No  minha me'. Emendamos isso para: 'Ento,  a me dele.' Em nossa 
interpretao, tomamos a liberdade de desprezar a negativa e de escolher apenas o tema geral da associao.  como se o paciente tivesse dito: ' verdade que minha 
me veio  lembrana quando pensei nessa pessoa, porm no estou inclinado a permitir que essa associao entre em considerao.' 
         Existe um mtodo muito conveniente, pelo qual podemos s vezes obter uma informao que desejamos sobre material reprimido inconsciente. 'O que', perguntamos, 
'o senhor consideraria a coisa mais provavelmente imaginvel nessa situao? O que acha que estava mais afastado de sua mente nessa ocasio?' Se o paciente cai na 
armadilha e diz o que ele pensa ser mais incrvel, quase sempre faz a admisso correta. Defrontamo-nos amide com um ntido correspondente desse experimento em um 
neurtico obsessivo que j foi iniciado no significado de seus sintomas. 'Arranjei uma nova idia obsessiva,' diz ele, 'e ocorreu-me em seguida que ela poderia significar 
isso ou aquilo. Mas no; isso no pode ser verdade ou no teria ocorrido.' O que ele est rejeitando em fundamentos colhidos de seu tratamento, , naturalmente, 
o significado correto da idia obsessiva.
         Assim, o contedo de uma imagem ou idia reprimida pode abrir caminho at a conscincia, com a condio de que seja negado. A negativa constitui um modo 
de tomar conhecimento do que est reprimido; com efeito,j  uma suspenso da represso, embora no, naturalmente, uma aceitao do que est reprimido. Podemos ver 
como, aqui, a funo intelectual est separada do processo afetivo. Com o auxlio da represso apenas uma conseqncia do processo da represso  desfeita, ou seja, 
o fato de o contedo ideativo daquilo que est reprimido no atingir a conscincia. O resultado disso  uma espcie de aceitao intelectual do reprimido, ao passo 
que simultaneamente persiste o que  essencial  represso. No decurso de um trabalho analtico produzimos com freqncia uma outra variante dessa situao, muito 
importante e um tanto estranha. Temos xito em vencer tambm a negativa e ocasionar uma plena aceitao intelectual do reprimido, porm o processo repressivo em 
si prprio no , com isso, ainda removido.
         De vez que afirmar ou negar o contedo de pensamentos  tarefa da funo do julgamento intelectual, o que estivemos dizendo nos levou  origem psicolgica 
dessa funo. Negar algo em um julgamento , no fundo, dizer: 'Isto  algo que eu preferia reprimir.' Um juzo negativo  o substituto intelectual da represso; 
ou seu 'no'  a marca distintiva da represso, um certificado de origem - tal como, digamos, 'Made in Germany'. Com o auxlio do smbolo da negativa, o pensar se 
liberta das restries da represso e se enriquece com material indispensvel ao seu funcionamento correto.
         A funo do julgamento est relacionada, em geral, com duas espcies de decises. Ele afirma ou desafirma a posse, em uma coisa, de um atributo particular, 
e assevera ou discute que uma representao tenha uma existncia na realidade. O atributo sobre o qual se deve decidir pode originalmente ter sido bom ou mau, til 
ou prejudicial. Expresso na linguagem dos mais antigos impulsos instintuais - os orais -, o julgamento : 'Gostaria de comer isso',ou 'gostaria de cuspi-lo fora', 
ou, colocado de modo mais geral, 'gostaria de botar isso para dentro de mim e manter aquilo fora.' Isso equivale a dizer: 'Estar dentro de mim' ou 'estar fora 
de mim.' Como demonstrei noutro lugar, o ego-prazer original deseja introjetar para dentro de si tudo quanto  bom, e ejetar de si tudo quanto  mau. Aquilo que 
 mau, que  estranho ao ego, e aquilo que  externo so, para comear, idnticos.
         A outra espcie de deciso tomada pela funo do julgamento - quanto  existncia real de algo de que existe uma representao (teste de realidade) -  
um interesse do ego-realidade definitivo, que se desenvolve a partir do ego-prazer inicial. Agora no se trata mais de uma questo de saber se aquilo que foi percebido 
(uma coisa) ser ou no integrado ao ego, mas uma questo de saber se algo que est no ego como representao pode ser redescoberto tambm na percepo (realidade). 
Trata-se, como vemos, mais uma vez de uma questo de externo e interno. O que  irreal, meramente uma representao e subjetivo,  apenas interno; o que  real est 
tambm l fora. Nesse estgio do desenvolvimento a considerao pelo princpio de prazer foi posta de lado. A experincia demonstrou ao indivduo que no s  importante 
uma coisa (um objeto de satisfao para ele) possuir o atributo 'bom', assim merecendo ser integrada ao seu ego, mas tambm que ela esteja no mundo externo, de modo 
a que ele possa se apossar dela sempre que dela necessitar. A fim de entender esse passo  frente, temos de relembrar que todas as representaes se originam de 
percepes e so repeties dessas. Assim, originalmente a mera existncia de uma representao constitua uma garantia da realidade daquilo que era representado. 
A anttese entre subjetivo e objetivo no existe desde o incio. Surge apenas do fato de que o pensar tem a capacidade de trazer diante da mente, mais uma vez, algo 
outrora percebido, reproduzindo-o como representao sem que o objetivo externo ainda tenha de estar l. Portanto, o objetivo primeiro e imediato do teste de realidade 
 no encontrar na percepo real um objeto que corresponda ao representado, mas reencontrar tal objeto, convencer-se de que ele est l. Outra capacidadedo poder 
de pensar oferece mais uma contribuio  diferenciao entre aquilo que  subjetivo e aquilo que  objetivo. A reproduo de uma percepo como representao nem 
sempre  fiel; pode ser modificada por omisses ou alterada pela fuso de vrios elementos. Nesse caso, o teste de realidade tem de certificar-se de at onde vo 
tais deformaes. Contudo  evidente que uma precondio para o estabelecimento do teste de realidade consiste em que objetos, que outrora trouxeram satisfao real, 
tenham sido perdidos.
         Julgar  a ao intelectual que decide a escolha da ao motora que pe fim ao adiamento devido ao pensamento e conduz do pensar ao agir. Esse adiamento 
devido ao pensamento tambm foi debatido por mim noutra parte. Ele deve ser considerado como uma ao experimental, uma apalpao motora, com pequeno dispndio de 
descarga. Consideremos onde o ego utilizou um tipo semelhante de apalpao anteriormente, em que lugar aprendeu ele a tcnica que agora aplica em seus processos 
de pensamento. Ocorreu na extremidade sensorial do aparelho mental, em conexo com as percepes dos sentidos, pois, em nossa hiptese, a percepo no  um processo 
puramente passivo. O ego envia periodicamente pequenas quantidades de catexia para o sistema perceptual, mediante as quais classifica os estmulos externos e ento, 
depois de cada um desses avanos experimentais, se recolhe novamente.
         O estudo do julgamento nos permite, talvez pela primeira vez, uma compreenso interna (insight) da origem de uma funo intelectual a partir da ao recproca 
dos impulsos instintuais primrios. Julgar  uma continuao, por toda a extenso das linhas da convenincia, do processo original atravs do qual o ego integra 
coisas a si ou as expele de si, de acordo com o princpio de prazer. A polaridade de julgamento parece corresponder  oposio dos dois grupos de instintos que supusemos 
existir. A afirmao - como um substituto da unio - pertence a Eros; a negativa - o sucessor daexpulso - pertence ao instinto de destruio. O desejo geral de 
negar, o negativismo que  apresentado por alguns psicticos, deve provavelmente ser encarado como sinal de uma desfuso de instintos efetuada atravs de uma retirada 
dos componentes libidinais. O desempenho da funo de julgamento, contudo, no se tornou possvel at que a criao do smbolo da negativa dotou o pensar de uma 
primeira medida de liberdade das conseqncias da represso, e, com isso, da compulso do princpio de prazer.
         Essa viso da negativa ajusta muito bem ao fato de que, na anlise, jamais descobrimos um 'no' no inconsciente e que o reconhecimento do inconsciente por 
parte do ego se exprime numa frmula negativa. No h prova mais contundente de que fomos bem-sucedidos em nosso esforo de revelar o inconsciente, do que o momento 
em que o paciente reage a ele com as palavras 'No pensei isso' ou 'No pensei (sequer) nisso'.
         





























ALGUMAS CONSEQNCIAS PSQUICAS DA DISTINO ANATMICA 
ENTRE OS SEXOS (1925)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         EINIGE PSYCHISCHE FOLGEN DES ANATOMISCHEN GESCHLECHTS-UNTERSCHIEDS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1925 Int. Z. Psychoanal., 11 (4), 401-10.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 205-19.
         1928 G.S., 11, 8-19.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 207-20.
         1948 G.W., 14, 19-30.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Some Psychological Consequences of the AnatomicalDistinction between the Sexes'
         1927 Int. J. Psycho-Anal., 8 (2), 133-42. (Trad. de James Strachey)
         1950 C.P., 5, 186-197. (Reimpresso revista da traduo acima.)
         
         A presente traduo inglesa  verso corrigida e com novas anotaes, com ttulo ligeiramente modificado, da publicada em 1950.
         
         Este trabalho foi terminado em agosto de 1925, quando Freud o mostrou a Ferenczi. Foi lido em seu nome por Anna Freud no Congresso Psicanaltico Internacional 
de Homburg em 3 de setembro e publicado na Zeitschrift mais tarde, no outono (Jones, 1957, 119).
         Aquilo que, com efeito,  uma primeira e completa reavaliao das opinies de Freud sobre o desenvolvimento psicolgico das mulheres, ser encontrado condensado 
neste sucinto artigo. Ele contm os germes de todo o seu trabalho posterior sobre o assunto.
         Desde muito cedo Freud queixou-se da obscuridade que envolvia a vida sexual das mulheres. Assim, prximo ao comeo de seus Trs Ensaios sobre a Teoria da 
Sexualidade (1905d), escreveu que a vida sexual dos homens 'somente, se tornou acessvel  pesquisa. A das mulheres ... ainda se encontra mergulhada em impenetrvel 
obscuridade'. (Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pg. 152, IMAGO Editora, 1972.) De modo semelhante, em seu estudo das teorias sexuais das crianas (1908c) escreveu: 
'Em conseqnciade circunstncias desfavorveis, tanto de natureza externa quanto interna, as observaes seguintes se aplicam principalmente ao desenvolvimento 
sexual de apenas um sexo - isto , o dos homens.' (Standard Ed., 9, 211.) Novamente, muitssimo mais tarde, em seu opsculo sobre anlise leiga (1926e): 'Sabemos 
menos sobre a vida sexual das meninas que sobre a dos meninos. Mas no precisamos nos envergonhar dessa distino; afinal de contas, a vida sexual das mulheres adultas 
constitui um "continente obscuro" para a psicologia.' (Ibid., 20, 212.)
         Um dos resultados dessa obscuridade foi conduzir Freud a muitas vezes presumir que a psicologia das mulheres podia ser tomada simplesmente como anloga 
 dos homens. Disso h muitos exemplos. Em sua primeira descrio completa da situao edipiana, por exemplo, em A Interpretao de Sonhos (1900a), presume existir 
um paralelo completo entre os dois sexos, que 'a primeira afeio de uma menina  para com seu pai e os primeiros desejos infantis de um menino, para com sua me' 
(Edio Standard Brasileira, Vol. IV, pg. 273, IMAGO Editora, 1972). De modo semelhante, em sua longa descrio do desenvolvimento sexual das crianas na Conferncia 
XXI das Introductory Lectures (1916-17), escreve: 'Como vem, descrevi apenas a relao de um menino com seu pai e sua me. As coisas acontecem exatamente da mesma 
maneira com as meninas, com as necessrias modificaes: uma ligao afetuosa ao pai, uma necessidade de livrar-se da me, como suprflua ...' Ou, falando da primitiva 
histria da identificao em Psicologia de Grupo (1921c): 'A mesma coisa tambm se aplica, com as substituies necessrias,  menina' (Edio Standard Brasileira, 
Vol. XVIII, pg. 134, IMAGO Editora, 1976). Mesmo em O Ego e o Id (1923b) os complicados processos que acompanham e seguem a dissoluo do complexo de dipo so 
supostos como 'exatamente anlogos' em meninos e meninas ([1]). Ou a descrio do complexo de dipofeminino pode ser simplesmente omitida, como no verbete para a 
enciclopdia de Marcuse (1923a), Edio Standard Brasileira, Vol. XVIII, pg. 298, IMAGO Editora, 1976. Por outro lado, ao descrever a 'fase flica' no artigo sobre 
a organizao genital infantil (1923e), Freud escreve francamente: 'Infelizmente, podemos descrever esse estado de coisas apenas no ponto em que afeta a criana 
do sexo masculino; os processos correspondentes na menina no conhecemos' ([1]).
         Com efeito, durante um longo perodo, desde a poca da anlise de 'Dora' em 1900, contudo, o interesse de Freud no se dirigira para a psicologia feminina. 
Demorou quinze anos para que publicasse qualquer importante material clnico que tratasse de uma mulher. Surgiu ento o caso da parania feminina 'que ia de encontro 
 teoria psicanaltica' (1915f), cuja essncia residia na relao da paciente com sua me. No muito depois veio o caso de homossexualismo feminino (1920a), do qual 
o mesmo tambm poderia ser dito. Entre ambos surgiu o estudo das fantasias de escapamento (1919e), que se relacionava quase inteiramente com o desenvolvimento sexual 
infantil das meninas. E aqui j existem claras provas de insatisfao com a 'analogia exata' entre os dois sexos: 'a expectativa de existir um paralelo completo 
era equivocada' (Standard Ed., 17, 196). Posteriormente, o problema da histria sexual das mulheres sem dvida esteve na mente de Freud, constantemente; e, embora 
pouco exista sobre ele em O Ego e o Id (1923b), foram as teorias a desenvolvidas, concernentes ao final do complexo de dipo, que, ligadas a novas observaes clnicas, 
forneceram a chave para a nova tese. Freud j sentia encaminhar-se para ela em 'A Dissoluo do Complexo de dipo' (1924d); porm pela primeira vez  plenamente 
enunciada no presente artigo. Deveria ser ainda ampliada no trabalho posterior sobre 'Sexualidade Feminina' (1931b), na Conferncia XXXIII das New Introductory Lectures 
(1933a), e, finalmente, no Captulo VII do pstumo Esboo de Psicanlise (1940a [1938]).
         Quase todos os pormenores j esto presentes em uma forma condensada neste trabalho. Entretanto,  notvel que muitos desses pormenores j estivessem  
mo h muito tempo e s exigissem vinculao. Assim, certas peculiaridadesno desenvolvimento sexual das meninas haviam sido notadas e se insistira sobre elas. J 
na primeira edio dos Trs Ensaios (1905d), Freud sustentara que nas meninas o rgo sexual principal era o clitris; que, em conformidade com esse fato, 'a sexualidade 
das jovens  de carter inteiramente masculino', e que 'uma onda de represso na puberdade'  exigida antes que o clitris ceda lugar  vagina e a masculinidade, 
 feminilidade (Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pgs. 225-8, IMAGO Editora, 1972.), Com efeito, a maior parte desse aspecto havia sido indicada muitos anos 
antes, em uma carta a Fliess, de 14 de novembro de 1897 (Freud, 1950a, Carta 75). O assunto foi levado avante no artigo sobre 'The Sexual Theories of Children' (1908c), 
onde foi posto em relao com a inveja que a menina tem do pnis e o complexo de castrao (Standard Ed., 9, 217-18). O fato de o dano causado por isso a seu narcisismo 
conduzir ao ressentimento contra a me foi apontado no trabalho sobre 'Alguns Tipos de Carter' (1916d), Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, pgs. 355-6, IMAGO 
Editora, 1974, e outros fundamentos para esse ressentimento foram enumerados no caso clnico de parania, um pouco anterior (1915f), ibid., pgs. 301-2.
         Tampouco a base fundamental da nova tese deixara de ser enunciada, embora durante longos perodos parecesse esquecida. Nos Trs Ensaios encontramos a afirmao 
direta de que o primeiro objeto sexual da criana  o seio da me e que esse constitui o prottipo de toda relao amorosa posterior (Edio Standard Brasileira, 
Vol. VII, pgs. 228-9, IMAGO Editora, 1972). Pretendia-se claramente que isso fosse verdadeiro tanto com relao s meninas quanto aos meninos, mas parece ser explicitamente 
repetido pela primeira vez aqui ([1]). A dupla mudana, exigida da menina antes que ela possa chegar ao complexo de dipo 'normal', se torna assim evidente: uma 
modificao em seu rgo sexual principal e uma modificao em seu objeto sexual. E o caminho se abre para uma investigao de sua fase 'pr-edipiana', juntamente 
com as diferenas entre meninas e meninos implicadas pelas hipteses de O Ego e o Id - a diferena na relao de seus complexos de castrao e de dipo, e a diferena 
ulterior na construo de seus superegos.  a sntese desses diversos fragmentos de conhecimento, derivados de extratos histricos to amplamente separados do trabalho 
de Freud, que concede ao presente artigo sua importncia.
         
         ALGUMAS CONSEQNCIAS PSQUICAS DA DISTINO ANATMICA ENTRE OS SEXOS
         
         Em meus prprios escritos e naqueles de meus seguidores, sempre mais nfase  dada  necessidade de que as anlises de neurticos lidem de modo completo 
com o perodo mais remoto de sua infncia, a poca da primeira e florescncia da vida sexual. Apenas examinando-se as primeiras manifestaes da constituio instintual 
inata do paciente e os efeitos de suas primeiras experincias, que de fato podemos avaliar com exatido as foras motivadoras que levaram  sua neurose, e estar 
seguros contra os erros a que poderamos ser induzidos pelo grau em que as coisas se tornaram remodeladas e sobrepostas na vida adulta. Essa exigncia no  apenas 
de importncia terica, mas tambm prtica, de vez que ela distingue nossos esforos do trabalho daqueles mdicos cujos interesses se focalizam exclusivamente nos 
resultados teraputicos, e que empregam mtodos analticos, embora apenas at certo ponto. Uma anlise da primeira infncia como a que estamos considerando  tediosa 
e laboriosa, e faz, tanto ao mdico quanto ao paciente, exigncias nem sempre possveis de ser cumpridas. Ademais, ela nos conduz a regies obscuras onde ainda no 
existem postes sinalizadores. De fato, os analistas podem se sentir seguros, penso eu, de que no h risco de seu trabalho tornar-se mecnico e perder assim seu 
interesse, durante as prximas dcadas.
         Nas pginas seguintes apresento alguns achados de pesquisa analtica que seriam de grande importncia, caso se pudesse provar que so universalmente aplicveis. 
Por que no adiei sua publicao at que a experincia ulterior me tivesse dado as provas necessrias, se  que se possa obter tais provas? Porque as condies sob 
as quais trabalho experimentaram uma mudana, com implicaes que no posso disfarar. Antigamente eu no contava entre aqueles incapazes de reter o que parece ser 
uma nova descoberta, at que tenha sido confirmada ou corrigida. A Interpretao de Sonhos (1900a) e 'Fragmento da Anlise de um Caso de Histeria' (1905e) (o caso 
de Dora) foram por mim retidos - se no pelos nove anos prescritos por Horcio - pelo menos durante quatro ou cinco anos, antes que eu lhes permitisse serem publicados. 
Naqueles dias, porm, eu tinha tempo ilimitado  minha frente - 'oceans of time'  como um autor afvel o diz - e o materialdespejava-se sobre mim em tais quantidades 
que mal se podia escapar a novas experincias. Ademais, eu era o nico a trabalhar em um campo novo, de modo que minha reticncia no envolvia perigo para mim nem 
perda para os outros.
         Hoje, porm, tudo mudou. O tempo  minha frente  limitado. Sua totalidade no  mais gasta no trabalho, de modo que minhas oportunidades de efetuar novas 
observaes no so to numerosas. Se penso perceber algo de novo, fico incerto quanto a se posso esperar que se confirme. E, alm disso, tudo quanto h de ser visto 
 superfcie j foi exaurido; o que resta tem de ser lenta e penosamente arrastado para cima, desde as profundezas. Finalmente, no estou mais sozinho. Um grupo 
vido de companheiros de trabalho est apto a fazer uso daquilo que  inacabado ou duvidoso, e posso deixar-lhes aquela parte do trabalho que, doutra maneira, eu 
prprio teria realizado. Desta vez, portanto, sinto-me justificado em publicar algo que est em urgente necessidade de confirmao, antes que seu valor, ou falta 
de valor, possa ser decidido.
         Examinando as primeiras formas mentais assumidas pela vida sexual das crianas, habituamo-nos a tomar como tema de nossas investigaes a criana do sexo 
masculino, o menino. Com as meninas, assim supnhamos, as coisas deviam ser semelhantes, embora de um modo ou de outro elas tenham, no obstante, de ser diferentes. 
O ponto do desenvolvimento em que reside essa diferena no podia ser claramente determinado.
         Nos meninos, a situao do complexo de dipo  o primeiro estdio possvel de ser identificado com certeza.  fcil de compreender, de vez que nesse estdio 
a criana retm o mesmo objeto que previamente catexizou com sua libido - no ainda um objeto genital - durante o perodo precedente, enquanto estava sendo amamentada 
e cuidada. Tambm o fato de que, nessa situao, encare o pai como um rival perturbador e goste de se ver livre dele e tomar-lhe o lugar,  conseqncia direta do 
estado real de coisas. Demonstrei alhures  como a atitude edipiana nos meninos pertence  fase flica e como sua destruio  ocasionada pelo temor da castrao 
- isto , pelo interesse narcsico nos rgos genitais. O assunto fica mais difcil de apreender pela circunstncia complicante de que mesmo em meninos o complexo 
de dipo possui uma orientao dupla, ativa e passiva, de acordo com suaconstituio bissexual; o menino tabm deseja tomar o lugar de sua me como objeto de amor 
de seu pai - fato que descrevemos como sendo a atitude feminina.
         Com referncia  pr-histria do complexo de dipo nos meninos, estamos longe da clareza completa. Sabemos que esse perodo inclui uma identificao de 
tipo afetuoso com o pai do menino, identificao que ainda est livre de qualquer sentimento de rivalidade com relao  sua me. Outro elemento desse estdio , 
acredito, invariavelmente uma atividade masturbatria vinculada aos rgos genitais, a masturbao da primeira infncia, cuja supresso mais ou menos violenta da 
parte daqueles que esto encarregados da criana pe em ao o complexo de castrao. Deve-se presumir que essa masturbao est ligada ao complexo de dipo e sirva 
como descarga para a excitao sexual que lhe  prpria. Contudo,  incerto se a masturbao possui esse carter desde o incio, ou se, pelo contrrio, efetua seu 
primeiro aparecimento espontaneamente, como uma atividade de um rgo corporal, e s  colocada em relao ao complexo de dipo em alguma data posterior; essa segunda 
possibilidade , de longe, a mais provvel. Outra questo duvidosa  o papel desempenhado pela enurese noturna e pelo rompimento desse hbito mediante a interveno 
de medidas de educao. Estamos inclinados a estabelecer a conexo simples de que a enurese continuada  um resultado da masturbao e que sua supresso  encarada 
pelos meninos como uma inibio de sua atividade genital - isto , como mantendo o significado de uma ameaa de castrao; contudo, ainda resta ver se estamos sempre 
corretos em fazer essa suposio. Finalmente, a anlise nos demonstrou de maneira obscura como o fato de uma criana em idade muito precoce escutar os pais copularem, 
pode desencadear sua primeira excitao sexual e como esse acontecimento pode, devido a seus efeitos posteriores, agir como ponto de partida para todo o desenvolvimento 
sexual da criana. A masturbao, bem como as duas atitudes do complexo de dipo, posteriormente se liga a essa experincia primitiva, tendo a criana subseqentemente 
interpretado seu significado.  impossvel, contudo, supor que essas observaes de coito sejam de ocorrncia universal, de modo que a essa altura nos defrontamos 
com o problema das 'fantasias primitivas'. Assim, a pr-histria do complexo de dipo, mesmo nos meninos, levanta todas essas questes para seleo e explanao, 
e existe aindao problema de saber se devemos supor que o processo invariavelmente segue o mesmo curso, ou se grande variedade de estdios preliminares diferentes 
no pode convergir para a mesma situao final.
         Nas meninas, o complexo de dipo levanta um problema a mais que nos meninos. Em ambos os casos, a me  o objeto original, e no constitui causa de surpresa 
que os meninos retenham esse objeto no complexo de dipo. Como ocorre, ento, que as meninas o abandonem e, ao invs, tomem o pai como objeto? Perseguindo essa questo 
pude chegar a algumas concluses capazes de lanar luz exatamente sobre a pr-histria da relao edipiana nas meninas.
         Todo analista j deparou com certas mulheres que se aferram com intensidade e tenacidade especiais  ligao com o pai e ao desejo, em que esse vnculo 
culmina, de terem um filho seu. Temos boas razes para supor que a fantasia de desejo foi tambm a fora motivadora de sua masturbao infantil, e  fcil formar 
a impresso de que, nesse ponto, viemos dar contra um fato elementar e no analisvel da vida sexual infantil. Entretanto, uma anlise rigorosa desses prprios casos 
traz  luz algo diferente, ou seja, que aqui o complexo de dipo tem uma longa pr-histria e constitui, sob certos aspectos, uma formao secundria.
         O antigo pediatra Lindner [1879] certa vez observou que a criana descobre as zonas genitais (o pnis ou o clitris) como fonte de prazer enquanto se entrega 
ao sugar sensual (sugar do polegar). Deixarei como questo aberta saber se realmente procede que a criana assume a fonte de prazer, que acaba de descobrir, em troca 
da perda recente do mamilo da me - possibilidade a que fantasias posteriores (felao) parecem apontar. Seja como for, a zona genital  descoberta em alguma ocasio 
ou outra e no parece haver justificativa para atribuir qualquer contedo psquico s primeiras atividades a ela vinculadas. O primeiro passo na fase flica iniciada 
dessa maneira no  a vinculao da masturbao s catexias objetais do complexo de dipo, mas uma momentosa descoberta que as meninas esto destinadas a fazer. 
Elas notam o pnis de um irmo ou companheiro de brinquedo, notavelmente visvel e de grandes propores, e imediatamente o identificam com o correspondente superior 
de seu prprio rgo pequeno e imperceptvel; dessa ocasio em diante caem vtimas da inveja do pnisExiste um contraste interessante entre o comportamento dos dois 
sexos. Na situao anloga, quando um menino pela primeira vez chega a ver a regio genital de uma menina, comea por demonstrar irresoluo ou falta de interesse; 
no v nada ou rejeita  o que viu, abranda a expresso dele ou procura expedientes para coloc-lo de acordo com suas expectativas. Somente mais tarde, quando possudo 
de alguma ameaa de castrao,  que a observao se torna importante para ele; se ento a relembra ou repete, ela desperta nele uma terrvel tormenta de emoo 
e o fora a acreditar na realidade da ameaa de que havia rido at ento. Essa combinao de circunstncias conduz a duas reaes, capazes de se tornarem fixas e, 
se assim for, quer separada, quer juntamente, quer em conjunto com outros fatores, determinaro permanentemente as relaes do menino com as mulheres: horror da 
criatura mutilada ou desprezo triunfante por ela. Esses desfechos, contudo, pertencem ao futuro, embora no muito remoto.
         A menina se comporta diferentemente. Faz seu juzo e toma sua deciso num instante. Ela o viu, sabe que no o tem e quer t-lo.
         Aqui, aquilo que foi denominado de complexo de masculinidade das mulheres se ramifica. Pode colocar grandes dificuldades no caminho de seu desenvolvimento 
regular no sentido da feminilidade, se no puder ser superado suficientemente cedo. A esperana de algum dia obter um pnis, apesar de tudo, e assim tornar-se semelhante 
a um homem, pode persistir at uma idade incrivelmente tardia e transformar-se em motivo para aes estranhas e doutra maneira inexplicveis. Ou, ainda, pode estabelecer-se 
um processo que eu gostaria de chamar de 'rejeio', processo que, na vida mental dascrianas, no aparece incomum nem muito perigoso, mas em um adulto significaria 
o comeo de uma psicose. Assim, uma menina pode recusar o fato de ser castrada, enrijecer-se na convico de que realmente possui um pnis e subseqentemente ser 
compelida a comportar-se como se fosse homem.
         As conseqncias da inveja do pnis, na medida em que no  absorvida na formao reativa do complexo de masculinidade, so vrias e de grande alcance. 
Uma mulher, aps ter-se dado conta da ferida ao seu narcisismo, desenvolve como cicatriz um sentimento de inferioridade. Quando ultrapassou sua primeira tentativa 
de explicar sua falta de pnis como uma punio pessoal para si mesma, e compreendeu que esse carter sexual  universal, ela comea a partilhar do desprezo sentido 
pelos homens por um sexo que  inferior em to importante aspecto, e, pelo menos no sustentar dessa opinio, insiste em ser como um homem.
         Mesmo aps a inveja do pnis ter abandonado seu verdadeiro objeto, ela continua existindo: atravs de um fcil deslocamento, persiste no trao caracterstico 
do cime. Naturalmente, o cime no se limita a um nico sexo e tem um fundamento mais amplo, porm sou de opinio que ele desempenha um papel muito maior na vida 
mental das mulheres que na dos homens e isso se deve ao fato de ser enormemente reforado por parte da inveja do pnis deslocada. Antes, quando ainda no estava 
ciente dessa fonte do cime e considerava a fantasia 'uma criana  espancada', que ocorre to comumente em meninas, constru para ele uma primeira fase na qual 
seu significado consistia em que outra criana, uma rival de quem o indivduo tinha cimes, deveria ser espancada. Essa fantasia parece constituir uma relquia do 
perodo flico nas meninas. A rigidez peculiar que tanto me impressionou na frmula montona 'uma criana  espancada' provavelmente pode ser interpretada de modo 
especial. A criana que est sendo espancada (ou acariciada) pode, em ltima anlise, ser nada mais nada menos que o prprio clitris, de maneira que, em seu nvel 
mais inferior, a afirmao conter uma confisso de masturbao, a qual permaneceu ligada ao contedo da frmula desde seu incio, na fase flica, at a vida posterior.
         Uma terceira conseqncia da inveja do pnis parece ser um afrouxamento da relao afetuosa da menina com seu objeto materno. A situao como um todo no 
 muito clara, contudo pode-se perceber que, no final, a me da menina, que a enviou ao mundo assim to insuficientemente aparelhada,  quase sempre considerada 
responsvel por sua falta de pnis. A forma pela qual isso historicamente ocorre consiste, com freqncia, no fato de que a menina, logo aps ter descoberto que 
seus rgos genitais so insatisfatrios, comea a demonstrar cimes de outra criana, baseando-se em que sua me gosta mais dessa criana do que dela, o que serve 
de razo para ela abandonar sua ligao com sua me. Isso ento ter efeito, se a criana que foi preferida pela me se tornar o primeiro objeto da fantasia de espancamento 
que termina em masturbao.
         Um outro surpreendente efeito da inveja do pnis, ou da descoberta da inferioridade do clitris, existe e , indubitavelmente, o mais importante de todos. 
No passado, amide formei a impresso de que, em geral, as mulheres toleram a masturbao de modo pior que os homens, de que mais freqentemente lutam contra ela 
e so incapazes de us-la em circunstncias nas quais um homem se valeria dela como via de escape, sem qualquer hesitao. A experincia sem dvida trar  tona 
inumerveis excees a essa afirmativa se tentarmos transform-la em uma regra. As reaes de indivduos humanos de ambos os sexos naturalmente se constituem em 
traos masculinos e femininos. No obstante, pareceu-me que a masturbao est mais afastada da natureza das mulheres que da dos homens e a soluo do problema poderia 
ser auxiliada pela reflexo de que a masturbao, pelo menos do clitris,  uma atividade masculina, e que a eliminao da sexualidade clitoridiana constitui precondio 
necessria para o desenvolvimento da feminilidade.Anlises do perodo flico remoto ensinaram-me hoje que nas meninas, logo aps os primeiros sinais de inveja do 
pnis, manifesta-se uma intensa corrente de sentimento contra a masturbao, a qual no pode ser atribuda exclusivamente  influncia educacional daqueles encarregados 
da criana. Esse impulso  claramente um precursor da onda de represso que, na puberdade, extinguir grande quantidade da sexualidade masculina da menina, a fim 
de dar espao ao desenvolvimento de sua feminilidade. Pode acontecer que essa primeira oposio  atividade auto-ertica no logre atingir seu fim. E com efeito, 
esse foi o caso nos exemplos que analisei. O conflito continuou e na ocasio, como tambm mais tarde, a menina fez tudo quanto podia para se libertar da compulso 
a masturbar-se. Muitas das manifestaes posteriores da vida sexual das mulheres permanecem ininteligveis, a menos que esse poderoso motivo seja reconhecido.
         No posso explicar a oposio que por esse modo  levantada pelas meninas  masturbao flica, exceto supondo existir algum fator concorrente que faa 
a menina voltar-se violentamente contra essa atividade prazerosa. Esse fator est bem  mo. No pode ser outra coisa seno seu sentimento narcsico de humilhao 
ligado  inveja do pnis, o lembrete de que, afinal de contas, esse  um ponto no qual ela no pode competir com os meninos, e que assim seria melhor para ela abandonar 
a idia de faz-lo. Seu reconhecimento da distino anatmica entre os sexos fora-a a afastar-se da masculinidade e da masturbao masculina, para novas linhas 
que conduzem ao desenvolvimento da feminilidade.
         At aqui no se cogitou do complexo de dipo, nem at esse ponto desempenhou ele qualquer papel. Agora, porm, a libido da menina desliza para uma nova 
posio ao longo da linha - no h outra maneira de exprimi-lo - da equao 'pnis-criana'. Ela abandona seu desejo de um pnis e coloca em seu lugar o desejo de 
um filho; com esse fim em vista, toma o pai como objeto de amor. A me se torna o objeto de seu cime. A menina transformou-se em uma pequena mulher. Se dou crdito 
a um nico exemplo analtico, essa nova situao pode gerar sensaes fsicas que se teria de considerar como um despertar prematuro do aparelho genital feminino. 
Malogrando-se mais tarde e tendo de ser abandonada, a ligao da menina a seu pai pode ceder lugar a umaidentificao com ele, e pode ser que assim a menina retorne 
a seu complexo de masculinidade e, talvez, permanea fixada nele.
         Agora j expus a essncia do que tinha a dizer: portanto me detenho, e porei o olhar sobre nossos achados. Alcanamos determinada compreenso interna (insight) 
da pr-histria do complexo de dipo nas meninas. Nas meninas, o complexo de dipo  uma formao secundria. As operaes do complexo de castrao o precedem e 
preparam. A respeito da relao existente entre os complexos de dipo e de castrao, existe um contraste fundamental entre os dois sexos. Enquanto, nos meninos, 
o complexo de dipo  destrudo pelo complexo de castrao, nas meninas ele se faz possvel e  introduzido atravs do complexo de castrao. Essa contradio se 
esclarece se refletirmos que o complexo de castrao sempre opera no sentido implcito em seu contedo: ele inibe e limita a masculinidade e incentiva a feminilidade. 
A diferena entre o desenvolvimento sexual dos indivduos dos sexos masculino e feminino no estdio que estivemos considerando  uma conseqncia inteligvel da 
distino anatmica entre seus rgos genitais e da situao psquica a envolvida; corresponde  diferena entre uma castrao que foi executada e outra que simplesmente 
foi ameaada. Em suas essncias, portanto, nossos achados so evidentes em si mesmos e teria sido possvel prev-los.
         O complexo de dipo, contudo,  uma coisa to importante que o modo por que o indivduo nele se introduz e o abandona no pode deixar de ter seus efeitos. 
Nos meninos (como demonstrei amplamente no artigo a que acabo de me referir [1924d] e ao qual todas as minhas atuais observaes esto estreitamente relacionadas), 
o complexo no  simplesmente reprimido;  literalmente feito em pedaos pelo choque da castrao ameaada. Suas catexias libidinais so abandonadas, dessexualizadas, 
e, em parte, sublimadas; seus objetos so incorporados ao ego, onde formam o ncleo do superego e fornecem a essa nova estrutura suas qualidades caractersticas. 
Em casos normais, ou melhor em casos ideais, o complexo de dipo no existe mais, nem mesmo no inconsciente; o superego se tornou seu herdeiro. De vez que o pnis 
(para acompanhar Ferenczi [1924]) deve sua catexia narcsica extraordinariamente elevada  sua significao orgnica para a propagao da espcie, a catstrofe que 
ocorre no complexo de dipo (o abandono do incesto e a instituio da conscincia e da moralidade) pode ser considerada uma vitria da raa sobre o indivduo. Isso 
constitui um ponto devista interessante quando se considera que a neurose se baseia em uma luta do ego contra as exigncias da funo sexual. Entretanto, abandonar 
o ponto de vista da psicologia individual no  qualquer auxlio imediato no esclarecimento dessa complicada situao.
         Nas meninas est faltando o motivo para a demolio do complexo de dipo. A castrao j teve seu efeito, que consistiu em forar a criana  situao do 
complexo de dipo. Assim, esse complexo foge ao destino que encontra nos meninos: ele pode ser lentamente abandonado ou lidado mediante a represso, ou seus efeitos 
podem persistir com bastante nfase na vida mental normal das mulheres. No posso fugir  noo (embora hesite em lhe dar expresso) de que, para as mulheres, o 
nvel daquilo que  eticamente normal,  diferente do que ele  nos homens. Seu superego nunca  to inexorvel, to impessoal, to independente de suas origens 
emocionais como exigimos que o seja nos homens. Os traos de carter que crticos de todas as pocas erigiram contra as mulheres - que demonstram menor senso de 
justia que os homens, que esto menos aptas a submeter-se s grandes exigncias da vida, que so mais amide influenciadas em seus julgamentos por sentimentos de 
afeio ou hostilidade - todos eles seriamamplamente explicadospela modificao na formao de seu superego que acima inferimos. No devemos nos permitir ser desviados 
de tais concluses pelas negaes dos feministas, que esto ansiosos por nos forar a encarar os dois sexos como completamente iguais em posio e valor; mas, naturalmente, 
concordaremos de boa vontade que a maioria dos homens tambm est muito aqum do ideal masculino e que todos os indivduos humanos, em resultado de sua disposio 
bissexual e da herana cruzada, combinam em si caractersticas tanto masculinas quanto femininas, de maneira que a masculinidade e a feminilidade puras permanecem 
sendo construes tericas de contedo incerto.
         Estou inclinado a atribuir algum valor s consideraes que apresentei sobre as conseqncias psquicas da distino anatmica entre os sexos. Estou ciente, 
contudo, de que essa opinio s pode ser sustentada se meus achados, que se baseiam em um bocado de casos, demonstrarem possuir validade geral e serem tpicos. Se 
no, eles permanecero no mais que uma contribuio ao nosso conhecimento dos diferentes caminhos pelos quais a vida sexual se desenvolve.
         Nos valiosos e abrangentes estudos sobre os complexos de masculinidade e castrao nas mulheres, da autoria de Abraham (1921), Horney (1923) e Helene Deutsch 
(1925), existe muita coisa que toca de perto naquilo que escrevi, nada, contudo, que coincida com ele completamente; de modo que, mais uma vez, me sinto justificado 
em publicar este trabalho.
         
         
         











JOSEF POPPER-LYNKEUS E A TEORIA DOS SONHOS (1923)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         JOSEF POPPER-LYNKEUS UND DIE THEORIE DES TRAUMES
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1923 Allgemeine Nhrpflicht (Viena), 6.
         1928 G.S., 11, 295-7.
         1940 G.W., 13, 357-9.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
         'Josef Popper-Lynkeus and the Theory of Dreams'
         
         A presente traduo inglesa, da autoria de James Strachey,  a primeira a aparecer em ingls.
         
         Josef Popper (1838-1921) era engenheiro de profisso mas bem conhecido na ustria por seus escritos (sob o pseudnimo de 'Lynkeus'), principalmente sobre 
assuntos filosficos e sociolgicos. Um relato de seus planos de reforma social ser encontrado em um livro da autoria de Fritz Wittels, publicado em ingls sob 
o ttulo de An End to Poverty (Londres, 1925). O livro tambm contm uma curta biografia do prprio Popper da autoria dos tradutores, Eden e Cedar Paul. O volume 
de breves esboos imaginativos, Phantasien eines Realisten, que  o assunto das observaes de Freud, foi consideravelmente popular e teve muitas edies, tendo 
a vigsima primeira aparecido em 1921. O artigo de Freud sem dvida foi escrito por ocasio da morte de seu autor, para publicao em um peridico que, como o ttulo 
demonstra, invocava a proviso universal da subsistncia e devia sua inspirao a Popper. Freud escreveu outro trabalho cerca de 10 anos mais tarde (1932c)
         
         JOSEF POPPER-LYNKEUS E A TEORIA DOS SONHOS
         
         Muita coisa interessante existe para ser dita sobre o assunto da originalidade cientifica aparente. Quando alguma idia nova ocorre na cincia, saudada 
a princpio como uma descoberta e, via de regra, tambm discutida como tal, a pesquisa objetiva logo aps revela que, afinal de contas, a idia de fato no era novidade. 
Geralmente a descoberta j fora efetuada repetidas vezes e posteriormente esquecida, muitas vezes por intervalos de tempos muito longos. Ou ao menos tivera precursores, 
fora obscuramente conjecturada ou incompletamente enunciada. Tudo isso  demais conhecido para que se exija maior discusso.
         O lado subjetivo da originalidade, contudo, tambm merece considerao. Um cientista pode s vezes perguntar-se qual foi a fonte das idias, a ele peculiares, 
que aplicou a seu material. A respeito de algumas delas descobrir sem muita reflexo as sugestes das quais derivaram, as afirmativas feitas por outras pessoas, 
que ele recolheu e modificou, e cujas implicaes elaborou. Em relao a outras de suas idias, porm, no pode fazer tais admisses; somente supor que esses pensamentos 
e linhas de abordagem foram gerados - no pode dizer como - em sua prpria atividade mental, sendo neles que fundamenta sua reivindicao  originalidade.
         Uma cuidadosa investigao psicolgica, contudo, diminui ainda mais essa reivindicao. Ela revela fontes ocultas e h muito esquecidas, que forneceram 
o estmulo para as idias aparentemente originais, e substitui a nova criao ostensiva por uma revivescncia de algo esquecido aplicado a material novo. Nada h 
por que lamentar nisso; no tnhamos direito de esperar que aquilo que era 'original' no pudesse ser rastreado e determinado.
         Em meu caso, tambm, a originalidade de muitas entre as novas idias que utilizei na interpretao de sonhos e na psicanlise, evaporou-se dessa maneira. 
Ignoro a fonte de somente uma dessas idias. Tratava-se de nada menos que a chave para minha opinio sobre os sonhos e ela me auxiliou a solucionar seus enigmas, 
desde quando tenha sido possvel solucion-los at aqui. Comecei a partir do carter estranho, confuso e insensato de tantos sonhos e deparei com a noo de que 
eles estavam comprometidos a se tornarem assim, de vez que neles algo lutava em busca de expresso,  qual se opunha uma resistncia oriunda de outras foras mentais. 
Nos sonhos, impulsos ocultos despertavam o que estava em contradio com aquilo que se poderia chamar de credo tico e esttico oficial daquele que sonhava; este 
pois se envergonhava desses impulsos, voltava-lhes as costas e recusava-se a reconhec-los de dia; e se, durante a noite, no podia evitar algumaexpresso por parte 
deles, submetia-os a uma 'deformao onrica', que fazia o contedo do sonho parecer confuso e insensato.  fora mental nos seres humanos que mantm vigilncia 
sobre essa contradio interna e deforma os impulsos instintuais primitivos do sonho em favor de padres morais convencionais ou mais elevados, dei o nome de 'censura 
de sonhos'.
         Justamente essa parte essencial de minha teoria dos sonhos, contudo, foi descoberta por Popper-Lynkeus independentemente. Pedirei ao leitor para comparar 
a seguinte citao de uma histria chamada 'Trumen wie Wachen' ['Sonhar Acordado'] em suas Phantasien eines Realisten [Fantasias de um Realista], certamente redigida 
na ignorncia da teoria dos sonhos que publiquei em 1900, tal como eu prprio me via ento na ignorncia das Phantasien de Lynkeus.
         'A respeito de um homem que possua o notvel atributo de jamais sonhar absurdos...
         '"Esse seu esplndido dom, de sonhar como se estivesse desperto,  uma conseqncia de suas virtudes, de sua bondade;  a serenidade moral de sua natureza 
que me faz compreender tudo a seu respeito."
         '"Mas quando penso sobre o assunto de modo correto", respondeu o outro, "quase acredito que todos so como eu e que absolutamente ningum jamais sonha absurdos. 
Qualquer sonho que se pode recordar de modo suficientemente claro para descrev-lo posteriormente - qualquer sonho, equivale a dizer, que no seja um sonho febril 
- deve sempre fazer sentido e no poderia ser de outro modo, porque coisas entre si contraditrias no poderiam se agrupar em um todo nico. O fato de que tempo 
e espao sejam amide lanados em confuso no afeta o contedo verdadeiro do sonho, porquanto, indubitavelmente, nenhum dos dois  significncia para sua essncia 
real. Com freqncia fazemos o mesmo na vida desperta. Pense apenas nos contos de fadas e nos muitos e audaciosos produtos da imaginao plenos de significao, 
dos quais apenas um homem sem inteligncia poderia dizer: 'Isso  absurdo, pois  impossvel.'"
         '"Se apenas sempre se soubesse como interpretar sonhos da maneira correta, como voc acabou de fazer com o meu!" disse seu amigo.
         '"Isso certamente no  fcil, mas, com um pouco de ateno por parte daquele mesmo que sonhou, sem dvida sempre resultaria em xito. Voc pergunta, por 
que  que, para a maioria, no h xito? Em vocs, outras pessoas, parece sempre haver algo que jaz escondido em seus sonhos, algolibertino num sentido especial 
e mais elevado, determinada qualidade secreta em seu ser, difcil de acompanhar. Por isso mesmo que seus sonhos to amide parecem sem sentido, ou at absurdos. 
No sentido mais profundo, porm, afinal no  assim; com efeito, no pode s-lo em absoluto - pois se trata sempre do mesmo homem, esteja acordado ou sonhando."'
         Acredito ter sido minha coragem moral o que me capacitou a descobrir a causa da deformao onrica. No caso de Popper, foi a pureza, o amor pela verdade 
e a serenidade moral de sua natureza.
         
         
         





















DR. SNDOR FERENCZI (EM SEU 50 ANIVERSRIO) (1923)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DR. SNDOR FERENCZI (ZUM 50. GEBURTSTAG)
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1923 Int. Z. Psychoanal., 9, (3), 257-9.
         1928 G.S., 11, 273-5.
         1940 G.W., 13, 443-5.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Dr. Sndor Ferenczi (on his 50th Birthday)'
         
         A presente traduo inglesa, da autoria de James Strachey, parece ser a primeira em ingls.
         
         Este trabalho apareceu pela primeira vez, sobre a assinatura 'Herausgeber und Redaktion (Editor e Redao)', como introduo a um nmero especial da Zeitschrift 
que comemorava o qinquagsimo aniversrio de Ferenczi.
         
         DR. SNDOR FERENCZI (EM SEU 50 ANIVERSRIO)
         
         No muitos anos aps sua publicao (em 1900), A Interpretao de Sonhos caiu nas mos de um jovem mdico de Budapest que, embora fosse neurologista, psiquiatra 
e especialista em medicina legal, estava avidamente em busca de novos conhecimentos cientficos. Ele no foi muito adiante na leitura do livro; muito cedo jogou-o 
de lado - se por tdio ou repugnncia, no se sabe. Pouco depois, porm, a invocao de novas possibilidades de trabalho e descoberta levou-o a Zurique e, de l, 
foi conduzido a Viena a fim de encontrar o autor do livro que um dia, com desprezo, deixara de lado. Essa primeira visita foi sucedida por uma longa, ntima e at 
hoje imperturbada amizade, no decorrer da qual tambm efetuou a viagem aos Estados Unidos, em 1909, a fim de pronunciar conferncias na Universidade Clark, em Worcester, 
Mass.
         Esses foram os comeos de Ferenczi, que, desde ento, se tornou, ele prprio, mestre e professor de psicanlise e que, no presente ano, 1923, completa igualmente 
o qinquagsimo aniversrio de seu nascimento e a primeira dcada de sua liderana da Sociedade Psicanaltica de Budapest.
         Ferenczi repetidas vezes tambm teve um desempenho nos assuntos externos da psicanlise. Ser lembrado seu aparecimento no Segundo Congresso Analtico, 
de Nuremberg, em 1910, onde props e ajudou a realizar a fundao de uma Associao Psicanaltica Internacional, como meio de defesa contra o desprezo com que a 
anlise era tratada pela medicina legal. No Quinto Congresso Analtico, em Budapest, em setembro de 1918, foi eleito presidente da Associao. Indicou Anton von 
Freund como secretrio e no h dvida de que a energia combinada dos dois homens, juntamente com os generosos planos de doao de Freund, teriam transformado Budapest 
na capital analtica da Europa, no tivessem as catstrofes polticas e a tragdia pessoal posto um fim inexorvel a essas belas esperanas. Freuud caiu enfermo 
e faleceu em janeiro de 1920. Em vista do isolamento de contato da Hungria com o resto do mundo, Ferenczi renunciou  sua posio em outubro de 1919 e transferiu 
a presidncia da Associao Internacional para Ernest Jones, em Londres. Pelo espao de durao da Repblica Sovitica na Hungria, foram atribudas a Ferenczi as 
funes de professor universitrio e suas conferncias atraam multides. A Sociedade Filial, que ele fundara em 1913, sobreviveu a todas as tormentas e, sob sua 
orientao, tornou-se um centro de trabalho intenso e produtivo; e distinguiu-se por um acmulo de capacidades, como no foram exibidas em combinao por nenhuma 
outra sociedade filial. Ferenczi, que, como filho do meio numa grande famlia, teve de lutar com um poderoso complexo fraterno, tornou-se, sob a influncia da anlise, 
um irmo mais velho irrepreensvel, um professor bondoso e um promovedor de talentos jovens.
         Os escritos analticos de Ferenczi tornaram-se universalmente conhecidos e apreciados. Foi somente em 1922 que suas Conferncias Populares sobre Psicanlise 
foram publicadas por nossa Verlag [casa editora], como o volume XIII da 'Internationale Psychoanalytische Bibliotek'. Essas palestras, claras e formalmente perfeitas, 
s vezes escritas de forma deveras fascinante, oferecem o que  de fato a melhor 'Introduction to Psycho-Analysis'  para aqueles que no esto familiarizados com 
ela. Ainda no existe uma compilao [alem] de seus escritos mdicos [psicanalticos] puramente tcnicos, dos quais certo nmero foi traduzido para o ingls por 
Ernest Jones. A Verlag cumprir essa tarefa assim que tempos mais favorveis o tornem possvel. Aqueles de seus livros e artigos que apareceram em hngaro, tiveram 
muitas edies e tornaram a anlise familiar aos crculos cultos da Hungria.
         A realizao cientfica de Ferenczi  impressionante, sobretudo em virtude de sua multilateralidade. Alm dos casos clnicos bem escolhidos e comunicaes 
clnicas agudamente observadas ('A Little Chanticleer' [1913a)], 'Transitory Symptom-Construction during the Analysis' [1912a] e trabalhos clnicos mais breves), 
encontramos escritos clnicos exemplares, tais como aqueles sobre Wandlungen und Symbole der Libido [1913b] de Jung, sobre as opinies de Rgis e Hesnard sobre a 
psicanlise [1915], assim como eficazes escritos polmicos, como aqueles contra Bleuler sobre o lcool [1911] e contra Putnam sobre a relao existente entre a psicanlise 
e afilosofia [1912b], moderados e dignos, malgrado seu carter de resoluo. No entanto, ao lado de todos esses esto os trabalhos sobre os quais a fama de Ferenczi 
principalmente repousa, onde sua originalidade, sua riqueza de idias e seu domnio de uma imaginao cientfica bem dirigida encontram to feliz expresso, e onde 
ampliou importantes sees da teoria psicanaltica e promoveu a descoberta de situaes fundamentais da vida mental: 'Introjection and Transference', incluindo um 
debate da teoria da hipnose [1909], 'Stages in the Development of the Sense of Reality' [1913c] e o seu exame do simbolismo [1912c]. Finalmente, h os trabalhos 
desses ltimos anos - 'The Psycho-Analysis of the War Neuroses' [1919b], Hysterie und Pathoneurosen [1919c] e, em colaborao com Holls, Psycho-Analysis and the 
Psychic Disorder of General Paresis [1922] (em que o interesse mdico progride das condies psicolgicas para os determinantes somticos), e suas abordagens a uma 
terapia 'ativa'.
         Por incompleta que essa enumerao possa parecer, seus amigos sabem que Ferenczi reteve at mais do que tenha sido capaz de resolver comunicar. Em seu qinquagsimo 
aniversrio, eles esto unidos para desejar que lhe possa ser garantida fora, lazer e disposio de mente, a fim de trazer seus planos cientficos  efetivao 
em novas realizaes.
         
         
         





























PREFCIO A JUVENTUDE DESORIENTADA, DE AICHHORN (1925)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         PREFACE TO AICHHORN'S VERW AHRLOSTE JUGEND
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1925 Em August Aichhorn, Verwahrloste Jugend, 5-6, Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. (1931, 2 ed.)
         1928 G.S., 11, 267-9.
         1948 G.W., 14, 565-7.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         1935 Em Aichhorn, Wayward Youth, v-vii, Nova Iorque: Viking Press. (Reimpresso em 1936, Londres: Putnam.) (Trad. no especificada.)
         1950 C.P., 5, 98-100. (Sob o ttulo 'Psycho-Analysis and Delinquency'.) (Trad. de James Strachey.)
         1951 Em Aichhorn, Wayward Youth, vii-ix, Londres: Imago Publisching Co. (Reimpresso revista da edio de 1935, mas com o Prefcio de Freud traduzido por 
James Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa constitui verso muito ligeiramente corrigida da publicada em 1950.
         
         Um estudo biogrfico de August Aichhorn (1878-1949), da autoria do Dr. K. R. Eissler, aparece na edio de 1951 da traduo inglesa de Wayward Youth. O 
livro de Aichhorn foi publicado pela primeira vez em julho de 1925. Freud fez outra breve referncia a ele em uma nota de rodap ao Captulo VII de O Mal-Estar na 
Civilizao (1930a).
         Um estudo mais amplo das relaes entre a psicanlise e a educao foi realizado por Freud em uma longa passagem no meio da Conferncia XXXIV de suas New 
Introductory Lectures (1933a).
         
         PREFCIO A JUVENTUDE DESORIENTADA, DE AICHHORN
         
         
         Nenhuma das aplicaes da psicanlise excitou tanto interesse e despertou tantas esperanas, e nenhuma, por conseguinte, atraiu tantos colaboradores capazes, 
quanto seu emprego na teoria e prtica da educao.  fcil compreender por qu, de vez que as crianas se tornaram o tema principal da pesquisa psicanaltica e 
substituram, assim, em importncia, os neurticos com os quais ela iniciou seus estudos. A anlise demonstrou como a criana continua a viver, quase inalterada, 
no doente, bem como naquele que sonha e no artista; lanou luz sobre as foras motivadoras e tendncias que estampam seu selo caracterstico sobre a natureza infantil 
e traou os estdios atravs dos quais a criana chega  maturidade. No  de admirar, portanto, que tenha surgido a expectativa de que o interesse psicanaltico 
nas crianas beneficiaria o trabalho da educao, cujo objetivo  orientar e assistir as crianas em seu caminho para diante e proteg-las de se extraviarem.
         Minha cota pessoal nessa aplicao da psicanlise foi muito leve. Em um primeiro estdio, aceitei o bon mot que estabelece existirem trs profisses impossveis 
- educar, curar e governar -, e eu j estava inteiramente ocupado com a segunda delas. Isto, contudo, no significa que desprezo o alto valor social do trabalho 
realizado por aqueles de meus amigos que se empenham na educao.
         O presente volume da autoria de August Aichhorn interessa-se por um setor do grande problema: a influenciao educacional de delinqentes juvenis. O autor 
trabalhou por muitos anos em posio oficial da competncia como diretor de instituies municipais para delinqentes, antes de ter-se familiarizado com a psicanlise. 
Sua atitude para com seus encargos originam-se de uma clida simpatia com a sorte desses infelizes e foi corretamente guiada por uma percepo intuitiva de suas 
necessidades mentais. A psicanlise praticamente pouco pde ensinar-lhe algo que fosse novo, porm lhe trouxe uma clara compreenso interna (insight) terica da 
justificativa de seu modo de agir e colocou-o em posio de explicar seu fundamento a outras pessoas.
         No devemos presumir que esse dom de compreenso intuitiva seja encontrado em todos aqueles que se interessaram pela educao de crianas. Segundo me parece, 
duas lies se pode derivar da experincia e do sucesso de August Aichhorn. Uma  que toda pessoa desse tipo deveria receber uma formao psicanaltica, de vez que 
sem esta as crianas, o objeto de seus esforos, permanecero sendo um problema inacessvel para ela. Uma formao desse gnero  mais bem executada se a prpria 
pessoa se submete auma anlise e a experimenta em si mesma; a instruo terica na anlise fracassa em penetrar bastante fundo e no traz convico.
         A segunda lio tem uma aura um tanto conservadora. Afirma-se no sentido de que o trabalho da educao  algo sui generis: no deve ser confundido com a 
influncia psicanaltica e no pode ser substitudo por ela. A psicanlise pode ser convocada pela educao como meio auxiliar de lidar com uma criana, porm no 
constitui um substituto apropriado para a educao. Tal substituio no s  impossvel em fundamentos prticos, como tambm deve ser desaconselhada por razes 
tericas. A relao entre a educao e o tratamento psicanaltico provavelmente logo ser o tema de uma investigao pormenorizada. Fornecerei aqui apenas algumas 
sugestes. No devemos deixar-nos desorientar pela afirmao - incidentalmente uma afirmao perfeitamente verdica - de que a psicanlise de um neurtico adulto 
 equivalente a uma ps-educao. Uma criana, mesmo uma criana desorientada e delinqente, ainda no  um neurtico, e a ps-educao  algo inteiramente diferente 
da educao dos imaturos. A possibilidade de influncia analtica repousa em precondies bastante definidas, que podem ser resumidas sob a expresso 'situao analtica'; 
ela exige o desenvolvimento de determinadas estruturas psquicas e de uma atitude especfica para com o analista. Onde estas faltam - como no caso de crianas, delinqentes 
juvenis e, via de regra, criminosos impulsivos - algo diferente da anlise tem de ser utilizado, embora algo que seja unssono com a anlise em seu intuito. Os captulos 
tericos do presente volume fornecero ao leitor uma apreenso preliminar da multiplicidade das decises envolvidas.
         Encerrarei com outra inferncia, desta vez uma inferncia importante no para a teoria da educao, mas para a condio daqueles que esto empenhados na 
educao. Se um deles aprendeu a anlise por experiment-la em sua prpria pessoa, e est em posio de poder empreg-la em casos fronteirios e mistos, a fim de 
auxili-lo em seu trabalho, obviamente dever ter o direito de praticar a anlise; e no se deve permitir que motivos mesquinhos tentem colocar obstculos em seu 
caminho.
         
         
         

























JOSEF BREUER (1925)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         JOSEF BREUER
         (a) EDIES ALEMS:
         1925 Int. Z. Psychoanal., 11 (2), 255-6.
         1928 G.S., 11, 281-3.
         1948 G.W., 14, 562-3.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         1925 Int. J. Psycho-Anal., 6, (4), 459-60. (Trad. desconhecido.)
         
         A presente traduo inglesa  nova, da autoria de James Strachey.
         
         As ltimas doze linhas deste obiturio foram citadas ao final da Nota do Editor Ingls a Estudos sobre a Histeria (1895d), Edio Standard Brasileira, Vol. 
II, pg. 36, IMAGO Editora, 1974, onde se encontrar tambm um estudo das relaes cientficas entre os dois colaboradores.
         
         JOSEF BREUER
         
         Em 20 de junho de 1925 faleceu em Viena, em seu octogsim quarto ano de idade, Josef Breuer, o criador do mtodo catrtico, cujo nome, por essa razo, est 
indissoluvelmente ligado aos primrdios da psicanlise.
         Breuer era mdico discpulo do clnico Oppolzer. Em sua juventude trabalhara na filosofia da respirao sob a orientao de Ewald Hering, e posteriormente, 
nas escassas horas de lazer que lhe permitia uma vasta clnica mdica, ocupou-se auspiciosamente com experimentos sobre a funo do aparelho vestibular nos animais. 
Nada em sua educao poderia levar algum a esperar que ele alcanasse a primeira compreenso interna (insight) decisiva do enigma, velho como os tempos, da neurose 
histrica e efetuasse uma contribuio de imperecvel valor para nosso conhecimento da mente humana. Ele, contudo, era um homem de dotes opulentos e universais e 
seus interesses se estendiam em muitas direes, muito alm de suas atividades profissionais.
         Foi em 1880  que a sorte ps em suas mos uma paciente fora do comum, uma jovem de inteligncia maior que a normal, que cara enferma de histeria grave 
enquanto cuidava de seu pai doente. Foi apenas cerca de quatorze anos mais tarde, em nossa publicao conjunta, Estudos sobre a Histeria (1895d) - e mesmo ento, 
infelizmente, apenas em forma muito abreviada, e censurada tambm, por consideraes de discrio mdica - que o mundo soube da natureza de seu tratamento desse 
clebre 'primeiro caso', do imenso cuidado e pacincia com que ele aplicou a tcnica, uma vez tendo-a descoberto, at a paciente se libertar de todos os sintomas 
incompreensveis de sua molstia, e que compreenso interna (insight) obteve ele, no decorrer do trabalho, dos mecanismos mentais das neuroses.
         Ns, psicanalistas, h muito tempo familiarizados com a idia de dedicar centenas de sesses a um nico paciente, no podemos formar uma concepo de quo 
novo um procedimento desses deve ter parecido h quarenta e cinco anos atrs. Deve ter exigido uma grande dose de interesse pessoal e, caso possamos permitir a expresso, 
de libido mdica, e exigido, contudo, tambm um considervel grau de liberdade de pensamento e certeza de julgamento. Na data da publicao de nossos Estudos pudemos 
apelar para os escritos de Charcot e as investigaes de Pierre Janet, que, por essa poca, haviam privado as descobertas de Breuer de um pouco de sua prioridade. 
Quando,porm, Breuer estava tratando seu primeiro caso (em 1881-82), nada disso estava ainda disponvel. O Automatisme psychologique de Janet apareceu em 1889 e 
seu segundo trabalho, L'tat mental des hystriques, somente em 1892. Parece que as pesquisas de Breuer foram inteiramente originais e dirigidas apenas pelas sugestes 
que lhe eram oferecidas pelo material de seu caso.
         Repetidas vezes tentei - mais recentemente em meu Autobiographical Study (1925d), na srie de Grote, Die Medizin der Gegenwart [Medicina Contempornea] 
- definir minha participao nos Estudos que publicamos conjuntamente. Meu mrito residiu principalmente em reviver em Breuer um interesse que parecia ter-se extinto 
e, depois, em o instar  publicao. Uma espcie de reserva que lhe era caracterstica, uma modstia interna, surpreendente em um homem de to brilhante personalidade, 
tinha-o levado a manter em segredo sua espantosa descoberta por tanto tempo que j no mais apresentava, toda ela, a condio de uma descoberta nova. Posteriormente 
encontrei razes para supor que tambm um fator puramente emocional lhe proporcionara determinada averso a um trabalho ulterior na elucidao das neuroses. Ele 
esbarrava contra algo que jamais est ausente - a transferncia do paciente para seu mdico, e no apreendera a natureza impessoal do processo. Na poca em que ele 
ficou sob a minha influncia e estava elaborando os Estudos para publicao, seu julgamento do significado da obra parecia estar confirmado. 'Creio', disse-me ele, 
'que esta  a coisa mais importante que ns dois temos a dar ao mundo.'
         Alm do caso clnico de sua primeira paciente, Breuer redigiu um artigo terico para os Estudos. Muito longe est de ser desatualizado; pelo contrrio, 
oculta pensamentos e sugestes que mesmo agora no foram levados em bastante conta. Qualquer um que se aprofunde neste ensaio especulativo formar uma verdadeira 
impresso da formao mental desse homem, cujos interesses cientficos foram, infelizmente, orientados na direo de nossa psicopatologia durante apenas um curto 
episdio de sua longa vida.
         
         







BREVES ESCRITOS (1922-25)
         
         PREFCIO A O MTODO PSICANALTICO, DE RAYMOND DE SAUSSURE
         
         Com grande prazer posso assegurar ao pblico que o presente trabalho da autoria do Dr. de Saussure  um livro de valor e mrito.  especialmente bem planejado 
para fornecer aos leitores franceses uma idia correta do que  a psicanlise e o que ela contm.
         O Dr. de Saussure no apenas estudou conscientemente meus escritos; foi mais alm e fez o sacrifcio de vir at mim para fazer uma anlise que durou vrios 
meses. Isso o colocou em situao de formar seu prprio juzo sobre a maioria daquelas questes em psicanlise ainda no decididas, e de evitar muitas deformaes 
e erros que se costuma encontrar em exposies da psicanlise, tanto francesas quanto alems. Sequer deixou ele de contradizer certas afirmaes falsas ou negligentes 
que os comentadores transmitem uns aos outros; por exemplo, a de que todos os sonhos tm um significado sexual ou a de que, como penso, a nica fora motivadora 
de nossa vida mental  a da libido sexual.
         Tendo o Dr. de Saussure dito em seu prefcio que eu corrigira seu trabalho, devo adicionar uma ressalva: minha influncia apenas se fez sentir em algumas 
correes e comentrios e de modo algum procurei usurpar a independncia do autor. Na primeira parte deste trabalho, a parte terica, eu teria exposto determinado 
nmero de coisas de modo diferente do seu: por exemplo, o difcil tpico do pr-consciente e do inconsciente. Sobretudo teria tratado o complexo de dipo de modo 
muito mais exaustivo.
         O excelente sonho que o Dr. Odier colocou  disposio do autor pode fornecer, mesmo aos no iniciados, uma idia da riqueza das associaes de sonhos e 
da relao existente entre a imagem onrica manifesta e os pensamentos latentes ocultos por trs dela. Ele demonstra tambm a significao que a anlise de um sonho 
pode ter no tratamento de um paciente.Finalmente, as observaes conclusivas feitas pelo autor sobre a tcnica da psicanlise so excelentes. Esto inteiramente 
corretas e, malgrado sua conciso, no abandonam nada de essencial. So uma prova convincente da sutil compreenso do autor. O leitor, naturalmente, no deve concluir 
que apenas o conhecimento dessas regras de tcnica o tornar capaz de empreender uma anlise.
         Atualmente a psicanlise comea a despertar, em maior escala, o interesse dos profissionais e do pblico leigo na Frana, tambm; ela certamente no encontrar 
l resistncias menores do que aquelas que anteriormente encontrou em outros pases. Esperemos que o livro do Dr. de Saussure realize uma contribuio importante 
para o esclarecimento dos debates que se estendem  frente.
         FREUD
         VIENA, fevereiro de 1922.
         
         
         PREFCIO AO RELATRIO SOBRE A POLICLNICA PSICANALTICA DE BERLIM (MARO DE 1920 A JUNHO DE 1922), DE MAX EITINGON (1923)
         
         Meu amigo Max Eitingon, que criou a Policlnica Psicanaltica de Berlim e at aqui a sustentou com seus prprios recursos, tornou pblicas, nas pginas 
seguintes, suas razes para fund-la, e forneceu tambm um relato da organizao e funes do instituto. Ao que escreveu s posso acrescentar meu desejo de que se 
possa encontrar em outras partes indivduos ou sociedades que sigam o exemplo de Eitingon e criem instituies semelhantes. Se a psicanlise, ao lado de sua significao 
cientfica, tem valor como procedimento teraputico, se  capaz de fornecer ajuda queles que sofrem em sua luta para atender s exigncias da civilizao, esse 
auxlio deveria ser acessvel tambm  grande multido, demasiado pobre para reembolsar um analista por seu laborioso trabalho. Isso parece constituir uma necessidade 
social particularmente em nossos tempos, quando os estratos intelectuais da populao, sobremodo inclinados  neurose, esto mergulhando irresistivelmente na pobreza. 
Institutos como a Policlnica de Berlim esto tambm isolados na posio de superar as dificuldades que, por outro lado, se erguem no caminho de uma instruo completa 
em psicanlise. Eles tornam possvel a instruo de um nmero considervel de analistas formados, cuja atividade deve ser encarada como a nica proteo possvel 
contra o dano causado aos pacientes por pessoas ignorantes e no qualificadas, sejam leigos ou mdicos essas pessoas.
         
         CARTA A FRITZ WITTELS (1924 [1923])
         
         O senhor deu-me um presente de Natal que est grandemente em absoro com minha prpria personalidade. Faltar com enviar-lhe uma palavra de agradecimento 
por um presente assim, seria um ato de rudeza apenas explicvel por motivos muito peculiares. Afortunadamente, no caso presente no existem motivos dessa natureza. 
Seu livro de modo algum  hostil; no  indevidamente indiscreto e manifesta o srio interesse no assunto, possvel de se prever em um escritor to competente quanto 
o senhor.
         Mal necessito dizer que no esperava nem desejava a publicao de um livro como esse. Parece-me que o pblico no encerra interesse em minha personalidade 
e nada pode aprender de uma descrio dela, enquanto meu caso (por mltiplas razes) no puder ser exposto sem quaisquer reservas. Contudo, o senhor pensou de modo 
diverso. Seu prprio desligamento de mim, que considera uma vantagem, no obstante provoca srios inconvenientes. O senhor conhece muito pouco do objeto de estudo 
e no pde evitar o risco de exagerar um pouco os fatos, em seus esforos analticos. Ademais, estou inclinado a pensar que sua adoo do ponto de vista de Stekel 
e o fato de o senhor contemplar o objeto de estudo a partir da concepo dele, no podem deixar de haver prejudicado a exatido de seu discernimento.
         Em alguns respeitos, penso existirem deformaes positivas e acredito que essas sejam o resultado de uma noo preconcebida sua. O senhor julgaque um grande 
homem deve possuir tais e quais mritos e defeitos, e apresentar certas caractersticas extremas. E sustenta que perteno  categoria dos grandes homens. Essa  
a razo por que me atribui toda sorte de qualidades, dentre as quais muitas so mutuamente conflitantes. Bastante coisa de interesse geral poderia ser dita sobre 
esse assunto; infelizmente, porm, seu relacionamento com Stekel impede outras tentativas minhas de esclarecer o mal-entendido.
         Em compensao, fico contente com reconhecer que sua argcia o capacitou a detectar algumas coisas bem conhecidas por mim. Por exemplo, o senhor tem razo 
em inferir que amide fui compelido a realizar dtours ao seguir meu prprio caminho. Tem razo, tambm, em pensar que no vejo emprego para as idias de outras 
pessoas, quando so apresentadas a mim em momento inoportuno. (Apesar disso, com referncia ao ltimo ponto, penso que o senhor poderia ter-me defendido da acusao 
de repudiar idias quando no momento sou meramente incapaz de submet-las a um julgamento ou elabor-las.) No entanto, fico encantado por descobrir que o senhor 
me faz inteira justia na questo de minhas relaes com Adler...
         Compreendo que o senhor pode ter oportunidade de revisar seu texto com vistas a uma segunda edio. Visando a essa possibilidade, anexo uma relao de emendas 
sugeridas. Elas se baseiam em dados fidedignos e so completamente independentes de minhas prprias prevenes. Algumas delas se relacionam a assuntos de importncia 
trivial, outras, porm, talvez o levem a inverter ou modificar determinadas inferncias. O fato de enviar-lhe essas correes constitui penhor de que valorizo seu 
trabalho, embora no possa aprov-lo inteiramente.
         
         CARTA AO SEOR LUIS LOPES-BALLESTEROS Y DE TORRES (1923)
         
         Quando era um jovem estudante, meu desejo de ler o imortal Dom Quixote no original de Cervantes levou-me a aprender, sem mestre, a encantadora lngua castelhana. 
Graas a esse entusiasmo juvenil, estou hoje capaz - em uma idade avanada - de verificar a exatido de sua verso espanhola de minhas obras, cuja leitura invariavelmente 
provoca em mim viva apreciao de sua interpretao corretssima de meus pensamentos e da elegncia de seu estilo. Fico sobretudo surpreso com algum, como o senhor, 
no sendo mdico nem psiquiatra de profisso, ter sido capaz de alcanar um domnio to absoluto e preciso sobre um material que  intricado e, s vezes, obscuro.
         
         CARTA A LE DISQUE VERT (1924)
         
         Das diversas lies a mim prodigalizadas no passado (1885-6) pelo grande Charcot, na Salptrire, duas deixaram profunda impresso em mim: que jamais devemos 
nos fatigar de considerar os mesmos fenmenos repetidas vezes (ou de nos submeter a seus efeitos), e que no devemos nos importar com depararmos com a contradio 
de todos os lados, de vez que tenhamos trabalhado com sinceridade
         
         CARTA AO EDITOR DO CENTRO DA IMPRESSA JUDAICA EM ZURIQUE (1925)
         
         ...Posso dizer que me coloco to distante da religio judaica quanto de todas as outras religies; isso equivale a dizer que elas tm grande significao 
para mim como tema do interesse cientfico, porm delas no participo emocionalmente. Por outro lado, sempre tive um forte sentimento de solidariedade para com o 
povo de minha raa e sempre o incentivei tambm em meus filhos. Todos ns permanecemos sob a confisso judaica.
         No tempo de minha juventude, nossos instrutores religiosos, livres pensadores, no davam valor a que seus alunos adquirissem um conhecimento da lngua e 
literatura hebraica. Minha educao nesse campo, portanto, foi extremamente tardia, como mais tarde muitas vezes lamentei.
         
         POR OCASIO DA INAUGURAO DA UNIVERSIDADE HEBRAICA (1925)
         
         Os historiadores nos contaram que nossa pequena nao suportou a destruio de sua independncia como Estado apenas porque comeou a transferir, em sua 
estimativa de valores, o lugar mais alto para suas posses espirituais, para sua religio e para sua literatura.
         Vivemos agora numa poca em que este povo tem perspectivas de novamente conquistar a terra de seus pais com o auxlio de uma potncia que domina o mundo, 
e celebra a ocasio pela fundao de uma universidade em sua antiga capital.
         Uma universidade  um lugar onde o saber  ensinado acima de todas as diferenas de religies e naes, onde a investigao  conduzida, e que se destina 
a mostrar  humanidade a que amplitude ela pode compreender o mundo a seu redor, e at onde pode control-lo.
         Tal empreendimento constitui nobre testemunho do desenvolvimento para o qual nosso povo abriu caminho, em dois mil anos de infeliz sorte.
         Acho penoso que minha sade desfavorvel me impea de estar presente s festividades inaugurais da Universidade Judaica em Jerusalm.
         
         MODIFICAES EDITORIAIS NA ZEITSCHRIFT (1924)
         
         O Dr. Otto Rank atuou como editor desta revista desde sua fundao em 1913, embora somente a partir de 1920 tenha sido nomeado na pgina de rosto como editor 
nico. Durante o perodo de servio militar na guerra, seu lugar foi assumido pelo Dr. Hanns Sachs, que naquela ocasio se encontrava em Viena. Desde o incio do 
presente volume, o Dr. S. Ferenczi tambm teve sua participao na editoria.
         Na Pscoa de 1924 o Dr. Rank aceitou um convite que o levou a Nova Iorque. Em seu retorno  casa, anunciou que decidira transferir suas atividades como 
analista didata e clnico para os Estados Unidos - pelo menos durante parte do ano. Assim, tornou-se necessrio depositar as funes de editor da Zeitschrift em 
outras mos. No est dentro dos direitos do Diretor dar expresso pblica  sua opinio acerca do nvel e das realizaes desta revista. Ningum inclinado a apreci-las 
deve desprezar ou esquecer quanto de seu sucesso se deve  incansvel devoo e trabalho exemplar do editor que se afasta.
         O lugar do Dr. Rank ser agora assumido pelo Dr. S. Rad, de Berlim. Ele ser apoiado, como conselheiros e colaboradores, pelo Dr. M. Eitingon (Berlim) 
e pelo Dr. S. Ferenczi (Budapest). Todas as comunicaes e contribuies para o editor devem ser dirigidas ao Dr. Sndor Rad, Berlin-Schrneberg, Am Park, 20. A 
parte comercial da Zeitschrift ser conduzida, como antes, nos escritrios da Internationaler Psychoanalytischer Verlag em Viena (Gerente: A. J. Storfer).



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O ego e o ID e outros trabalhos - Sigmund Freud
